







O Estranho caso da Velha Curiosa
Agatha Christie










Ttulo original
4.50 From PADDInGTOn

Traduo
MASCARENHAS BARRETO



.


  Mrs. McGillicuddy seguia arquejando, ao longo do
cais, na esteira do carregador que lhe transportava a
mala. Mrs. McGillicuddy era baixa e corpulenta, ao
passo que o carregador era alto e esgalgado. Alm disso, Mrs. McGillicuddy ia carregada com uma 
quantidade de embrulhos, resultado de um dia de compras
para o Natal. Por conseguinte, a corrida era desigual e
o carregador dava j a volta ao extremo do cais, quando Mrs. McGillicuddy ia ainda a meio deste.
  Havia pouca gente, naquele momento, no cais
n.o 1, pois acabara de partir um comboio, mas do outro lado da linha uma multido apressada precipitava-
se nas direces do metropolitano, dos depsitos de
bagagens, das salas de ch, das agnias de informaes, dos quadros de horrios e das duas sadas.
  Mrs. McGillicuddy, depois de receber vrios encontres, conseguiu chegar  entrada do cais n.o 3, onde
depositou um embrulho no cho, enquanto rebuscava
na mala  procura do bilhete que lhe permitiria passar
pelo guarda, de aspecto carrancudo, postado junto 
cancela.
  Nesse momento, uma voz, roufenha embora corts, proferiu por cima da sua cabea:
  - O comboio parado no cais nmero trs parte s
quatro horas e cinquenta minutos para Brackhampton,
Milchester, Waverton, Entroncamento de Carvil, Roxeter e estaes seguintes at Chadmonth. Os 
passageiros que vo para Brackhampton e Milchester de


vem viajar na ltima carruagem do comboio. Os passageiros para Vanequay tm transbordo em Roxeter. - 
A voz
calou-se com um estalido e depois tornou a falar para
anunciar a chegada ao cais n." 9, s quatro horas e trinta
e cinco minutos, do comboio procedente de Birmingham
e de olverhampton.
  l''Irs. McGillicuddv encontrou o bilhete e apresentou-o. O homem furou-o e murmurou:
  - A direita... na ltima carruagem.
  'Zrs. McGillicuddv entrou no cais e encontrou o
seu carregador, com um ar aborrecido, a olhar para
o ar,  porta de uma carruagem da terceira classe.
  - Aqui tem a sua mala.
  -  iajo em primeira classe - informou Mrs. lIcGillicuddv_.
  - J mo podia ter dito - resmungou o carregador, olhando desdenhosamente para o casaco de tweed
de corte masculino que Mrs. McGillicuddy vestia.
  Mrs. McGillicuddy, embora j lho tivesse dito, no
esteve disposta a discutir. Estava completamente sem
flego.
  O carregador tornou a pegar na mala e caminhou
at  carruagem seguinte, onde Mrs. McGillicuddv se
instalou num luxuoso compartimento de que era a nica ocupante. O comboio das quatro e cinquenta no 
era
muito procurado, pois a clientela da primeira classe
preferia o expresso da manh ou o comboio das seis e
quarenta com vago-restaurante. Mrs. McGillicuddy
estendeu uma gorjeta ao carregador, que a recebeu,
desapontado, achando-a mais prpria de um passageiro da terceira classe do que da primeira. Mas a idosa
senhora, embora disposta a gastar dinheiro para viajar
confortavelmente depois de uma noite de viagem, que
a trouxera do Norte, e de um dia de compras febril,
nunca se mostrava extravagante, em matria de gorjetas.
  Recostou-se no acolchoado macio do assento, soltando um suspiro, e abriu uma revista. Cinco minutos
depois, soaram apitos e o comboio partiu. A revista escorregou da mo de Mrs. McGillicuddy, a cabea 
desta pendeu para o lado e trs minutos depois a corpulenta dama dormia. O seu sono durou cerca de 
trinta e
cinco minutos. Acordou restaurada. Ajeitando o chapu, que lhe descara para o lado, endireitou-se no
assento e contemplou, atravs da janela, a paisagem
que fugia. A essa hora do dia, um dia triste e enevoado de Dezembro - faltavam apenas cinco dias para o
Natal -, j estava muito escuro. Londres mostrava-se
triste e enevoada e o campo igualmente, embora, de vez
em quando, essa monotonia fosse interrompida pelas
luzes das cidades e das estaes por onde o comboio
passava.
  - ltimo servio de ch - anuiu um empregado,
abrindo a porta do corredor.
  Mrs. McGillicuddy j tomara ch num grande estabelecimento e, por conseguinte, naquela altura,
achava-se bem alimentada. O empregado prosseguiu o
seu caminho pelo corredor fora, proferindo o mesmo
aviso numa voz montona. Mrs. McGillicuddy ergueu
o olhar para a rede onde repousavam os seus vrios
embrulhos e nesse olhar havia uma expresso satisfeita. As toalhas de rosto tinham sido uma compra 
excelente e eram precisamente o que Margaret desejava, a
espingarda de presso de ar para Mobby e o coelho para Jean eram muito satisfatrios, e o casaquinho 
curto
que comprara para a noite, quente e vistoso, era exactamente o que ela prpria queria. A camisola de l 
para Hector tambm... o seu esprito comprazia-se a
reflectir nas compras que fizera.
  O seu olhar satisfeito voltou-se para a janela. Na
outra linha frrea passou um comboio com um som spero e repentino, fazendo vibrar as janelas e 
sobressaltando Mrs. McGillicuddy. Pouco depois, o comboio
em que esta viajava passou por uma estao.
  Depois, subitamente, comeou a abrandar a velocidade, em obedinia ao que parecia a algum sinal. 
Rodou durante uns minutos, parou e, pouco depois, vol


tou a avanar. Um outro comboio voltou a ganhar
velocidade. Nesse momento, outro comboio que seguia por linha diversa, no mesmo sentido que o de
Mrs. McGillicuddy aproximou-se e, durante um momento, os dois correram paralelamente. Mrs. 
McGillicuddy olhou atravs das janelas dos dois comboios
para as carruagens paralelas. A maior parte das cortinas encontravam-se baixadas, mas alguns ocupantes
das carruagens estavam visveis. O outro comboio no
ia muito cheio e levava muitas carruagens vazias.
  No momento em que os dois comboios davam a
impresso de estar parados, a cortina de uma das carruagens ergueu-se de repente. Mrs. McGillicuddy 
olhou
para a carruagem iluminada da primeira classe que lhe
ficava apenas a alguns metros de distnia.
  Voltado de costas para ela e encostado  janela estava um homem. As suas mos envolviam o pescoo
de uma mulher, virada para ele, e lentamente, implacavelmente, estrangulavam-na. A mulher tinha o rosto
roxo e congestionado e os olhos comeavam a sair-lhe
das rbitas. Enquanto Mrs. McGillicuddy os observava, fascinada, a cena teve o seu desfecho: o corpo 
tornou-se frouxo e vergou, sob o aperto das mos do
homem.
  No mesmo momento, o comboio de Mrs. McGillicuddy voltou a abrandar a marcha e o outro ultrapassou-
o, desaparecendo da vista, momentos depois.
  Quase automaticamente, a mo de Mrs. McGillicuddy elevou-se at ao cordo de alarme e depois parou 
irresoluta. No fim de contas, de que valia puxar o
cordo de alarme do comboio em que ela viajava?
O horror que presenciara a to pouca distnia e as
circunstnias fora de comum em que a cena ocorrera,
faziam-na sentir-se paralisada. Era necessrio agir imediatamente... mas como?
  A porta do seu compartimento abriu-se e um revi  sor pediu:
  - O seu bilhete, por favor.

  Mrs. McGillicuddy virou-se para ele com veemnia:
  - Uma mulher acaba de ser estrangulada - informou. - Num comboio que passou por este, agora
mesmo. Eu vi.
  O revisor olhou-a com um ar de dvida:
  - Como disse, minha senhora?
  - Um homem estrangulou uma mulher! Num
comboio. Eu vi... pela janela - acrescentou, apontando para esta.
  O revisor parecia extremamente duvidoso.
  - Estrangulou-a? - perguntou, com incredulidade.
  - Sim, estrangulou-a! J lhe disse que vi. O senhor
tem de fazer qualquer coisa, imediatamente.
  O revisor pigarreou, como se se desculpasse:
  - No acha possvel, minha senhora, que tenha
dormitado um pouco e... hum... - calou-se, prudentemente.
  - Dormitei, de facto, mas se julga que o que contei foi sonho est muito enganado. J lhe disse que vi.
  Os olhos do revisor pousaram-se na revista aberta,
cada no assento. Na pgina exposta via-se um homem
estrangular uma rapariga, enquanto, junto a uma porta, um outro homem de revlver em punho, ameaava
o par.
  O revisor procurou ser persuasivo.
  - No acha possvel, minha senhora, que, depois
de ler uma histria excitante e de ter adormecido, possa ter acordado um pouco confusa...
  Mrs. McGillicuddy interrompeu-o.
  - Eu vi - insistiu. - Estava to acordada como
o senhor o est. Naquele momento olhei atravs desta
janela para a janela do outro comboio e vi um homem
estrangular uma mulher. Quero saber se vai tomar as
providnias necessrias.
  - Bem... minha senhora...
  - Suponho que tenciona fazer alguma coisa, no 
verdade?

9



  O revisor suspirou de modo relutante e consultou
o relgio de pulso.
  - Chegaremos a Brackhampton exactamente dentro de sete minutos. Participarei o que acaba de contar-
me. Em que direco seguia o comboio que mencionou?
  - Na deste mesmo comboio,  evidente. Decerto
no supe que eu pudesse ter visto tudo isso, se esse
comboio houvesse passado como uma flecha, em sentido oposto.
  A expresso do revisor dava a entender que este
julgava Mrs. McGillicuddy capaz de ver o que quer
que fosse onde a fantasia lho ditasse.
  - Pode confiar em mim, minha senhora - assegurou. - Participarei a sua informao. Talvez seja
melhor dar-me o seu nome e morada... simplesmente
para o caso de ser necessrio...
  Mrs. McGillicuddy deu-lhe o endereco que teria
durante os prximos dias e o seu endereco permanente
na Esccia. Depois de anot-los, o revisor retirou-se com
o ar de um homem que cumprira o seu dever e se sara
bem de um incidente com um elemento enfadonho do
pblico viajante.
  Mrs. McGillicuddv ficou de sobrolho franzido e
vagamente inquieto. O revisor iria de facto participar
o que ela lhe contara? Ou prometera-lho, apenas para
acalm-la?
  Agora, o comboio voltava a abrandar a marcha e
atravessava uma grande cidade iluminada.
  Mrs. McGillicuddv abriu a malinha de mo, rebuscou no interior e retirou um recibo, em cujo verso
garatujou rapidamente umas palavras. Meteu-o num
sobrescrito que, por sorte, levava na mala e escreveu
nele qualquer coisa.
  O comboio parou junto a um cais cheio de gente.
A habitual voz comum a todas as estaes entoava:
  - O comboio que acaba de chegar ao cais nmero
  um  o que parte s cinco horas e trinta e oito minutos

para Milchester, Waverton, Roxeter e estaes seguintes
at Chadmonth. Os passageiros que vo para Market
Basing seguem no comboio agora parado no cais nmero trs.
  Mrs. McGillicuddy olhou ansiosamente ao longo
do cais. Tantos passageiros e to poucos carregadores! Ah, ali estava um! Chamou-o com uma voz 
autoritria.
  - Carregador! Faa favor de levar isto imediatamente ao chefe da estao.
  Estendeu-lhe o sobrescrito e um xelim.
  Depois, soltando um suspiro, recostou-se no assento. Fizera o que pudera. O seu esprito concentrou-se,
por um instante, com desgosto, no xelim... Meio-xelim teria sido suficiente.
  Em seguida, voltou a evocar a cena que presenciara. Horrvel, absolutamente horrvel... Apesar de ser
uma mulher de nervos de aco, estremeceu. Que coisa
estranha... que coisa fantstica lhe havia de acontecer,
a ela, Elspeth McGillicuddy! Se a cortina da carruagem no se tivesse erguido... Mas isso por certo fora
obra da Providnia.
  A Prov idnia quisera que ela, Elspeth McGillicuddv_, testemunhasse o crime. Os lbios cerraram-se-lhe, 
numa linha que denotava o horror que sentia.
  Ouviram-se vozes gritando, apitos e portas fechando-se com estrondo. O comboio saiu lentamente da
estao, s cinco e trinta e oito. Uma hora e cinco minutos depois parava em Milchester.
  Mrs. McGillicuddy pegou nos embrulhos e na mala, e desceu do comboio. Olhou para ambos os lados
do cais. O seu esprito reiterava a opinio anterior: no
havia carregadores suficientes. Os que havia pareciam
estar ocupados com as malas de correio e com os vages de bagagens. Parecia que, hoje em dia, 
competia
aos passageiros transportarem a prpria bagagem. Mas
ela no podia ir carregada com a mala, o guarda-chuva
e todos aqueles embrulhos. Esperaria. Por fim, conseguiu arranjar um carregador.

10 11



  - Txi?
  - Espero que haja qualquer coisa  minha espera
- redarguiu.
  L fora,  porta da estao de Milchester, um motorista de praa, que estivera a observar a sada das
pessoas adiantou-se.
  - E Mistress McGillicuddy? - perguntou. - Vai
para Saint Mary Mead?
  Mrs. McGillicuddy confirmou a sua identidade, e
o carregador foi devidamente recompensado. O carro,
transportando Mrs. McGillicuddy, a mala e os embrulhos, afastou-se na noite. Depois de um percurso de
quinze quilmetros, o txi seguiu ao longo da familiar
rua da aldeia e acabou por parar. Mrs. McGillicuddy
apeou-se e subiu o caminho de tijolos at  porta. Uma
criada de meia-idade veio abrir e o motorista pousou a
mala e os embrulhos no interior da casa. Mrs. McGillicuddy atravessou o trio e entrou na sala de estar 
onde a dona da casa, uma senhora idosa e de aparnia
frgil, aguardava.
  - Elspeth!
  - Jane!
  Beijaram-se e, sem qualquer prembulo, Mrs. McGillicuddy comeou a falar.
  - Oh, Jane! - gemeu. - Acabo de presenciar
um assassinio!



II


  Fiel aos preceitos que lhe tinham sido transmitidos
pela av e pela me - entre os quais, a saber: uma
verdadeira senhora nunca se pode mostrar chocada
nem surpreendida - Miss Marple limitou-se a erguer
as sobrancelhas e a menear a cabea, dizendo:
  - Isso  um acontecimento horrvel, Elspeth, e

deveras invulgar. Creio que ser melhor contares-me
tudo sem demora.
  Era precisamente isso o que Mrs. McGillicuddy
queria fazer. Depois de sentar-se ao lado da amiga,
perto da lareira, Mrs. McGillicuddy tirou as luvas e
mergulhou na narrativa vivida.
  Miss Marple escutava-a cheia de ateno. Quando,
fmalmente, Mrs. McGillicuddy fez uma pausa, para
tomar flego, Miss Marple falou com deciso.
  - Creio que a melhor coisa que tens a fazer, minha boa Elspeth,  ires l acima, tirares o chapu e 
lavares-te. Depois cearemos... e, enquanto o fizermos,
no falaremos em nada disto. Depois da ceia, ento,
sim, poderemos voltar a ocupar-nos do assunto e a discuti-lo, sob todos os aspectos.
  Mrs. McGillicuddy concordou com a sugesto. As
duas senhoras cearam, discutindo, enquanto comiam,
vrios aspectos da vida, na aldeia de St. Marv Mead.
Miss Marple comentou a natural desconfiana que o
novo organista despertava, relatou o escndalo recente
acerca da mulher do farmacutico e referiu-se  hostilidade existente entre a mestra-escola e o Instituto 
Feminino da aldeia. Depois, a conversa versou sobre o
jardim de cada uma.
  - As penias - sentenciou Miss Marple, ao levantar-se da mesa - so muitssimo falsas. L'mas vezes 
resistem, outras secam. Mas, se chegam a deitar
razes, duram uma vida inteira, como se costuma dizer, e hoje em dia existem variedades verdadeiramente
belas.
  Voltaram a instalar-se junto  Iareira, desta vez
com dois copos e uma garrafa de leite.
  - Esta noite, Elspeth, no tomas caf - disse
Miss Marple. - J ests muito excitada, o que no 
para admirar, e provavelmente no conseguirs dormir. Receito-te um copo do meu vinho de vaca e,
talvez mais tarde, tambm uma chvena de camomila.
  Mrs. McGillicuddy concordou e Miss Marple en  cheu-lhe o copo.

12 13



  - Jane - comeou Mrs. McGillicuddy, enquanto
bebia um gole -, tu no julgas que o que te contei se
trata de um sonho ou de imaginao minha, pois no?
  - Decerto que no - assegurou Miss Marple com
ardor.
  Mrs. McGillicuddy soltou um suspiro de alvio.
  - Esse revisor - continuou -, esse julgou que eu
sonhara. Foi muito delicado, mas...
  - Acho, Elspeth, que isso foi natural, se atendermos s circunstnias. Pareceu... e ainda parece...
uma histria deveras incrvel. E tu eras-lhe completamente desconhecida. No, no tenho dvida alguma
de que viste o que me contaste ter visto.  muito extraordinrio... mas de forma alguma impossvel. O 
homem estava virado de costas para ti, segundo dizes.
Por conseguinte, no lhe viste a cara?
  - Pois no.
  - E s capaz de descrever a mulher? Nova, velha?
  - Mais nova do que velha, entre os trinta e os
trinta e cinco anos.
  - Bonita?
  - Tambm no o posso dizer. Bem vs, tinha o
rosto convulsionado e...
  Miss Marple apressou-se a dizer:
  - Sim, sim, compreendo perfeitamente. Como estava vestida?
  - Tinha vestido um casaco de peles, de uma cor
plida. Estava sem chapu e tinha cabelo loiro.
  - ITo havia nenhuma nota distintiva no homem
de que te possas recordar?
  Mrs. McGillicuddv levou algum tempo a pensar
cuidadosamente antes de responder:
  - Era alto... e moreno, creio. Trajava um casaco
de fazenda grossa e, por conseguinte, no sei bem se
era forte ou magro - acrescentou desanimadamente.
- Na realidade, estes dados no so de grande utilidade.
J so de alguma - animou Miss Marple. Fez

uma pausa e depois perguntou: - Tens a certeza de
que a rapariga ficou... morta?
  - Absoluta. Tinha a lngua toda para fora e...
prefro no falar nisso...
  - Claro, claro - apressou-se Miss Marple a concordar. - Amanh de manh, espero que saibamos
mais coisas.
  - Amanh de manh?
  - Calculo que a notcia venha nos jornais. Depois
de esse homem atacar e matar essa mulher, ficou a
mos com um cadver. Que lhe fez?  de presumir
que se apressou a sair do comboio na primeira estao... a propsito, recordas-te se a carruagem tinha
corredor?
  - No, no tinha.
  - Isso parece indicar um comboo que no faz um
percurso muito longo. E quase certo ter parado em
Brackhampton. Digamos que se apeou do comboio
em Brackhampton, talvez depois de ter posto o cadver a um canto do assento, com o rosto escondido 
pela
gola de peles, para, desse modo, retardar a sua descoberta. Sim... Julgo que foi isso que ele fez. Mas o 
crime no tardar com certeza a ser descoberto... e calculo que a notcia venha publicada nos matutinos de
amanh. Veremos.

  Porm, tal no aconteceu.
  Miss Marple e Mrs. McGillicuddy, depois de se
certificarem de que a notcia do crime no fora publicada nos jornais, acabaram o pequeno-almoo em
silnio. Estavam ambas imersas em profundas reflexes.
  Depois do pequeno-almoo deram uma volta pelo
jardim, mas esse passatempo, em geral absorvente, foi
nesse dia um pouco forado. Miss Marple chamou
de facto a ateno da amiga para alguns espcimes
raros e novos que adquirira, mas f-lo distraidamente.
E Mrs. McGillicuddy, contra o costume, no ripostou
com uma lista das suas recentes aquisies.

14 15



  - O jardim no est como devia estar - disse
Miss Marple, de modo abstracto. - O doutor Haydock proibiu-me terminantemente que me baixasse ou
ajoelhasse, mas, na realidade, que pode uma pessoa fazer sem se baixar ou ajoelhar?
  - Tens toda a razo - disse Mrs. McGillicuddy.
- Comigo, evidentemente que no se passa o mesmo,
mas a verdade  que depois das refeies custa-me
muito baixar-me.
  Seguiu-se um silnio que Mrs. McGillicuddy interrompeu, por fim, perguntando:
  - Ento?
  Apenas uma palavra insignificante que, porm, o
tom com que Mrs. McGillicuddy a proferiu tornou
muito signifcativa, e Miss Marple compreendeu perfeitamente o seu significado.
  As duas senhoras entreolharam-se.
  - Acho - opinou Miss Marple - que devamos
ir  esquadra falar com o sargento Cornish.  inteligente e paciente, alm de que nos conhecemos um ao
outro muito bem. Acho que nos dar ouvidos e comunicar o caso para a esquadra devida.
  Em consequnia disso, cerca de trs quartos de
hora depois, Miss Marple e Mrs. McGillicuddy conversavam com um homem de rosto severo e barbeado,
que aparentava os seus trinta e tal anos e escutava com
ateno o que as duas lhe diziam.
  Frank Cornish recebeu Miss 1'Iarple com um misto
de cordialidade e defernia. Ofereceu cadeiras s duas
senhoras e perguntou:
  - Em que posso ser-lhe til, Miss lIarple?
  Esta retorquiu:
  - Gostaria que fzesse o favor de ouvir a histria
que a minha amiga Mistress McGillicuddy tem para
contar-lhe.
  E o sargento ouviu. Depois de Mrs. McGillicuddy
ter acabado o seu relato, o sargento ficou calado durante alguns momentos, findo os quais disse:

16

  - Trata-se de uma histria muito extraordinria.
- Os seus olhos tinham disfaradamente feito um
exame apreciativo de Mrs. McGillicuddy enquanto esta falava.
  Esse exame impressionara-o de maneira favorvel.
Tratava-se de uma mulher inteligente, capaz de expor
devidamente um caso e, pelo que lhe era dado julgar,
nada tinha de exagerada ou histrica. Alm disso,
Miss Marple, segundo parecia, acreditava na veracidade do relato da amiga e ele conhecia muito bem Miss
Marple. Todos os habitantes de St. Mary Mead conheciam Miss Marple: de aparnia bonacheirona, mas 
de
esprito to vivo e arguto quanto possvel.
  Pigarreou e disse:
  - Evidentemente que pode ter-se enganado... Note que no digo que se enganou... Mas pode ter-se 
enganado. H imensas brincadeiras de mau gosto... e
pode no ter sido um caso srio ou fatal.
  - Eu bem sei o que vi - insistiu Mrs. McGillicuddy inflexivelmente.
  E no muda de opinio pensou Frank Cornish
mas tanto pode ter razo como no. 
  Em voz alta declarou:
  - A senhora contou o que viu aos empregados dos
caminhos-de-ferro e procurou-me para contar-mo tambm a mim. Procedeu como devia e pode estar 
descansada que tambm mandarei proceder ao devido inqurito.
  Calou-se. Miss Marple meneou a cabea, satisfeita.
Mrs. McGillicuddy no sentia igual satisfao, mas nada
disse. O sargento Cornish perguntou a Miss Marple:
  - Admitindo que os factos sejam esses, que julga
que tenha acontecido ao corpo?
  - Parece haver apenas duas possibilidades - respondeu Miss Marple, sem hesitar. - A mais plausivel
, certamente, ter o corpo ficado no comboio, mas isto
agora parece improvvel, uma vez que deveria ter sido

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encontrado na noite passada, por outro viajante ou pelo pessoal do caminho-de-ferro, na ltima estao do
itinerrio do comboio.
  Frank Cornish meneou a cabea com um ar aprovador.
  - A nica outra sada ao dispor do assassino seria
atirar o corpo do comboio  linha. Acho que deve estar ainda por descobrir em qualquer ponto do trajecto,
embora isso me parea um pouco improvvel. Mas
acho que no podia ter uma terceira sada.
  - Temos notcias de corpos que so metidos dentro de males - disse Mrs. McGillicuddy -, mas hoje em 
dia ningum viaja com males e sim com malas
pequenas. Ora, no  possvel meter um corpo numa
mala dessas.
  - Sim, concordo com ambas - disse o sargento.
- O cadver, admitindo que existe, a esta hora j devia ter sido descoberto, ou ento s-lo- muito em 
breve. P-las-ei ao corrente do que souber sobre o caso,
embora suponha que o possam ler nos jornais. H, 
claro, a possibilidade de a mulher no ter morrido,
apesar de barbaramente atacada. Pode ter sido capaz
de sair do comboio pelo seu prprio p.
  - Dificilmente o conseguiria sem ajuda - opinou
Miss Marple. - E, nesse caso, teria sido notada a sua
sada apoiada a algum.
  - Sim, teria sido notada - concordou Cornish.
- E, se alguma mulher foi encontrada desmaiada ou
doente, numa carruagem, e transportada para o hospital, isso tambm teria sido notado. Acho que, muito
em breve, ouviro notcias do caso.
  Mas esse dia e o seguinte passaram sem novidade.
Na noite imediata, Miss Marple recebeu um bilhete
do sargento Cornish.

  Em refernia ao assunto acerca do qual me consultou,
foram realizadas averiguaes, sem resultado. No se encontrou qualquer cadver de mulher. Nenhum 
hospital dispensou tratamento a uma mulher como descreveu e no se
verificou gualquer caso de uma mulher desmaiada ou
doente ter saido de uma estao dos caminhos-de ferro, nos
braos de um homem. Pode ter a certeza de que foi feita
uma investigao. Talvez a sua amiga tenha presenciado
uma cena como a que descreveu, mas menos sria do que
sups.



III


  - Menos sria! Tolices! - proferiu Mrs. McGillicuddy. - Foi um assassnio!
  Olhava desafiadoramente para Miss Marple que
lhe retribuiu o olhar.
  - Vamos, Jane! - incitou Mrs. McGillicuddy.Diz tambm que foi um engano meu! Diz que foi tudo
imaginao minha! E isso o que pensas, no  verdade?
  - Qualquer pessoa pode enganar-se - observou
Miss Marple com delicadeza. - Qualquer pessoa, Elspeth... at tu. Acho que nunca nos devemos esquecer
disso. Mas, sabes, continuo a pensar que  mais provvel que no te tenhas enganado... Usas culos para
ler, mas vs muito bem ao longe... e o que viste impressionou-te profundamente. Quando c chegaste,
ainda no te refizeras da comoo.
  - Foi uma coisa que nunca esquecerei - afiancou
Mrs. McGillicuddy, estremecendo. - O pior  que
no sei o que hei-de fazer!
  - No me parece que possas fazer mais alguma
coisa do que j fizeste - disse Miss Marple pensativamente. - Participaste o que viste a funcionrios do
caminho-de-ferro e  Polcia. No, no podes fazer
mais coisa alguma.
  - Isso, pelo menos, j  um alvio, porque, como

18  19



sabes, parto para o Ceilo logo a seguir ao Natal, para
passar um tempo em casa de Roderick e no quero
adiar essa visita com que ando a sonhar h tanto tempo.  evidente que se o meu dever fosse adi-la, f-lo-
ia - acrescentou conscientemente.
  - Estou certa de que sim, Elspeth, mas, como j
te disse, acho que j fizeste tudo quanto te era possvel.
  - A Polcia  que tem de encarregar-se do casosentenciou Mrs. McGillicuddy. - E se a Polcia quer
ser estpida...
  Miss Marple abanou a cabea com deciso.
  - No, no - contrariou -, a Polcia no  estpida. Isto at torna o caso mais interessante, no
achas?
  Mrs. McGillicuddy olhou-a sem compreender, e
Miss Marple confirmou a sua opinio de que a amiga
era uma mulher de excelentes princpios, mas destituda de imaginao.
  - Gostava de saber o que na realidade aconteceu
- disse Miss Marple.
  - Foi assassinada.
  - Sim, mas quem a matou, porqu e o que aconteceu ao corpo? Onde est ele agora?
  - Compete  Polcia descobrir tudo isso.
  - Exactamente... mas ainda no o descobriu. Isso
significa que o homem era inteligente... muito inteligente. No consigo imaginar - prosseguiu Miss Marple 
franzindo o sobrolho - como  que se desembaracou do corpo... Assassina-se uma mulher num acesso
de fria... Esse crime no deve ter sido premeditado,
pois nunca se escolheria o momento para comet-lo,
nessas circunstnias, poucos minutos antes de o comboio entrar numa grande estao. No, deve ter 
sido
uma discusso, por cimes... qualquer coisa assim.
Estrangulou-a. Que outra coisa poderia fazer a no
ser, como eu j disse, pr o corpo a um dos cantos do
assento, como se estivesse a dormir, com o rosto tapado, e depois sair do comboio to depressa quanto 
possvel? No vejo outra possibilidade... e, contudo, deve
ter havido uma...
  Miss Marple perdeu-se em pensamentos.
  Mrs. McGillicuddy dirigiu-lhe a palavra, por duas
vezes, antes de ela responder.
  - Ests a ficar surda, Jane.
  - Um pouco, talvez. Parece-me que as pessoas
no proferem as palavras to nitidamente como o faziam. Mas o caso agora no foi esse. Creio que no 
estava a dar-te ateno.
  - Estava a falar-te nos comboios que h amanh
para Londres. Achas bem o da tarde? Vou a casa de
Margaret e ela no me espera antes da hora do ch.
  - Porque no vais antes no das doze e quinze? Poderamos almoar mais cedo!
  - Certamente e...
  Miss Marple prosseguiu, abafando o som das palavras da amiga:
  - Talvez Margaret no se importe que no vs l
lanhar e que s chegues por volta das sete?
  lirs. McGillicuddy olhou curiosamente para a
amiga.
  - Qual  a tua ideia, Jane?
  - Sugiro, Elspeth, que vamos ambas a Londres e
que voltemos a Brackhampton no comboio em que
viajaste no outro dia. Depois seguirias de Brackhampton para Londres e eu viria at aqui como tu fizeste.
 claro que as despesas de tudo isto correm por minha
conta - Miss Marple acentuou bem este ponto da
questo.
  Mrs. McGillicuddy ignorou o aspecto fmanceiro.
  - Que diabo esperas, Jane? - perguntou. - Outro assassnio?
  - Certamente que no - respondeu Miss Marple
chocada. - Mas confesso que me agradaria ver eu
prpria, sob a tua orientao o... o...  na realidade
muitssimo difcil encontrar o termo conveniente... o
ambiente do crime.


20 I 21



  Em consequnia disso, no dia seguinte, Miss Marple e Mrs. McGillicuddv achavam-se, em frente uma
da outra, junto  janela de uma carruagem da primeira
classe que sara de Paddington, Londres, s quatro
horas e cinquenta minutos.
  Nessa ocasio, nenhum comboio corria paralelo ao
delas. De vez em quando, cruzavam-se com comboios
que vinham para Londres. Mrs. McGillicuddy consultava, repetidas vezes, o relgio.
  -  difcil dizer em que altura foi... tnhamos
passado por uma estao... mas estvamos continuamente a passar por estaes.
  - Devemos chegar a Brackhampton dentro de
cinco minutos - anunciou lIiss lIarple.
  LTm revisor apareceu  entrada do compartimento, :iiss :''Iarple ergueu o olhar interrogativamente e
:''Irs. 'IcGillicuddv meneou a cabea de um lado para
o outro. No era o mesmo revisor. Este furou os bilhetes e retirou-se, cambaleando um pouco, por o 
comboio, nessa altura, descrever uma curva apertada. Ao
faz-lo afrouxou de velocidade.
  - Calculo que estejamos a chegar a Brackhampton
- disse :'Irs. :'IcGillicuddv.
  - Estamos a entrar nos seus subrbios - declarou :'Iiss 'Zarple.
  Passavam por luzes, por casas e por ruas e elctricos. A velocidade do comboio abrandou ainda mais.
Comearam a passar cruzamentos de linhas.
  - Chegamos dentro de um minuto - anunciou
''Irs. i'ZcGillicudd - e, para dizer a verdade, no me
parece que este dia tenha sido proveitoso. Sugeriu-te
alguma coisa, Jane?
  - :Io - replicou Iiss :'Iarple, numa voz hesitante.
  - Foi uma lamentvel perda de dinheiro - comentou 'Irs. IcGillicuddv, embora com menos desgosto do 
que teria, se o dinheiro fosse seu.
  - lpesar disso - declarou :''Iiss Marple -, uma

pessoa gosta de ver com os prprios olhos o stio onde
uma coisa aconteceu. Este comboio chegou com um
atraso de alguns minutos. Na sexta-feira, o teu chegou
a horas?
  - Creio que sim, mas, na realidade, no o notei.
  O comboio parou lentamente junto do cais da estao de Brackhampton. Este foi logo invadido por uma
multido de pessoas que se moviam apressadas de um
lado para o outro.
  Miss Marple pensou que seria fcil a um assassino
meter-se entre a multido, sair da estao no meio daquela massa de gente que se apertava ou at 
escolher
outra carruagem e continuar no comboio at  ltima
estao do seu destino. Era fcil ser um passageiro entre muitos, mas j no era igualmente fcil fazer 
desaparecer um cadver no ar. Esse cadver devia estar em
algum lado.
  Mrs. McGillicuddv descera do comboio e falava
agora do cais da estao com a amiga, debruada  janela do compartimento.
  - Tem cuidado contigo, Jane - recomendou.No apanhes frio. Esta poca do ano  muito traicoeira
e j no s to resistente como eras dantes.
  - Bem sei - replicou Miss Marple.
  - E no nos preocupemos mais com isto. Fizemos
o que podamos.
  Miss Marple aquiesceu com um movimento de cabea e aconselhou:
  - No estejas parada a ao frio, Elspeth. V l se
s tu quem se constipa. Vai tomar uma boa chvena de
ch ao bufete. Faltam doze minutos para o teu comboio chegar.
  - Creio que vou seguir o teu conselho. Adeus,
Jane.
  - Adeus, Elspeth. Um feliz Natal. Desejo que vs
encontrar bem Margaret. Diverte-te em Ceilo e d
lembranas minhas ao querido Roderick... se  que ele
ainda se lembra de mim, do que duvido.

22 I 23



  - Com certeza que se lembra de ti... muito bem
at. Quando ele andava na escola, ajudaste-o num caso
qualquer em que desaparecera dinheiro de um armrio
e ele nunca se esqueceu disso.
  Mrs. McGillicuddy afastou-se, soou um apito e o
comboio comeou a mover-se.
  Miss Marple no se recostou no assento, quando
o comboio comeou a ganhar velocidade. Em vez disso, ficou sentada, muito direita, imersa em profunda
cogitao. Tinha um problema a resolver, o problema
da prpria conduta futura, e, talvez por estranha coincidnia, este apresentou-se-lhe como a Mrs. 
McGillicuddy, isto , como uma questo de dever.
  Mrs. McGillicuddy dissera que ambas tinham
feito tudo quanto era possvel fazer. No que se referia a Mrs. McGillicuddy isso era verdade, mas, pela
parte que lhe tocava, Miss Marple no tinha a mesma certeza.
  Com frieza, como um general que planeasse uma
campanha, apreciou devidamente os prs e os contras
de uma futura atitude. Entre os primeiros contavam-se
os seguintes:

1. - A minha longa experinia da vida e conhe  cimento da natureza humana.
2. - Sir Henrv Clithering e seu afilhado (agora
  creio que na Scotland Yard) que foi to sim  ptico no caso Little Paddocks.
3." - O filho segundo do meu sobrinho Raymond
  ,
  David, que est, tenho quase a certeza, a
  trabalhar nos caminhos-de-ferro britnicos.
4." - O Leonardo, da Griselda, que sabe muito de
  mapas.

  Miss Marple reviu estas anotaes e aprovou-as.
Eram todas indispensveis para reforar a fraqueza do
lado ccDeve; em particular, a sua prpria fraqueza fsica.


24

  ccNo posso andar de um lado para o outro, pensou, cca fazer averiguaes e a descobrir coisas.
  Sim, a principal objeco era essa - a sua idade e
a sua fraqueza, embora, atendendo  idade, a sua sade fosse boa.
  cc J estou velha para mais aventuras, considerou,
observando distraidamente pela janela, a curva que o
comboio descrevia ao longo de uma ravina.
  Uma curva...
  Muito ao de leve algo lhe despontou no esprito...
Precisamente o facto de o revisor lhes ter furado os bilhetes...
  Isso sugeriu-lhe uma ideia. Apenas uma ideia.
Uma ideia inteiramente diferente...
  ccAmanh de manh, escreverei a David, prometeu a si prpria.
  E, ao mesmo tempo, outra ideia lhe perpassou pelo
esprito. ccCertamente. A minha dedicada Florence!

  Miss Marple tracou, de maneira metdica, o seu
plano de campanha. Escreveu a David West, seu sobrinho, em segundo grau, a dar-lhe as boas-festas e a
pedir-lhe uma informao urgente.
  Por sorte, a exemplo dos anos anteriores, foi convidada a jantar no presbitrio, no dia do Natal, e a pde 
conversar acerca de mapas com o jovem Leonard,
que fora passar com a famlia a quadra do Natal.
  A paixo de Leonard eram os mapas de todas as
espcies. A razo que levava uma senhora de idade a
interrog-lo acerca de um mapa em grande escala de
uma certa rea, no lhe despertou a curiosidade. Encontrou o mapa que Miss Marple pretendia, entre os
que formavam a sua coleco, e emprestou-o  idosa
senhora, que prometeu ter muito cuidado com ele e
devolver-lho, logo que fosse possvel.

  - Mapas! - admirou-se Griselda, a me de Leonard, que, embora tivesse um filho crescido, parecia
muito jovem. - Para que quer ela os mapas?

25



  - No sei - replicou o filho. - Creio que no
mo chegou a dizer.
  - Gostava de sab-lo - disse Griselda. - Acho
isso muito estranho... Naquela idade, j no se devia
meter em coisas dessas.
  Leonard perguntou de que coisa se tratava e Griselda respondeu elucidativamente:
  - Meter o nariz em coisas estranhas. Porqu mapas, sempre gostava eu de saber?
  Pouco tempo depois, Miss Marple recebeu uma
carta do sobrinho David West.

  Querida tia ane:
  Que anda a fazer?  tenho a informao que queria.
H apenas dois comboios que correspondem ao que disse: o
das quatro horas e trinta e trs minutos e o das cinco horas. O primeiro pra em Haling Broadway, Barwell
Heath, Brackhampton e estaes seguintes at Market Basing. O das cinco horas  o expresso escocs 
que vai para
Cardiff, Newport e Swansea. O primeiro pode ser ultrapassado pelo das quatro horas e cinquenta minutos, 
embora deva chegar a Brackhampton cinco minutos mais cedo,
e o ltimo passa pelo das quatro e cinquenta pouco antes
de Brackhampton.
  Devo farejar em tudo isto um escndalo de aldeia?
Acaso a tia ao regressar de um dia de compras na cidade,
pelo comboio das quatro e cinquenta viu, num outro comboio, o delegado de Sade beijar a mulher do 
preszdente
da Cmara? Mas que importa o comboio em que isso
aconteceu? Talvez um fim-de-semana em Porthcawl?
Obrigado pela camisola.  exactamente o que eu precisava. Como est o jardim? Calculo que, nesta poca 
do ano,
no esteja muito bonito.

Seu afeicoado
  David.

  Miss Marple sorriu e considerou a informao que
o sobrinho lhe dera. Mrs. McGillicuddy fora bem firme ao dizer que a carruagem no tinha corredor. Por
conseguinte, no se tratava do expresso Swansea. Tudo indicava o comboio das quatro e trinta e trs.
  Parecia-lhe inevitvel uma outra viagem. Miss Marple suspirou, mas fez os seus planos.
  Voltou a Londres como anteriormente, no comboio
das doze horas e quinze minutos, porm desta vez no
regressou no das quatro e cinquenta, mas sim no das
quatro e trinta e trs at Brackhampton. A viagem decorreu sem incidentes, mas Miss Marple registou 
certos pormenores. O comboio no ia superlotado, pois
partira antes da hora do grande movimento. Das carruagens da primeira classe apenas uma tinha ocupante:
um senhor muito idoso entretido a ler o New Statesman. Miss Marple viajou num compartimento vazio e,
por ocasio das duas paragens, Haling Broadway e
Barwell Heath, debrucou-se da janela para observar os
passageiros que entravam e saam do comboio. Um pequeno nmero de passageiros da terceira classe 
entraram em Haling Broadway. Em Barwell Heath saram
vrios passageiros da terceira classe. Ningum entrou
ou saiu de uma carruagem da primeira classe, excepto
o senhor idoso que lia o New Statesman.
  Quando o comboio se aproximava de Brackhampton descrevendo uma curva, Miss Marple ps-se de p
e postou-se, experimentalmente, de costas viradas para
a janela, cuja cortina erguera.
  Sim, era natural que esta se tivesse erguido com
facilidade devido ao mpeto da curva apertada que, decerto, desequilibrara algum que estivesse de p e 
fosse bater na cortina.
  Espreitou para o interior da janela. L fora, estava
menos escuro do que quando Mrs. McGillicuddy fizera a mesma viagem, mas pouco se via. Teria de fazer a
viagem de dia.
  No dia seguinte foi a Londres no comboio da manh, comprou quatro fronhas de linho, para aliar a in26 I 
27



vestigao  proviso de necessidades domsticas, e regressou num comboio que partia de Paddington s
doze e quinze. Voltou a achar-se sozinha numa carruagem da primeira classe.
  A razo est nestes lanamentos de impostos,
pensou Miss Marple. Ningum se permite viajar em
primeira classe, a no ser os homens de negcios, nas
horas de movimento. 
  Cerca de um quarto de hora antes daquela a que o
comboio devia chegar a Brackhampton, Miss Marple
pegou no mapa que Leonard lhe arranjara e comeou
a observar a paisagem. J antes estudara cuidadosamente esse mapa, e depois de notar o nome de uma
estao por que tinham passado, em breve pde identificar o stio em que se achava, quando o comboio 
comecou a abrandar a sua marcha, para descrever uma
curva. Era uma curva muito apertada. Miss Marple,
com o nariz colado ao vidro da janela, estudava o terreno a seus ps, com grande ateno. Dividiu a sua
ateno entre o campo l fora e o mapa, at que, por
fim, o comboio entrou em Brackhampton.
  Nessa noite, escreveu e deitou no correio uma carta para Miss Florence Hill, moradora no n.o 4 da 
Madison Road, em Brackhampton... Na manh seguinte,
ao dirigir-se  Biblioteca Municipal, estudou um guia
e um roteiro de Brackhampton.
  At ento, nada contrariara a ideia, ainda mal concretizada, que lhe ocorrera ao esprito. O que ela 
imaginara era possvel.
  Mas o passo seguinte requeria aco, uma boa dose
de aco, o gnero de aco para o qual no se achava
fisicamente apta. Precisava do auxlio de outra pessoa.
Mas... quem? Miss Marple reviu vrios nomes e possibilidades, rejeitando todos com um movimento de 
cabea impaciente e mortificado. As pessoas inteligentes
em que podia confiar estavam todas muito ocupadas e
as que no eram to bem dotadas de esprito no lhe
serviam.

  Depois de chegar a esta concluso, Miss Marple
sentiu-se ainda mais mortificada e perplexa.
  Depois, subitamente, a fronte desanuviou-se-lhe.
Proferiu um nome em voz alta:
  - Lucy Eyelesbarrow!



IV


  O nome de Lucv Evelesbarrow era muito conhecido em certos crculos. 
  Lucy Eyelesbarrow tinha trinta e dois anos. Licenciara-se em Matemtica, com distinco, em Oxford,
possua um esprito brilhante e no seu ntimo esperava
seguir uma distinta carreira acadmica.
  Mas para alm disso, Lucy Eyelesbarrow era dotada de uma boa dose de senso comum. No podia
deixar de reconhecer que uma vida, toda ela distino acadmica, era singularmente mal recompensada.
O professorado no a atraa e tinha prazer em contactar com espritos muito menos brilhantes que o seu.
Em resumo, gostava de contactar com pessoas, com
todo o gnero de pessoas e no sempre com as mesmas. E deve-se dizer tambm que gostava de 
dinheiro.
Para se ganhar dinheiro deve-se tirar partido das faltas.
  Lucy Eyelesbarrow aproveitou-se imediatamente
de uma falta muito sria: a falta de toda a espcie de
pessoal domstico hbil. Com grande espanto dos amigos e colegas, Lucy Eyelesbarrow dedicou-se ao 
trabalho domstico.
  O seu xito foi imediato. Pouco depois, era conhecida em todas as Ilhas Britnicas. Era costume as
mulheres dizerem aos maridos: cPois sim. J posso
acompanhar-te. Tenho Lucy Eyelesbarrow! Isso devia-se a que, mal Lucy Eyelesbarrow entrava numa 
casa,
acabavam todas as preocupaes, aborrecimentos e an28 29



siedades domsticas. Lucy Eyelesbarrow fazia tudo,
via tudo, arranjava tudo. Era extraordinariamente
competente. Cuidava de pessoas de idade, tomava conta de crianas, tratava dos doentes, cozinhava 
divinamente, dava-se bem com qualquer membro do pessoal
antigo que, por acaso, houvesse nas casas, mostrava-se
cheia de tacto nas suas relaes com pessoas intratveis, acalmava os brios inveterados e era 
maravilhosa
com os ces.
  Uma das suas regras era nunca aceitar um contrato
por tempo determinado. O seu perodo habitual nunca
ia alm de quinze dias... quando muito, de um ms,
em circunstnias excepcionais. Mas esses quinze dias
saam os olhos da cara a quem os pagava! Porm, durante esses quinze dias, a vida era um paraso.
  Lucy Eyelesbarrow leu e releu a carta de Miss Marple. Conhecera esta, dois anos antes, quando 
trabalhara para o novelista Raymond West, que a incumbira
de tratar a velha tia, convalescente de uma pneumonia. Lucy aceitara o lugar e fora para St. Mary Mead.
Simpatizara muito com Miss Marple e esta escrevera-lhe agora pedindo-lhe um encontro para discutirem
um caso invulgar.
  Lucy Eyelesbarrow franziu o sobrolho, enquanto
reflectia. Na realidade, j tinha todo o tempo tomado.
Mas a palavra invulgar e a recordao que guardava da
personalidade de Miss Marple, decidiram-na a telefonar-lhe logo, explicando no ser possvel ir a St. Mary
Mead por ter que fazer, naquele momento, e dizendo
estar livre das duas para as quatro horas da tarde seguinte e poder ento encontrar-se com Miss Marple
em qualquer ponto de Londres. Sugeriu o clube de
que era scia, um local que tinha a vantagem de contar vrios gabinetes de leitura sombrios e, regra geral,
vazios.
  Miss Marple aceitou a sugesto e, no dia seguinte,
encontraram-se no stio combinado.
  Lucy Eyelesbarrow conduziu a visita ao mais sombrio dos gabinetes de leitura e declarou:

  - Receio no ter tempo disponvel, nesta altura,
mas talvez me possa dizer do que pretende encarregar-me.
  - Para dizer a verdade, trata-se de um caso muito
simples - disse Miss Marple. - Invulgar, mas simples. Quero que descubra um cadver.
  Por um momento o esprito de Lucy pensou que
Miss Marple estivesse mentalmente desequilibrada,
mas logo rejeitou essa ideia. Miss Marple era uma pessoa extraordinariamente lcida de esprito. Sabia 
muito bem o que dissera.
  - Que espcie de cadver? - perguntou Lucy
Eyelesbarrow com admirvel compostura.
  - Um cadver de mulher - explicou Miss Marple. - O corpo de uma mulher que foi assassinada,
alis, estrangulada, num comboio.
  Lucy ergueu levemente o sobrolho.
  - Trata-se na verdade de um caso invulgar. Fale-me dele.
  Depois de Miss Marple ter acabado de contar os
factos, Lucy Eyelesbarrow perguntou:
  - Tudo isso depende do que a sua amiga viu... ou
julgou ver?...
  Deixou a frase por terminar com um ponto de interrogao no fim.
  - Elspeth McGillicuddy no imagina coisasafiancou Miss Marple. - E por isso que acredito no
que ela disse. Se tivesse sido Dorothy Cartaright... ento o caso seria completamente diferente. Dorothy 
est
sempre a contar histrias que, embora tenham uma
certa base de verdade, so bastante imaginosas. Mas
Elspeth  o gnero de mulher que dificilmente acredita em coisas extraordinrias.
  - Compreendo - disse Lucy, de modo pensativo.
- Qual o meu papel no caso?
  - Tenho muita boa impresso a seu respeitodeclarou Miss Marple -, e, bem v, hoje em dia no
tenho a robustez fsica necessria para me mexer de
um lado para o outro e fazer coisas.

30  31



  - Quer que eu proceda a averiguaes?  isso?
Mas a Polcia no as ter j feito? Ou julga que no
deram bastante ateno ao caso?
  - No, no  isso. Trata-se do seguinte: tenho
uma teoria acerca do corpo da mulher. Tem de estar
em qualquer lado. Se no o encontraram no comboio,
nesse caso, deve ter sido atirado para fora do comboio;
mas to-pouco o descobriram em qualquer ponto ao
longo da linha. Por conseguinte, fiz o mesmo caminho
de comboio para ver se haveria algum stio para onde
o corpo pudesse ter sido atirado do comboio, sem ter
sido encontrado na linha... e achei. As linhas de caminho-de-ferro descrevem uma longa curva antes de 
entrarem em Brackhampton, contornando uma alta ravina. Acho que se o corpo tivesse sido lanado fora do
comboio quando este descrevia essa curva teria ido parar ao fundo da ravina.
  - Mas certamente seria encontrado... mesmo a.
  - Sim. Seria necessrio que o levassem... Mas j
vamos a isso. Aqui est o local... neste mapa.
  Lucy inclinou-se para estudar o stio que o dedo de
Miss Marple apontava.
  - Actualmente fica mesmo  entrada de Brackhampton - explicou Miss Marple -, mas, originariamente, era 
uma casa de campo com um parque grande
e terrenos. Ainda l est, intacta, rodeada por pequenas casas suburbanas. Chama-se Rutherford Hall. Foi
construda, em mil oitocentos e oitenta e quatro, por
um riqussimo industrial, chamado Crackenthorpe.
Hoje ainda l vive, com uma filha, um homem de idade, filho do original Crackenthorpe. O caminho-de-ferro 
rodeia bem metade da propriedade.
  - E quer que eu faa... o qu?
  Miss Marple replicou, com prontido:
  - Quero que arranje emprego nessa casa. Toda a
gente se queixa de falta de pessoal domstico eficiente.
Acho que no ser difcil.
  - Pois no, no creio que seja difcil.

  - Creio que Mister Crackenthorpe tem fama de
avarento. Se ele lhe pagar um salrio baixo, dar-lhe-ei
a diferenca para o que suponho esteja acima do que
 corrente pagar-se.
  - Por causa da dificuldade?
  - Mais pelo perigo, do que pela dificuldade. Bem
v, pode ser perigoso. Acho que  meu dever preveni-la.
  - No sei se a ideia de perigo me dissuadir - retorquiu Lucy pensativamente.
  - Acho que no; voc no  esse gnero de pessoa.
  - Nesse caso, julga que me atrai? Na minha vida,
tem-se-me deparado muito pouco perigo. Mas acha
realmente que possa ser perigoso?
  - Algum cometeu um crime - observou Miss Marple. - No houve alarido, nem se levantaram suspeitas  
volta dele. Duas senhoras de idade contaram uma
histria muito inverosmil. A Polcia investigou, mas
nada encontrou que lhe desse consistnia. Por conseguinte, para o criminoso tudo corre s mil 
maravilhas.
  - Que devo ao certo procurar?
  - Quaisquer vestgios ao longo da ravina, um farrapo de roupa, arbustos partidos... esse gnero de
coisas.
  Lucy meneou compreensivamente a cabea.
  - E depois?
  - Estarei muito perto de si - continou Miss Marple. - Uma antiga criada minha, a minha dedicada
Florence, vive em Brackhampton. Tratou durante
anos dos pais, que eram velhos. Estes j morreram,
mas ela aceita hspedes... Todos gente muito respeitvel. Olhar por mim, cheia de solicitude, e sinto que
me agradar estar perto de si. Sugiro que diga ter uma
tia velha, vivendo nas vizinhanas, que deseja arranjar
colocao perto dela e que precisa tambm de algum
tempo livre para visit-la com frequnia.
  Lucy voltou a aprovar a ideia com um meneio
de cabea.


32  33



  - Tencionava partir para Taormina, depois de
amanh - anunciou. - Mas as frias podem esperar.
Porm, s posso prometer-lhe trs semanas. Depois
disso, j estou comprometida.
  - Trs semanas sero suficientes - declarou
Miss Marple. - Se dentro de trs semanas nada conseguirmos encontrar, podemos pr o assunto de parte.
  Miss Marple foi-se embora e Lucy, depois de um
momento de reflexo, telefonou para a Agnia de
Empregos de Brackhampton, cuja directora conhecia
muito bem. Exps-lhe o seu desejo de arranjar uma
colocao nessa terra, para poder ficar perto da tia.
Depois de ouvir nomear vrias casas boas, ouviu, por
fim, o nome de Rutherford Hall.
  - Acho que essa casa  exactamente o que me
convm - declarou Lucv com firmeza.

  Ao volante do seu pequeno automvel, Lucy Eyelesbarrow transps um imponente porto de ferro.
Mal o fez, deparou-se-lhe o que originariamente fora
uma pequena casa de guarda, mas agora completamente em runas; era difcil dizer se isso se devia a 
estragos causados pela guerra ou apenas a neglignia. Um
longo caminho sinuoso, ladeado de ambos os lados por
enormes macicos de rododendros, levava at  casa.
Lucy soltou uma pequena arfada ao ver que esta era
uma espcie de miniatura do Castelo de Windsor. Os
degraus de pedra, em frente da casa, requeriam ateno e o saibro estava verde devido a sementes 
negligenciadas.
  Puxou um sino de modelo antigo e o seu som
repercutiu-se no interior da casa. Uma mulher de aspecto desalinhado, e que limpava as mos ao avental,
veio abrir a porta e olhou Lucy com desconfiana.
  - Estava  sua espera - disse. - Miss qualquer
coisa... barrow? A agnia falou-me de si.
  - Muito bem - disse Lucy.
  O interior da casa era terrivelmente frio. A mulher
conduziu Lucy ao longo de um corredor sombrio e

abriu uma porta  direita. Lucy achou-se, com grande
surpresa, numa sala de estar de aspecto muito agradvel, em que havia livros e poltronas forradas com
chintz.
  - Vou anunci-la - disse a mulher, retirando-se,
depois de fechar a porta e de ter olhado para Lucy
com profundo desagrado.
  Passados alguns minutos, a porta voltou a abrir-se. Lucy decidiu logo que gostava de Emma 
Crackenthorpe.
  Era uma mulher de meia-idade, de aspecto vulgar,
nem bonita nem feia, enfiada numa saia de tweed e numa camisola, com o cabelo preto puxado para trs,
olhos cor de avel e uma voz muito agradvel.
  - Miss Evelesbarrow? - perguntou, estendendo
a mo.
  Depois, pareceu hesitante.
  - No sei se este lugar  na verdade o que procura. Compreende, no  bem de uma governanta que
preciso, para me olhar pelas coisas, mas sim de uma
pessoa que trabalhe.
  Lucv replicou ser isso o que a maioria das pessoas
precisava.
  Emma Crackenthorpe prosseguiu, com ar de desculpa:
  - H muitas pessoas que julgam que uma simples
limpeza de p  suficiente... mas isso posso eu fazer.
  - Compreendo muito bem o que pretende - interveio Lucy. - Quer uma pessoa que cozinhe, lave,
arrume a casa e alimente a fornalha. Muito bem.  is-
so o que eu fao. O trabalho no me mete medo.
  - Receio que ache a casa grande e incmoda.
 certo que s habitamos uma parte... o meu pai e eu.
Est quase invlido. Vivemos aqui muito sossegadamente. Tenho vrios irmos, mas raramente c esto.
Vm c duas mulheres por semana: Mistress Kidder,
todas as manhs, e Mistress Hart, trs vezes por semana, para limpar os amarelos e outras coisas no 
gnero.
Tem carro?

34  35



  - Sim. Pode ficar ao ar livre se no houver stio
onde arrum-lo. J est habituado.
  - Oh, h muitos estbulos velhos. Quanto a isso,
no h dificuldade. - Ficou por um momento de sobrolho franzido, e depois prosseguiu. - Eyelesbarrow...  
um nome pouco vulgar. Uns amigos meus falaram-me numa Lucy Evelesbarrow... os Kennedy?
  - Sim. Estive com eles, em Devonshire Setentrional, quando Mistress Kennedv teve um beb.
  Emma Crackenthorpe sorriu.
  - Disseram-me que nunca tinham passado um
tempo to maravilhoso como aquele em que esteve em
casa deles. Mas eu fazia ideia de que o seu ordenado
fosse muito elevado. O que eu ofereci...
  - Sei isso muito bem - atalhou Lucy -, mas
estou interessada em ficar perto de Brackhampton.
Tenho l uma tia velha, muito doente, e quero estar
perto dela. Foi por essa razo que aceitei esse salrio,
contanto que possa ter livre algum tempo, durante a
maior parte dos dias.
  - Com certeza. Todas as tardes at s seis, se lhe
convier.
  - Muito bem.
  Miss Crackenthorpe hesitou um momento antes de
dizer:
  - Meu pai  um homem de idade e, por vezes...
um pouco intratvel.Tem a mania da economia e, ocasionalmente, diz coisas que sobressaltam as 
pessoas.
No me agradaria...
  Lucy apressou-se a interromper:
  - Estou muito habituada a lidar com pessoas de
idade e de todos os gneros. Consigo sempre dar-me
bem com elas.
  Emma Crackenthorpe pareceu aliviada.
  Depois de ter conduzido Lucy ao quarto de cama
que lhe era destinado, um quarto grande e sombrio,
que um pequeno radiador se esforava em vo por
aquecer, mostrou-lhe o resto da casa, vasta e desconfortvel. Ao passarem por uma porta que dava para o
trio, uma voz rugiu:
  - Es tu, Emma? A rapariga j veio? Tr-la c.
Quero v-la.
  Emma corou e olhou animadoramente para Lucy.
  As duas mulheres entraram no quarto. Estava ricamente alcatifado, em veludo escuro, e tinha mveis
pesados da poca vitoriana.
  O velho Mr. Crackenthorpe encontrava-se estendido numa cadeira de invlido, tendo a seu lado uma
bengala de casto de prata.
  Era um homem alto, muito magro, cuja carne lhe
pendia em pregas flcidas. O rosto assemelhava-se ao
de um buldogue e tinha queixo saliente. Possua ainda
cabelo grisalho e olhos pequenos e desconfiados.
  - Ora deixe-me c olhar para si.
  Lucy adiantou-se, com compostura e sorridente.
  - H uma coisa de que deve compenetrar-se antes
de mais nada. L porque vivemos num casaro, isso
no significa que sejamos ricos. No somos ricos. Vivemos de maneira simples, ouviu bem? De maneira
simples!  escusado vir para aqui com fantasias. O bacalhau  to bom como o rodovalho; no se esquea
disso. No suporto desperdcios. Vivo aqui porque
meu pai construiu esta casa e gosto dela. Depois de eu
morrer, podero vend-la se quiserem... e suponho
que no querem outra coisa. No tm o sentido da famlia. Esta casa foi bem construda...  slida, e tem
imenso terreno privativo  volta. Deste modo, podemos sentir-nos retirados do resto do mundo. Se 
vendssemos esse terreno para construes, tiraramos
imenso dinheiro, mas tal no acontecer enquanto eu
viver.
  Lancou um olhar feroz  filha.
  - A sua casa  o seu castelo - disse Lucy.
  - Est a trocar de mim?
  - Certamente que no. Acho que  muito excitante ter uma verdadeira casa de campo, rodeada pela 
cidade.

36 I 37



  - Exactamente. Daqui no se avista mais coisa alguma, pois no? S avistamos campos com vacas...
mesmo no seio de Brackhampton. Quando o vento sopra nesta direco, chega, por vezes, o rudo do 
trnsito... mas de contrrio,  s campo.
  Virou-se para a ilha e acrescentou, sem qualquer
pausa ou mudana de tom:
  - Telefona a esse maldito mdico. Diz-lhe que
o ltimo remdio no presta para nada.
  Lucy e Emma retiraram-se. Mr. Crackenthorpe
gritou:
  - E no deixes essa maldita mulher que limpa
o p entrar aqui. Desarrumou-me os livros todos.
  - Mister Crackenthorpe est invlido h muito
tempo? - perguntou Lucy a Emma.
  - H j alguns anos... Isto aqui  a cozinha.
  Era uma diviso enorme.
  Lucy perguntou as horas das refeies e inspeccionou a despensa. Depois declarou animosamente a
Emma:
  - J sei tudo quanto era preciso. No se incomode. Confie em mim.
  Emma Crackenthorpe soltou um suspiro de alvio,
quando nessa noite subiu, para deitar-se.
  Os Kennedy tinham toda a razo monologou.
 maravilhosa!
  Lucy levantou-se s seis horas da manh seguinte.
Arrumou a casa, preparou os vegetais, cozinhou e serviu o pequeno-almoo. Ajudada por Mrs. Kidder, fez
as camas e s onze horas sentaram-se ambas na cozinha a tomar ch e biscoitos. Abrandecida por Lucy
no se dar ares e tambm pelo ch forte e bem aucarado, Mrs. Kidder entregou-se ao paleio. Era uma
mulher baixa e magra, de olhos astutos e lbios finos.
  - Um miservel sovina  o que ele . O que ela
tem de aturar-lhe! Apesar disso, ela no se deixa espezinhar. Quando precisa, tambm sabe impor-se.
Quando os senhores c vm, ela arranja sempre comida decente.

  - Os senhores?
  - Sim. Era uma grande famlia. O mais velho,
Mister Edmund, morreu na guerra. Depois  Mister
Cedric, que vive no estrangeiro.  solteiro. Pinta quadros. Mister Harold vive em Londres...  casado com
a filha de um conde. Depois  Mister Alfred;  simptico mas, mais ou menos, ovelha ronhosa da famlia.
J esteve em apuros, por uma ou duas vezes. H tambm o marido de Miss Edith, Mister Bryan. E uma
pessoa muito agradvel. Ela morreu h alguns anos,
mas ele continuou a fazer parte da famlia, e, finalmente, h o menino Alexander, filho de Miss Edith.
Est internado num colgio, mas vem sempre c passar parte das frias. Miss Emma gosta muito dele.
  Lucy digeriu todas estas informaes, sem deixar
de servir ch  sua informadora. Por im, Mrs. Kidder
ps-se de p com relutnia.
  - Esta manh, isto foi um banquete - comentou
sonhadoramente. - Quer que a ajude a descascar batatas?
  - J as descasquei, obrigada.
  - E nica a fazer estas coisas! Visto que no h
nada para eu fazer, creio que vou andando.
  Mrs. Kidder foi-se embora e Lucy, que ainda dispunha de tempo  sua frente, esfregou a mesa da 
cozinha, o que estava desejosa de fazer e ainda no fizera
para no ofender Mrs. Kidder, a quem esse trabalho
competia. Depois limpou os talheres, at deix-los reluzentes. Cozinhou o almoo, serviu-o, lavou a loua e
s duas horas e meia estava pronta a comear a explorao. Arranjara j o tabuleiro para o lanhe, com 
sanduches e po com manteiga, cobertos por um guardanapo molhado para no secarem.
  Comeou pelo jardim, por lhe parecer que esse
seria o comportamento natural. A horta estava pobremente cultivada e apresentava pouca variedade de 
hortalia. As estufas encontravam-se em runas. Por toda
a parte os caminhos entre os canteiros estavam cheios

38 39



de ervas daninhas. Apenas um canteiro, junto da casa,
se mostrava limpo dessas ervas, e Lucy calculou que
isso se devesse aos cuidados de Emma. O jardineiro
era um homem muito velho, um pouco surdo, que
apenas fingia trabalhar. Lucy dirigiu-lhe afavelmente a
palavra. Vivia numa pequena casa adjacente ao grande
estbulo.
  A porta das traseiras deste abria para um caminho,
que corria ambos os lados, entre sebes, e cruzava o
parque; depois de atravessar um tnel, sobre o qual
passava o comboio, ia desembocar numa pequena
viela.
  Os comboios sucediam-se com intervalos de poucos minutos sobre o tnel. Lucy viu os comboios
abrandarem o andamento enquanto descreviam a curva que contornava a propriedade dos Crackenthorpe.
Atravessou o tnel, indo dar  viela. Aquele caminho
parecia ser pouco usado. Num dos lados, ficava a ravina ao cimo da qual passavam os comboios e, no 
outro,
um muro elevado que cercava alguns edifcios altos de
uma fbrica. Lucy seguiu pela viela e foi ter a uma rua
de casas baixas. Chegava-lhe aos ouvidos o rudo, a
pouca distnia, do trnsito na estrada. Olhou para
o relgio. Uma mulher saiu de uma casa prxima e
Lucy perguntou-lhe onde havia um telefone pblico,
ali perto. Depois de agradecer a informao dirigiu-se
a uma casa, meio loja, meio posto de correio. O telefone achava-se numa cabina. Lucy marcou um nmero 
e
pediu para falar a Miss Marple. Uma voz de mulher
redarguiu com aspereza:
  - Est a descansar e no vou incomod-la! Precisa
de repouso...  uma senhora de idade. Quem devo dizer que telefonou?
  - Miss Eyelesbarrow. No h necessidade de incomod-la. Diga-lhe apenas que j cheguei, que tudo
corre bem e que lhe darei notcias, mal as tenha.
  Desligou e voltou a Rutherford Hall.

V


  - Suponho que no haja inconveniente em que
pratique um pouco de golfe no parque, pois no?perguntou Lucy.
  - Certamente que no. Gosta de golfe?
  - No sou grande jogadora, mas no quero perder
a prtica.  uma forma de exerccio mais agradvel do
que andar a p.
  - Fora daqui no h por onde passear - resmungou Mr. Crackenthorpe. - Nada a no ser estradas
asfaltadas e casotas miserveis todas iguais. Eles bem
gostariam de deitar mo ao meu terreno, para construrem mais casas. Mas, enquanto eu viver, no o faro. 
E no tenciono morrer para agradar a quem quer
que seja. Note bem! A quem quer que seja.
  Emma Crackenthorpe pediu suavemente:
  - Acalme-se, pai.
  - Eu bem sei o que eles pensam... e por que esperam. Todos eles. Cedric e esse hipcrita do Harold.
Quanto a Alfred, admira-me que ainda no me tenha
desfechado um tiro, para se ver livre de mim. No
posso garantir que o no tenha tentado, por alturas do
Natal. Foi uma coisa bem estranha a que me aconteceu. O velho Quimper fcou intrigado. Fez-me uma
quantidade de perguntas discretas.
  - Toda a gente sofre, de vez em quando, de ms
digestes dessas, pai - observou Emma.
  - Pois sim, pois sim, continua a dizer que como
de mais. Bem te entendo. E porque como de mais?
Porque havia demasiada comida na mesa. Aquela
quantidade de comida era um exagero absurdo. Agora
me lembro... pequena. Hoje, ao almoo, mandou cinco batatas enormes para a mesa. Duas batatas 
chegam
para qualquer pessoa. Por conseguinte, daqui para o
futuro no mande mais de quatro. A quinta desperdicou-se.

40 41



  - No se desperdicou tal, Mister Crackenthorpe.
Resolvi empreg-la numa omeleta  espanhola, para
esta noite.
  - Cos diabos! - Quando Lucy se retirava, levando o tabuleiro com o caf, ouviu ainda dizer: - Esta
rapariga  uma espertalhona. Tem resposta para tudo.
Mas cozinha bem... e  agradvel.
  Lucy Eyelesbarrow pegou num dos tacos de golfe,
que levara consigo, e foi para o parque.
  Comeou a fazer uma srie de jogadas. Passados
cinco minutos, uma bola aparentemente desviada foi
cair na ravina do comboio. Lucy foi  sua procura.
Olhou para trs, para a casa. Encontrava-se a uma
grande distnia e ningum parecia interessado no que
ela estava a fazer. Continuou a procurar a bola. Durante essa tarde, pesquisou cerca de um terco da ravina. 
Nada.
  No dia seguinte, porm, obteve algum resultado.
A meio da encosta da ravina, deparou-se-lhe um arbusto partido e, em sua volta, viam-se ramos quebrados. 
Lucy examinou-o. Agarrado a uma das pontas
dos ramos quebrados via-se um farrapo de uma pele.
Era quase da mesma cor da madeira, de um castanho-claro. Lucy contemplou-o, por um momento, e 
depois cortou-o cuidadosamente ao meio com uma tesoura que tirou da algibeira. Meteu a metade que 
separou
dentro de um sobrescrito que tambm trouxera consigo. Desceu a encosta escarpada procurando fazer 
mais
algum achado. Inspeccionou com ateno as ervas que
cobriam o solo. Julgou distinguir uma espcie de rasto
deixado por algum que por ali tivesse passado. Mas
era muito leve... muito menos ntido do que o que ela
prpria deixara. Devia ter sido feito h algum tempo
e no era suficientemente ntido para convenc-la de
que no se tratava apenas de fantasia da sua parte.
  Comeou a pesquisar com cuidado a erva, na base
da ravina, no ponto exactamente abaixo do arbusto

quebrado. Pouco depois, via recompensados os seus
esforcos. Encontrou um estojo de p-de-arroz, um artigo barato. Embrulhou-o num lenco e meteu-o na 
algibeira. Continuou  procura, mas nada mais achou.
  Na manh seguinte, meteu-se no carro e foi visitar
a tia invlida. Emma Crackenthorpe dissera, amavelmente:
  - No se apresse. Pode regressar apenas  hora do
jantar.
  - Obrigada, mas voltarei, o mais tardar, s seis
horas.
  O n.o 4 da Madison Road era uma pequena casa
velha, numa viela suja. Tinha cortinas de renda Nottingham, muito limpas, um degrau de entrada reluzente, 
de branco que estava, e um puxador de lato, bem
lustroso. A porta foi aberta por uma mulher alta e de
aspecto carrancudo, vestida de preto, com um carrapito de cabelo grisalho.
  Mirou Lucy, desconfiadamente, enquanto a acompanhava at junto de Miss Marple.
  Esta ocupava a saleta das traseiras da casa, que dava para um pequeno jardim quadrado e bem tratado.
Miss Marple estava sentada num cadeiro, junto  lareira, ocupada a fazer croch.
  Lucy entrou e fechou a porta. Sentou-se na cadeira, em frente de Miss Marple.
  - Parece que tinha razo! - disse.
  Apresentou os seus achados e deu pormenores sobre a maneira como os encontrara.
  Um leve rubor de satisfao tingiu as faces de
Miss Marple.
  - Talvez no devesse sentir-me assim - preambulou -, mas d tanta satisfao a uma pessoa formar
uma teoria e provar que est correcta!
  Pegou no pequeno farrapo de pele.
  - Elspeth disse que a mulher trajava um casaco
de peles, de cor clara. Suponho que o estojo do p-de-arroz estivesse numa das algibeiras do casaco e 
tenha

42  43



cado quando o corpo rolou pela ravina abaixo. Seja
como for, no me parece identificvel, mas talvez venha a ser til. No tirou toda a pele?
  - No, deixei metade no ramo.
  Miss Marple aprovou com um movimento de cabea.
  - Fez muito bem. E uma rapariga muito inteligente. A Polcia h-de querer examinar o local.
  - Vai levar essas coisas...  Polcia?
  - Bem... por ora, no... - Miss Marple reflectiu.
- Acho que seria melhor encontrar, primeiramente, o
corpo. No concorda?
  - Sim, mas no acha isso difcil? Isto , partindo
do princpio que a sua teoria est correcta. O assassino
empurrou o corpo para fora do comboio, depois, segundo parece, apeou;se em Brackhampton e, mais 
tarde, provavelmente, nessa mesma noite, foi buscar o
corpo ao local para onde o atirara. Mas que aconteceu
depois disso? Deve t-lo levado para qualquer lado.
  - No para qualquer lado - acentuou Miss Marple. - Creio que no viu ainda a concluso lgica do
caso, minha querida Miss Eyelesbarrow.
  - Trate-me por Lucy. Porque no em qualquer
lado?
  - Porque, se assim fosse, ter-lhe-ia sido muito
mais fcil matar a rapariga num stio deserto e ter depois removido dali o corpo. Ainda no apreciou...
  Lucy interrompeu:
  - Quer dizer que... que foi um crime premeditado?
  - A princpio no julguei isso - retorquiu Miss Marple. - Admiti que se tratasse de uma discusso e que
o homem se houvesse exaltado e estrangulado a rapariga, vendo-se depois a braos com um problema, 
que
tinha de resolver em poucos minutos. Mas, na realidade, seria uma coincidnia muito grande ele ter 
assassinado a rapariga num acesso de exaltao e ter olhado
para fora da janela precisamente quando o comboio

descrevia uma curva num local para onde podia atirar
o corpo, e aonde sabia que, mais tarde, poderia ir busc-lo. Se o tivesse atirado para ali por acaso, ter-se-ia
contentado com isso e j h muito tempo que o corpo
teria sido encontrado.
  Fez uma pausa e Lucy ficou-se a olh-la com espanto.
  - Sabe - prosseguiu Miss Marple pensativamente -, foi na verdade um crime inteligentemente planeado... e 
creio que tambm foi cuidadosamente executado. Um crime praticado num comboio reveste-se
de um carcter deveras annimo. Se a tivesse assassinado em casa dela, ou na casa onde vivia, podia
algum t-lo visto entrar ou sair. Ou, se a houvesse levado de carro para qualquer ponto do campo, podia
algum ter reparado no carro, no nmero de matrcula
e marca. Mas um comboio est cheio de desconhecidos que entram e saem. No compartimento de uma
carruagem, sozinho com ela, foi muito fcil, em especial se atendermos a que ele sabia exactamente o que
ia fazer em seguida. Sabia, tinha de saber, tudo quanto
dizia respeito a Rutherford Hall,  sua posio topogrfica, isto , ao seu estranho isolamento... uma ilha
rodeada por linhas de caminhos-de-ferro.
  - E exactamente assim - concordou Lucy. um anacronismo. A vida urbana agita-se  sua volta,
mas no a atinge. Os comerciantes fazem a entrega dos
gneros pela manh, e pronto.
  - Por conseguinte, tal como diz, conclumos que
o assassino foi a Rutherford Hall nessa noite. Quando
o corpo caiu j estava escuro e ningum deveria descobri-lo antes da manh seguinte.
  - Ningum, na verdade.
  - O assassino iria... como? De carro? Por onde?
  Lucy reflectiu.
  - H uma viela, em mau estado, ao longo do muro de uma fbrica. Se calhar foi por a, passou pelo
tnel, sob a via frrea, e seguiu pelo caminho das tra44  45



seiras. Depois deve ter prosseguido a p pela base da
ravina, at encontrar o corpo e transportou este para
o carro.
  - E depois - prosseguiu Miss Marple -, levou-o
para algum stio, escolhido de antemo. Tudo isso foi
premeditado. E no creio que o tenha levado de Rutherford Hall, ou se o fez, no o levou para muito longe. 
Suponho que a coisa mais natural teria sido enterr-lo nalgum lado.
  Olhou inquiridoramente para Lucy.
  - Acho que sim - admitiu Lucy, pensativa -,
mas no lhe deve ter sido fcil faz-lo.
  - No pde enterr-lo no parque.  um trabalho
rduo que daria nas vistas. Mas talvez nalgum stio
onde a terra j tivesse sido revolvida.
  - Talvez na horta, mas esta fica muito perto do
jardim. O velho  surdo... mas, apesar disso, seria arriscado.
  - H algum co?
  - No.
  - Nesse caso, talvez num barraco ou numa dependnia exterior?
  - Isso teria sido mais simples e mais rpido... H
muitas dependnias velhas e fora de uso; estbulos
em runas, casas de arrecadao, oficinas das quais
ningum se aproxima. Ou talvez sob um macico de rododendros ou de arbustos, em qualquer lado.
  Miss Marple meneou a cabea, em sinal de concordnia.
  - Sim, acho isso muito provvel.
  Ouviu-se bater  porta e a carrancuda Florence entrou com um tabuleiro.
  - Faz-lhe bem ter uma visita - disse a Miss Marple. - Fiz-lhe os biscoitos especiais de que antes tanto 
gostava.
  - Florence sabe fazer uns biscoitos deliciosos.
  Sensibilizada, Florence sorriu inesperadamente e
saiu do quarto.

  - Creio, minha amiga - disse Nliss IVIarple -,
que ser melhor no falarmos mais no crime, enquanto tomamos o ch. E um assunto to desagradvel!

  Depois de tomar o ch, Lucv levantou-se.
  - 'ou-me embora - anunciou. - Como j lhe
disse, actualmente no vive ningum em Rutherford
Hall que possa ser o homem que procuramos. 'ive ali
apenas um velho, uma mulher de meia-idade e um jardineiro velho e surdo.
  - Eu no disse que ele vivesse l, actualmenteobservou :'Iiss 'Iarple. - Julgo que seja uma pessoa
que conhece muito bem Rutherford Hall. ''Ias poderemos ocupar-nos disso, depois de encontrarmos o
corpo.
  - Parece estar muito certa de que o encontrarei,
mas eu no me sinto assim to optimista - confessou
Lucv.
  - Tenho a certeza de que ser bem sucedida, minha querida amiga, pois sei quanto  eficiente.
  - Sob certos aspectos, sim, mas no tenho prtica
de encontrar cadveres.
  - Estou certa de que, para isso, basta apenas um
pouco de senso comum - disse N'Iiss Marple, de modo encorajador.
  Lucv_ olhou-a e depois riu-se. lIiss r''Iarple correspondeu com um sorriso.
  :Ta tarde seguinte, Lucv entregou-se, metodicamente, ao seu trabalho. :'Ieteu o nariz por todas as 
dependnias exteriores, sondou as sarcas que cercavam
os currais para porcos, mas em vo.
  'oltou para casa e encontrou Emma Crackenthorpe, parada, no trio, a ler uma carta que acabava de
ser entreque pela distribuio da tarde.
  - :'Ieu sobrinho chega amanh... com um colega.
O quarto de Alexander  o que fica por cima da entrada. O que fica ao lado poder ser para James 
Stoddard- est. L tilizaro a casa de banho que fica em
frente dos quartos.

46  47



  - Sim, Miss Crackenthorpe. Vou preparar os
quartos.
  - Chegaro de manh, antes do almoo - anunciou. - Calculo que venham cheios de fome.
  - Tambm creio - disse Lucv. - Que me diz a
carne assada e a uma torta de mel?
  - Alexander  doido por torta de mel.
  Os dois rapazes chegaram na manh seguinte. Tinham ambos o cabelo bem penteado, rostos 
suspeitosamente angelicais e maneiras correctas, Alexander
Eastlev_ tinha cabelo loiro e olhos azuis e Stoddard-West era moreno e usava culos.
  Durante o almoo discutiram os acontecimentos
mais notrios do desporto mundial. As suas atitudes
lembravam as de professores idosos discutindo instrumentos paleolticos. Em comparao com eles, Lucy
sentia-se muito nova.
  O lombo de vaca sumiu-se num instante e no ficou uma migalha de torta.
  lIr. Crackenthorpe resmungou:
  - Vocs dois arruinam-me.
  Alexander lanou-lhe um olhar reprovativo.
  - Se o av no nos puder dar carne, comeremos
po com queijo.
  - Se no vos puder dar? Posso dar, sim. Mas no
gosto de desperdiar.
  - No desperdimos nada Nlister Crackenthorpe
- assegurou Stoddard-West, olhando para o seu prato
que era um bom testemunho desse facto.
  - Qualquer de vocs dois come o dobro do que eu
como.
  - Estamos a crescer - justificou Alexander.Precisamos de ingerir uma grande dose de protenas.
  O velho resmungou.
  Quando os dois rapazes se levantaram da mesa,
Lucv ouviu Alexander dizer, como se se desculpasse,
ao amigo:
  - No deves ligar importnia ao que o av disse.

Est de dieta e isso torna-o um pouco embirrento.
 tambm muitssimo agarrado. Suponho que se trata
de um complexo qualquer.
  Stoddard-West retorquiu compreensivamente:
  - Tinha uma tia que estava sempre a pensar que
ia ficar falida e, na realidade, nadava em dinheiro.
O mdico disse que era um caso patolgico. Tens a
a bola, Alex?
  Depois de ter levantado a mesa e de ter lavado a
loia, Lucy saiu. Chegava-lhe aos ouvidos as vozes
longnquas dos rapazes, no relvado. Seguiu na direco oposta, descendo o caminho da frente e da dirigiu-
se a um macico de arbustos e rododendros. Comecou a procurar cuidadosamente, afastando as folhas e
espreitando para o interior. Examinou metodicamente
cada arbusto, revolvendo o seu interior com um taco
de golfe, quando a voz delicada de Alexander Eastley
a sobressaltou:
  - Anda  procura de alguma coisa, Miss Eyelesbarrow?
  - De uma bola de golfe - respondeu esta com
prontido. - Alis, mais do que uma. Tenho andado
a praticar golfe quase todas as tardes, e j perdi vrias
bolas. Resolvi procurar algumas delas.
  - Vamos ajud-la - props Alexander.
  - Muito obrigada. Julguei que estivessem a jogar
futebol.
  - Mas no se pode estar muito tempo a jog-loexplicou Stoddard-West. - Ficmos cheios de calor.
Joga muito o golfe?
  - Gosto muito de jogar, mas no tenho muita
oportunidade de faz-lo.
  - Calculo.  a senhora quem cozinha, no  verdade?
- Sim.
- Foi quem hoje cozinhou o almoo?
- Fui. Estava bom?
- Simplesmente maravilhoso - declarou Alexan48  49



der. - A carne que comemos no colgio  seca. Gosto
da carne vermelha e em sangue. Aquela torta de mel
tambm estava magnfica.
  - Tm de dizer-me os vossos pratos favoritos.
  - Seria capaz de fazer-nos merengue de ma?
  - Certamente.
  Alexander suspirou de contentamento.
  - H um saco com tacos de golfe, por baixo das
escadas. Que dizes a irmos jogar, Stoddard?
  - Esplndido!
  Encorajados por Lucy, foram jogar. Quando, mais
tarde, esta voltou para casa, encontrou-os no relvado
discutindo a posio dos nmeros.
  - Precisam de uma demo de tinta brana - disse Lucy. - Sacrifiquem uma manh e pintem-nos.
  - Boa ideia - o rosto de Alexande iluminou-se.
- Mas creio que h algumas latas de tinta no Long
Barn... Vamos ver?
  - O que  o Long Barn? - perguntou Lucy.
  Alexander apontou para uma construo comprida,
de pedra, um pouco afastada da casa, perto do caminho das traseiras.
  -  muito velho - explicou. - O av chama-lhe
um Leak Barn e diz que  isabelino, mas isso no passa de pretenso. Pertencia  herdade que era isto 
originariamente. O meu bisav deitou-a abaixo e em seu
lugar construiu esta casa horrvel. - Fez uma pausa e
acrescentou: - Uma grande parte da coleco do av
est no celeiro. Coisas que ele tinha mandado do estrangeiro quando era rapaz. Na maioria, so tambm
horrveis. Por vezes, o Long Barn serve para partidas
de whistl e coisas no gnero, promovidas pelo Instituto
Feminino. Venha ver.
  Lucy acompanhou-os de boa vontade.
  O celeiro tinha uma enorme porta de carvalho ornamentada com pregos.



' Jogo de cartas. (N. do T.)

  Alexander ergueu a mo e despendurou uma chave
de um prego fixado sob um pouco de hera, precisamente no canto superior direito da porta. Rodou-a na
fechadura, empurrou a porta e os trs entraram.
  Um primeiro e rpido olhar deu a Lucy a sensao
de se encontrar num museu singularmente mau. As
cabeas de mrmore de dois imperadores romanos
olharam-na com ferocidade. Notou tambm um enorme sarcfago do perodo decadente greco-romano e
uma Vnus sorrindo afectadamente sobre um pedestal
e agarrando a roupa. Alm destas obras de arte havia
duas mesas de armar, algumas cadeiras amontoadas e
diversos objectos, tais como uma foice enferrujada,
dois baldes, dois assentos de automvel comidos pelas
traas e uma cadeira de ferro pintada de verde e que j
perdera uma perna.
  - Creio que vi a tinta por aqui - disse Alexander
vagamente. Dirigiu-se a um canto, donde retirou duas
latas de tinta e uns pincis de cerdas tesas e secas.
  - Precisam realmente de um pouco de aguarrs.
  Os rapazes resolveram ir a casa buscar um frasco
de diluente e Lucy incitou-os a faz-lo. Calculava que
se demorassem algum tempo a pintar os nmeros, para o jogo de golfe.
  Foram-se os dois, deixando-a no celeiro.
  - Isto precisava de facto de uma limpeza - murmurara Lucv.
  - No vale a pena - aconselhara Alexander.Ainda se algum o quisesse utilizar para alguma coisa,
no diria o contrrio, mas nesta poca do ano nunca 
utilizado.
  - Devo pendurar a chave, l fora?  onde costuma ficar?
  - Sim, aqui no h nada que possam roubar. Ningum quer esses horrveis objectos de mrmore e ainda 
que os quisessem, pesam uma tonelada.
  Lucy concordou com ele. Era-lhe difcil tributar
qualquer admirao ao gosto do velho Mr. Crackent50  51



horpe, em matria de arte. Este parecia possuir um
instinto infalvel para escolher os piores espcimes de
qualquer perodo.
  Depois de os rapazes partirem, Lucy ficou um momento parada, olhando em volta. Os seus olhos 
pousaram-se no sarcfago e demoraram-se nele.
  Esse sarcfago...
  O ar no celeiro cheirava levemente a bafio, como se
h muito tempo no fosse renovado. Aproximou-se do
sarcfago. Era coberto por uma pesada tampa. Lucy
observou-a pensativamente.
  Depois saiu, dirigiu-se  cozinha, pegou numa pesada alavana e voltou ao celeiro.
  No foi uma tarefa fcil, mas Lucy realizou-a com
obstinao.
  Lentamente, a tampa comeou a levantar-se, soerguida pela alavana.
  Ergueu-se o suficiente para Lucy poder espreitar
para o interior.



VI


  Passados alguns minutos, Lucy, muito plida, saiu
do celeiro, fechou a porta  chave e pendurou esta no
prego.
  Dirigiu-se rapidamente ao estbulo, tirou o carro
e, metendo-se nele, seguiu pela estrada das traseiras.
Parou em frente  estao dos correios. Entrou na cabina telefnica e marcou um nmero.
  - Desejo falar a Miss Marple.
  - Est a descansar.  Miss Eyelesbarrow, no 
verdade?

  - Sim.
  - Agora no vou incomod-la.  uma senhora de
idade e precisa de descansar.

- Mas tem de incomod-la.  urgente.
- No...
- Faa o favor de fazer, imediatamente, o que lhe
digo.
  Quando queria, Lucy dava  voz uma entoao que
a tornava to incisiva como aco. Florence reconhecia a
autoridade, quando a ouvia.
  Pouco depois, a voz de Miss Marple perguntava:
  - Est, Lucy?
  Lucy inspirou fundo.
  - Tinha toda a razo! - exclamou. - J o encontrei.
  - Um corpo de mulher?
  - Sim. Uma mulher, com um casaco de peles. Est dentro de um sarcfago de pedra, numa espcie de
uceleiro-museu perto da casa. Que quer que eu faa?
Creio que devo informar a Polcia.
  - Sim. Deve informar a Polcia, sem demora.
  - Mas o resto? A senhora? A primeira coisa que a
Polcia h-de querer saber  o motivo por que eu levantei uma tampa que pesa toneladas, ao que parece 
sem
razo para o fazer. Quer que invente uma razo? Sou
capaz de invent-la.
  - No - respondeu Miss Marple na sua voz sria
e suave. - Acho que a nica coisa a fazer  contar a
verdade.
  - A seu respeito?
  - A respeito de tudo.
  Um sbito sorriso quebrou a palidez do rosto de
Lucy.
  - Isso ser muito simples, mas receio que no me
acreditem facilmente.
  Desligou, esperou um momento e depois telefonou
para a esquadra da Polcia.
  - Acabo de descobrir um cadver, num sarcfago
que est no Long Barn, em Rutherford Hall.
  - Que disse?
  Lucy repetiu o que dissera e, prevendo a pergunta
seguinte, declarou o nome e morada.

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  Regressou a casa.
  Parou  entrada, a pensar.
  Depois, com uma sacudidela de cabea, decidiu-se
a entrar na biblioteca, onde Miss Crackenthorpe estava sentada, ajudando o pai a resolver o passatempo 
das
palavras cruzadas do The Times.
  - Pode conceder-me um momento de ateno,
Miss Crackenthorpe? - pediu.
  Emma ergueu o olhar, com uma expresso levemente apreensiva no rosto. O pessoal domstico costuma 
recorrer a tais termos para anunciar a sua partida
iminente.
  - Ande, fale - incitou irritadamente o velho
Mr. Crackenthorpe.
  Lucy declarou a Emma.
  - Gostaria de falar-lhe em particular.
  - Que disparate - resmungou Mr. Crackenthorpe. - Diga j aqui o que tem a dizer.
  - Um momento, pai - interveio Emma, levantando-se e aproximando-se da porta.
  - Que disparate! Isso pode esperar! - obstinou-se o velho, com irritao.
  - Acho que no pode esperar - declarou Lucy.
  - Que impertinnia! - indignou-se Mr. Crackenthorpe.
  Emma saiu para o trio e Lucy seguiu-a, fechando
a porta da biblioteca.
  - Que se passa? - perguntou Emma. - Se acha
que os pequenos lhe do muito que fazer, posso ajud-la e...
  - No se trata disso - interrompeu Lucy.No quis falar-lhe diante de seu pai porque  uma pessoa doente e 
o que tenho a dizer-lhe poderia causar-lhe
uma comoo. Acabo de descobrir o corpo de uma
mulher assassinada, no sarcfago que est no Long
Barn.
  Emma fitou-a, perplexa.
  - No sarcfago? Uma mulher assassinada?  impossvel!

  - Lamento muito, mas  a verdade! J telefonei 
Polcia. Deve estar a chegar, de um momento para
o outro.
  Um leve rubor assomou ao rosto de Emma.
  - Devia ter-me prevenido primeiro... antes de
avisar a Polcia.
  - Desculpe.
  - No a ouvi telefonar... - O olhar de Emma
desviou-se para o telefone pousado sobre a mesa do
trio.
  - Telefonei do posto de correio,  beira da estrada.
  - Mas que extraordinrio! Porque no telefonou
daqui?
  Lucy pensou rapidamente.
  - Receei que os pequenos estivessem perto e me
ouvissem...
  - Compreendo... Sim... Compreendo... Vem a...
a Polcia, no  verdade?
  - J chegou - anunciou Lucy, ao ouvir os traves de um carro em frente da porta.
  Quase no mesmo instante a campainha ressoou no
interior da casa.

  - Custou-me muito, muito... ter de pedir-lhe isto
- disse o inspector Bacon.
  Saa do celeiro, segurando uma Emma Crackenthorpe muito plida, pelo brao. Apesar da expresso
do rosto transtornada, Emma Crackenthorpe caminhava com um passo firme e erecta.
  - Estou absolutamente certa de nunca ter visto
essa mulher na minha vida.
  - Estamos-lhe muito gratos, Miss Crackenthorpe.
Era tudo quanto desejava saber. Talvez queira ir repousar um pouco?
  - Tenho de ir ter com meu pai. Telefonei ao doutor Quimper, mal soube disto, e o mdico est neste
momento com ele.
  Quando atravessavam o trio, o Dr. Quimper saiu

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da biblioteca. Era um homem alto, afvel, com uns
modos naturais que os doentes achavam muito estimulantes.
  Trocou com o inspector um cumprimento de cabea.
  - Miss Crackenthorpe acaba de desincumbir-se
corajosamente de um dever desagradvel.
  - Muito bem, Emma - felicitou o mdico, dando-lhe umas palmadinhas amistosas no ombro. uma mulher 
corajosa. Sempre o soube. Seu pai est
bem. V falar com ele e depois v  casa de jantar tomar um clice de aguardente. Trata-se de uma receita
mdica.
  Emma sorriu-lhe agradecidamente e entrou na biblioteca.
  - Esta mulher vale quanto pesa - elogiou o mdico. -  uma pena no se ter casado.  a penalidade
de ser a nica mulher numa famlia de homens.
A outra irm j morreu; casou-se aos dezassete anos,
segundo creio. Esta  na realidade o que se chama
uma esplndida mulher. Teria dado uma boa esposa e
uma boa me.
  - Creio que  demasiadamente dedicada ao paiobservou o inspector Bacon.
  - Na verdade, no o  tanto como parece... mas
possui o instinto que algumas mulheres tm de tornar
felizes os seus familiares. Compreende que o pai gosta
de passar por invlido e, por conseguinte, deixa-o ser
um invlido. Procede do mesmo modo para com os irmos. Cedric julga-se um bom pintor, como diabo se
chama... Harold... sabe quanto ela d ouvidos s suas
opinies... e deixa Alfred impression-la com o relato
das histrias dos seus expedientes. Oh, sim,  uma
mulher inteligente... No  nenhuma tola. Mas deseja
alguma coisa de mim? Quer que v deitar uma vista de
olhos ao cadver, com que Johnstone est a braos, para ver se se trata de algum erro clnico meu?
  - Sim, gostaria que o visse, doutor Quimper.
Queremos identific-la. Suponho que no seja possvel

pedir o mesmo ao velho Mister Crackenthorpe. Seria
uma comoo demasiado violenta?
  - Uma comoo violenta? Que disparate. Nunca
me perdoaria, nem a si, no o deixarmos dar-lhe uma
olhadela. Est muito excitado. Trata-se do acontecimento mais excitante que se lhe deparou nestes 
ltimos quinze anos... e no lhe custar um centavo!
  - Nesse caso, no tem nada de grave, pois no?
  - Tem setenta e dois anos - replicou o mdico.
- Na realidade,  esse o seu nico mal. Tem umas
dores reumticas... mas quem as no tem? Por conseguinte, chama-lhes artritismo. Tem palpitaes 
depois
das refeies e atribui-as ao corao. Mas pode sempre fazer o que lhe apetecer! Tenho muitos doentes
como ele. Os que esto de facto doentes insistem, desesperadamente, em que esto perfeitamente bem.
Ora, vamos l ver o seu cadver. Desagradvel, no 
verdade?
  - Johnstone calcula que tenha morrido h duas
ou trs semanas.
  O mdico parou junto do sarcfago e olhou para o
interior, com frana curiosidade profissional sem se
perturbar com o que classificara de desagradvel.
  - Nunca a tinha visto. No era minha doente.
Nem sequer me recordo de t-la visto em Brackhampton. Devia ter sido uma mulher bonita...
  Saram do celeiro. O Dr. Quimper olhou para este
e comentou:
  - Encontraram-na no... como lhe chamaram?...
no Long Barn... num sarcfago! Fantstico! Quem a
encontrou?
  - Miss Lucy Eyelesbarrow!
  - Ah, a ltima criada? Mas que andava ela a fazer... a espreitar para dentro do sarcfago?
  - Isso - replicou o inspector Bacon, de modo
carrancudo -  precisamente o que vou perguntar-lhe. Quanto a Mister Crackenthorpe, quer fazer o favor 
de?. .

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  - Vou busc-lo.
  Mr. Crackenthorpe, embrulhado em xailes, chegou
num passo vivo, acompanhado pelo mdico.
  - Desastroso! - exclamou. - Absolutamente desastroso! Trouxe esse sarcfago de Florenca, em...
ora, deixem-me ver... deve ter sido em mil novecentos
e oito... ou foi em mil novecentos e nove?
  - Agora, coragem - incitou o mdico. - No
ser um espectculo agradvel.
  - Pouco importa o meu estado de sade. Devo
cumprir o meu dever, no  verdade?
  Contudo, uma breve visita ao interior do Long
Barn foi suficiente. Mr. Crackenthorpe saiu do celeiro, arrastando os ps, com notvel tristeza.
  - Nunca a tinha visto! - declarou. - Que quer
isto dizer? Absolutamente desastroso! No foi de Florenca... agora me recordo... foi de Npoles. Um 
espcime muito bonito. E uma idiota vai meter-se l
dentro e deixa que a assassinem!
  Agarrou-se  fazenda do sobretudo, no lado esquerdo do peito.
  - Isto  demasiado forte para mim... O meu corao... Onde est Emma? Doutor...
  O Dr. Quimper segurou-o pelo brao.
  - Isso j passa - prometeu. - Vou receitar-lhe
um pequeno estimulante. Aguardente.
  Regressaram a casa.
  - Um momento, por favor.
  O inspector Bacon virou-se. Os dois garotos haviam chegado, ofegantes, de bicicleta. Tinham nos
rostos uma expresso ansiosa e implorativa.
  - Deixa-nos ver o corpo, senhor?
  - No - retorquiu o inspector.
  - Oh, por favor, deixe-nos v-lo. Nunca se sabe.
Talvez soubssemos quem era. Seja camarada, inspector. Isso no  justo. hIouve um crime, mesmo 
dentro
do nosso celeiro. No  natural que uma oportunidade
destas torne a repetir-se. Seja desportista, inspector.

  - Vocs dois quem so?
  - Eu sou Alexander Eastley e este  o meu amigo
James Stoddard-West.
  - Alguma vez viram por estes stios uma mulher
loira, com um casaco de peles de esquilo, de tom
claro?
  - No me recordo bem - respondeu astutamente. - Se me deixassem ir v-la...
  - Leve-os l - recomendou o inspector Bacon ao
polcia postado  porta do celeiro. - Tambm j tivemos a idade deles!
  - Muito obrigado, inspector - gritaram ambos
os rapazes.
  Bacon encaminhou-se para a casa.
  - E agora - murmurou, carrancudamente -,
uma conversa com Miss Lucy Eyelesbarrow?

  Depois de acompanhar os polcias ao Long Barn e
de ter feito um breve resumo das suas aces, Lucy
retirara-se para segundo plano, mas no tinha a iluso
de que a Polcia j no precisaria dela.
  Acabara de cortar as batatas aos palitos, quando a
avisaram de que o inspector Bacon requeria a sua presenca. Pondo de lado a grande tigela de gua fria, 
salgada, em que metera as batatas, Lucy seguiu o polcia
at ao stio onde o inspector a esperava. Sentou-se
e aguardou calmamente o interrogatrio.
  Declarou o nome... a morada, em Londres, e
acrescentou:
  - Dar-lhe-ei alguns nomes e moradas de pessoas
que podero fornecer-lhe informaes minhas, se assim o desejar.
  Os nomes eram bons. O de um almirante da Armada, do preboste de um colgio de Oxford e de uma
dama do Imprio Britnico. O inspector Bacon no
pde deixar de sentir-se impressionado.
  - Ora, Miss Eyelesbarrow, a senhora foi ao Long
Barn procurar tinta, no  verdade? Depois de a ter

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encontrado, foi buscar uma alavana, ergueu a tampa
do sarcfago e encontrou o corpo. Que procurava dentro desse sarcfago?
  - Andava  procura de um corpo - respondeu
Lucy.
  - Andava  procura de um corpo... e encontrou-o! No acha que isso  um facto muito extraordinrio?
  - Sim,  realmente uma histria extraordinria.
Se no se importa, explico-lha.
  - Certamente,  o melhor que tem a fazer.
  Lucy fez-lhe um relato preciso dos acontecimentos
que a tinham levado  sua sensacional descoberta.
  O inspector resumiu-o numa voz afrontada:
  - Foi contratada por uma senhora de idade para
arranjar colocao nesta casa e rebusc-la, assim como
 propriedade,  procura de um cadver?  isso?
  - Sim.
  - Quem  essa senhora de idade?
  - Miss Jane Marple. Presentemente, vive no nmero quatro da Madison Road.
  O inspector anotou a morada.
  - Espera que eu acredite nesta histria?
  - Talvez s acredite depois de ter conversado com
Miss Marple e esta lha confirmar.
  - Vou entrevist-la, sim, mas deve ser maluca.
  Lucy perguntou:
  - Que tenciona contar a Miss Crackenthorpe?
A meu respeito, isto .
  - Porque o pergunta?
  - Porque no que toca a Miss Jane, j fiz o que tinha a fazer, pois encontrei o corpo que ela queria. Mas
continuo contratada por Miss Crackenthorpe e h em
casa dois garotos cheios de fome e, provavelmente,
depois de toda esta agitao, chegaro mais pessoas de
famlia. Miss Crackenthorpe precisa de pessoal. Se o
senhor for dizer-lhe que eu apenas quis este lugar para
andar  procura de cadveres,  provvel que me mande embora. Se no lho disser, poderei continuar c na
casa, e ser-lhe til.
  O inspector olhou-a com ateno.
  - Por ora, no direi coisa alguma seja a guem for
- declarou. - Ainda no verifiquei a sua histria.
 muito provvel que a tenha inventado.
  Lucv levantou-se.
  - Obrigada. Nesse caso, voltarei para a cozinha.



VII


  - E melhor chamarmos a Yard, no acha, Bacon?
  O chefe da Polcia olhava inquiridoramente para o
inspector Bacon. Este era um homenzarro, alto e macico, com uma expresso que parecia diz-lo 
terrivelmente desgostoso com a humanidade.
  - A mulher no era daqui - declarou. - H razo para admitir, a julgar pelo vesturio, que fosse estrangeira. 
Claro que - apressou-se a acrescentar -,
por ora, no vou badalar esta opinio. Guard-la-ei at
ao momento do inqurito.
  O chefe da Polcia aprovou, com um movimento
de cabea.
  - O inqurito ser puramente formal, no  verdade?
  - Sim, senhor. J falei com o coroner.
  - E foi marcado... para quando?
  - Para amanh. Suponho que os outros membros
da famlia Crackenthorpe comparecero. H a possibilidade de algum deles poder identific-la. Viro todos.
  Consultou uma lista que tinha na mo.
  - Harold Crackenthorpe, desempenha qualquer
cargo na Citv... suponho que seja uma personagem
importante. Alfred... no sei bem o que faz. Cedric...
 o que vive no estrangeiro. Pinta!

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  O inspector proferiu a palavra com uma entoao
sinistra e o chefe da Polcia sorriu disfaradamente.
  - No h qualquer razo para acreditar que a famlia Crackenthorpe esteja relacionada com o crime,
pois no?
  - No,  parte o facto de o corpo ter sido encontrado nesta propriedade - replicou o inspector Bacon.
- E  evidentemente possvel que esse artista da famlia possa identific-la. O que me d que pensar  essa
extraordinria algaravia acerca do comboio.
  - Ah, sim. J foi visitar essa senhora idosa, essa...
hum... - olhou de relane para a agenda pousada sobre a secretria - Miss Marple?
  - Sim, senhor. E mostrou-se absolutamente determinada e precisa quanto ao caso. Se  maluca ou
no, ignoro-o, mas sustenta a histria... acerca do que
a amiga viu e tudo o resto. Quanto a isso, acho que se
trata apenas de sugesto... do gnero de coisas que as
senhoras de idade inventam, como verem discos voadores ao fundo do jardim e agentes russos na 
biblioteca pblica. Mas parece no haver qualquer dvida
de que, de facto, contratou essa rapariga, ajudante da
dona da casa, para procurar um cadver... o que a rapariga fez.
  - E encontrou-o - observou o chefe da Polcia.Bem, no h dvida de que se trata de uma histria
muito original. Marple, Miss Jane Marple... o nome
parece-me familiar... Seja como for, vou pedir a interveno da Yard. Julgo que tem razo, quando no
considera este homicdio como sendo um caso de crime local... embora, por enquanto, no possamos dar
publicidade a esse facto.

  O inqurito revestiu-se de um carcter puramente
formal. Ningum se apresentou a identificar a morta.
Lucy foi chamada a declarar como encontrara o corpo,
e foi apresentado o testemunho mdico, quanto  causa da morte... estrangulamento. O prosseguimento do
processo foi, por conseguinte, adiado.

  O dia em que a famlia Crackenthorpe saiu da sala
em que o inqurito fora realizado apresentava-se frio
e ventoso. Haviam sido convocados cinco membros da
famlia. Emma, Cedric, Harold, Alfred e Bryan Eastley, marido da falecida Edith. Tambm se encontrava
presente Mr. Wimborne, advogado de uma firma de
solicitadores encarregada dos assuntos legais dos Crackenthorpe. Viera de Londres especialmente para 
assistir ao inqurito, apesar do grande transtorno que isso
lhe causara. Demoraram-se todos, por um momento,
no passeio da rua, tiritando com frio. Tinha-se reunido uma grande multido, pormenores mordazes acerca
do Corpo no Sarcfago haviam sido prodigalizados
tanto pela imprensa de Londres como pela local.
  Um murmrio correu:
  - So eles...
  Emma disse vivamente:
  - Vamo-nos embora.
  O grande Daimler de aluguer encostou-se ao passeio. Emma entrou nele e fez um sinal a Lucy para
que fizesse o mesmo. Mr. Wimborne, Cedric e Harold
seguiram-nas. Bryan Eastley disse:
  - Levo Alfred comigo no meu pequeno carro.
  O motorista fechou a porta e o Daimler preparou-se para partir.
  - Pare! - gritou Emma. - Vm a os pequenos!
  Estes, apesar dos seus protestos ofendidos, tinham
sido deixados em Rutherford Hall, mas agora apareciam sorrindo junto ao edifcio.
  - Viemos nas nossas bicicletas - explicou Stoddard-West. - O polcia foi muito amvel e deixou-nos
entrar para o fundo da sala. Espero que no fique
aborrecida com isso, Miss Crackenthorpe - acrescentou delicadamente.
  -  claro que no - respondeu Cedric pela irm.
- Tambm j fomos novos. E o vosso primeiro inqurito, no  verdade?
  - Foi muito decepcionante - lamentou Alexander. - Acabou tudo muito depressa.

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  - No podemos ficar aqui a conversar - disse
Harold com irritao. - Est uma multido enorme.
E todos esses homens com mquinas fotogrficas.
  A um sinal seu, o motorista afastou-se do passeio.
Os rapazes acenaram animadamente.
  - Acabou tudo muito depressa! - repetiu Cedric.
- Isso  o que eles julgam, pobres inocentes! Est
apenas no princpio.
  - Tudo isto  muito aborrecido. Muitssimo aborrecido - comentou Harold. - Suponho...
  Olhou para Mr. Wimborne, que cerrou os lbios
finos e meneou a cabea com desagrado.
  - Espero - declarou sentenciosamente - que todo este caso termine, em breve, de forma satisfatria.
A Polcia  muito eficiente. Todavia, tudo isto, tal como Harold diz, tem sido aborrecidssimo.
  Enquanto falava olhara para Lucy e nesse olhar era
patente o desagrado.
  Se no tivesse sido essa mulher, pareciam dizer
os seus olhos, que andou a meter o nariz onde no
devia... nada disto teria acontecido. 
  Este sentimento ou um muito semelhante foi traduzido em palavras por Harold Crackenthorpe.
  - A propsito... hum... Miss... hum... hum...
Eyelesbarrow, o que a levou a espreitar para dentro
desse sarcfago?
  Lucy j se perguntara quando  que esse pensamento ocorreria a um dos membros da famlia. Previra
que seria essa a primeira pergunta que a Polcia lhe faria, mas o que a surpreendia era o facto de, at esse
momento, parecer no ter ocorrido a mais ningum.
  Cedric, Emma, Harold e Mr. Wimborne, todos a
olhavam.
  A sua resposta j fora preparada, algum tempo
antes.
  - Na realidade - disse numa voz hesitante -,
no o sei bem... Achei que tudo aquilo precisava de
ser limpo e arrumado. E... - hesitou - chegou-me
um cheiro muito peculiar e desagradvel...

  Contara j com um imediato retraimento de toda a
gente, perante o aspecto desagradvel da ideia...
  Mr. Wimborne murmurou:
  - Sim, sim, certamente...j h cerca de trs semanas, segundo disse o mdico legista... Sabe, acho que
todos devemos procurar no deixar os nossos espritos
pensarem nessa coisa -, sorriu encorajadoramente para Emma, que se tornara muito plida. - Lembre-se
- disse - que essa desgraada nada tinha a ver com
qualquer de ns.
  - Mas no tem a certeza disso, pois no? - observou Cedric.
  Lucy Eyelesbarrow olhou-o com interesse. J anteriormente se sentira impressionada pelas diferencas
bem ntidas que distinguiam os trs irmos. Cedric era
um homem alto, com o rosto curtido pelo ar livre, de
cabelo negro e despenteado e modos brincalhes. Chegara do aeroporto, com a barba por fazer, e embora 
se
tivesse barbeado, para comparecer no inqurito, usava
as mesmas roupas com que chegara e que pareciam ser
as nicas que tinha: umas velhas calas de flanela cinzenta e um casaco cheio de ndoas e muito coado.
Parecia um prottipo da vida bomia e orgulhava-se
disso.
  Seu irmo Harold, pelo contrrio, era o quadro
perfeito do gentleman da City e de um director de companhias importantes. Era de estatura alta e erecta,
tinha cabelo negro, levemente ralo nas tmporas, um
bigodinho negro e trajava impecavelmente um fato escuro de bom corte, realado por uma gravata cinzento-
prola. Parecia o que era, um homem de negcios
astuto e bem sucedido.
  Criticou asperamente:
  - Na realidade, Cedric, isso parece-me uma observao muitssimo imprpria.
  - Porqu? No fim de contas, ela estava no nosso
celeiro. Que foi ela l fazer?
  Mr. Wimborne tossiu e disse:

64  65



  - Se calhar ia a algum... hum... encontro. Segundo
me disseram, toda a gente da terra sabia que a chave
desse celeiro estava suspensa de um prego,  entrada.
  O tom com que falou era uma censura  imprudncia de tal procedimento. Foi to ntida que Emma 
interveio defensivamente:
  - Esse costume comeou durante a guerra. Por
causa das patrulhas contra ataques areos. Havia ali
uma pequena lamparina de lcool em que preparavam
cacau quente. Depois disso, como nada havia ali que
pudesse despertar a cobia de quem quer que fosse,
continumos a pendurar a chave nesse prego. Isso convinha tambm aos membros do Instituto Feminino. 
Se
a guardssemos connosco, poderia dar-se o caso de
precisarem de utilizar-se do celeiro, numa altura em
que no estivesse ningum em casa, e isso seria aborrecido. Apenas com mulheres-a-dias e sem nenhuma
criada permanente...
  Calou-se. Falara mecanicamente, dando uma explicao sem interesse, como se o seu esprito estivesse
noutro lugar.
  Cedric lanou-lhe um rpido olhar intrigado.
  - Pareces preocupada. Que tens?
  Harold cortou, exasperado:
  - Realmente, Cedric, ainda o perguntas?
  - Pergunto, sim. Todos sabemos que uma desconhecida foi assassinada num celeiro de Rutherfod Hall
(parece um melodrama vitoriano) e todos sabemos que
Emma sofreu um choque ao ter essa notcia, mas todos ns sabemos tambm que Emma foi sempre uma
rapariga inteligente e, por conseguinte, no compreendo por que razo est ainda preocupada. C'os diabos,
as pessoas acostumam-se a tudo.
  - Algumas pessoas levam um pouco mais de tempo a habituar-se ao crime do que no nosso caso - 
observou Harold com mordacidade. - At parece que
em Maiorca os assassnios so um prato de todos os
dias...

  - Ibiza e no Maiorca - rectificou Cedric.
  -  o mesmo.
  - De forma alguma... trata-se de uma ilha muito
diferente.
  Harold continuou:
  - O que pretendo dizer  que, embora os assassnios possam ser uma coisa habitual para ti, que vives
no meio de latinos de sangue escaldante, aqui, em Inglaterra, tomamo-los a srio - e acrescentou com 
irritao crescente: - e, com franqueza, Cedric, compareceres a um inqurito pblico, com essas roupas...
  - Que tm de mal? So confortveis.
  - So imprprias.
  - Seja como for, so as nicas que trouxe. Ao correr para junto da famlia, por causa deste assunto, no
me dei ao trabalho de fazer o malo. Sou pintor e os
pintores gostam de sentir-se confortveis dentro do
que vestem.
  - Nesse caso, continuas a tentar pintar?
  - Ouve l, Harold, quando dizes tentar pintar...
  Mr. Wimborne pigarreou autoritariamente:
  - Esta discusso  infrutfera - censurou. - Se
houver qualquer maneira de poder ser-lhe til, minha
querida Emma, espero que mo diga antes de eu regressar a Londres.
  A increpao resultou. Emma Crackenthorpe apressou-se a dizer:
  - Foi muitssimo amvel da sua parte ter vindo.
  - De modo algum. Era aconselhvel a presenca,
neste inqurito, de uma pessoa que representasse a famlia. Combinei uma entrevista com o inspector, a
realizar em casa. No tenho qualquer dvida de que
a situao ficar em breve esclarecida. Na minha opinio, parece haver poucas dvidas quanto ao ocorrido.
Como Emma me disse, toda a gente da terra sabia que
a chave do celeiro se encontrava pendurada num prego, do lado de fora daquele. Parece, pois, deveras 
provvel que esse celeiro fosse utilizado, durante os meses

66  67



de Inverno, como ponto de encontro de parzinhos da
terra. Sem dvida, travou-se uma discusso e o rapaz
perdeu o domnio dos nervos. Horrorizado com o que fizera o seu olhar pousou-se no sarcfago e achou que 
este
daria um belo esconderijo.
  Lucy pensou:
  Sim, isso parece plausvel. E o que qualquer pessoa pensa.
  Cedric observou:
  - Disse um parzinho da terra... mas ainda ningum da terra identificou a rapariga.
  - Ainda  cedo. Sem dvida, no tardar que tenhamos essa identificao. E  possvel que o homem
em questo fosse um residente local e a rapariga tivesse vindo de qualquer outro lado, talvez de qualquer
outra parte de Brackhampton. Brackhampton  uma
terra grande... tem-se desenvolvido muitssimo durante os ltimos vinte anos.
  - Se eu fosse uma rapariga e resolvesse encontrar-me com um homem, no me sujeitaria a que ele me
levasse para um celeiro gelado e to distaniado de
qualquer outro stio - objectou Cedric. - Preferiria
passar a tarde confortavelmente abraada, num cinema, no acha, Miss Eyelesbarrow?
  - H necessidade de continuarmos a falar no assunto? - queixou-se Harold.
  Nesse mesmo momento, o carro parou diante da
porta de Rutherford Hall e todos se apearam.



VIII


  Ao entrar na biblioteca, Mr. Wimborne pestanejou
um pouco, quando os seus olhos velhos e perspicazes
se desviaram do inspector Bacon, a quem j fora apresentado, para se pousarem no homem loiro e de 
aspecto simptico que se achava por trs dele.

  O inspector Bacon fez as apresentaes.
  - Este senhor  o inspector-detective Craddock da
New Scotland Yard.
  - New Scotland Yard... hum - proferiu Mr. Wimborne, erguendo o sobrolho.
  Dermot Craddock, que tinha modos agradveis,
abordou facilmente o assunto.
  - Foi pedida a nossa colaborao neste caso, Mister Wimborne - esclareceu. - Como representa a famlia 
Crackenthorpe, achei de toda a justia que lhe
dssemos uma pequena informao confidencial.
  Ningum melhor do que o inspector Craddock seria capaz de revelar uma pequena parte da verdade
dando a entender que se tratava de toda ela.
  - O inspector Bacon com certeza est de acordo
- acrescentou, olhando de soslaio para o colega.
  Este concordou com solenidade e sem dar a perceber que tudo isso j fora combinado.
  -  o seguinte - declarou Craddock. - Temos
razes para acreditar, em virtude de uma informao
de que dispomos, que a morta no  natural destes stios, que veio de Londres at aqui e que chegara h
pouco do estrangeiro. Provavelmente de Frana, embora no tenhamos a certeza disso.
  Mr. Wimborne voltou a erguer o sobrolho.
  - De facto?
  - Por isso - explicou o inspector Bacon -, o
chefe da Polcia achou que a Yard estaria mais indicada para investigar o caso.
  - O meu desejo  ver o caso solucionado sem demora. Como, sem dvida, compreende, todo este 
assunto tem sido causa de muitos aborrecimentos para
esta famlia. Embora pessoalmente nada tenham a ver
com ele, sob qualquer aspecto, sentem-se...
  Fez uma breve pausa a que o inspector Craddock
se apressou a pr termo:
  - No  agradvel encontrar-se uma mulher assassinada na nossa casa. Concordo plenamente consigo.

68  69



Agora gostaria de ter uma breve entrevista com os vrios membros da famlia...
  - Para dizer a verdade, no vejo...
  - O que possam dizer-me? Se calhar, nada de interesse... mas nunca se sabe. Na minha opinio, o 
senhor  a pessoa que melhor me pode informar acerca
desta casa e da famlia.
  - E que pode ter isso a ver com uma mulher desconhecida, que veio do estrangeiro e foi assassinada
aqui?
  - Bem, a  que est a questo - replicou Craddock. - Porque veio ela c parar? Teria tido, noutros
tempos, alguma relao com esta casa? Teria sido, por
exemplo, criada da casa, noutros tempos? Talvez criada de quarto. Ou teria c vindo para se encontrar com
um anterior ocupante de Rutherford Hall?
  Mr. Wimborne objectou com frieza que Rutherford Hall fora ocupada pelos Crackenthorpe, desde
que Josiah Crackenthorpe a construra, em mil oitocentos e oitenta e quatro.
  - Isso  interessante - comentou Craddock.Se me fizesse um breve resumo da histria da famlia...
  Mr. Wimborne encolheu os ombros.
  - H muito pouco a contar. Josiah Crackenthorpe
era um industrial de doaria e acumulou uma enorme
fortuna. Construiu esta casa. Luther Crackenthorpe,
seu filho mais velho, reside nela agora.
  - Mais algum filho?
  - Um outro, Henry, que morreu num desastre de
automvel, em mil novecentos e onze.
  - E o actual Mister Crackenthorpe nunca pensou
em vender a casa?
  - No o pode fazer - replicou secamente o advogado -, em virtude de uma das clusulas do testamento de 
seu pai.
  - Talvez me possa dizer alguma coisa acerca desse
testamento.

  - Porque hei-de faz-lo?
  O inspector Craddock sorriu.
  - Porque, se me apetecer, eu prprio poderei examin-lo, na Somerset House.
  Contra vontade, Mr. Wimborne esbocou um leve
sorriso.
  - Muito bem, inspector. Queria apenas dizer que
a informao que me pediu  absolutamente irrelevante. Quanto ao testamento de Josiah Crackenthorpe,
no h qualquer mistrio que o rodeie. Deixou a sua
enorme fortuna em depsito, devendo o seu rendimento caber a seu filho Luther, enquanto este viver, e, por
morte deste, o capital deve ser dividido, em partes
iguais, pelos filhos de Luther: Edmund, Cedric, Harold, Emma e Edith. Edmund morreu na guerra e
Edith morreu h quatro anos. Por conseguinte, por
morte de Luther Crackenthorpe, o dinheiro ser dividido entre Cedric, Harold, Alfred, Emma e Alexander
Eastlev, flho de Edith.
  - E a casa?
  - Ser para o filho mais velho de Luther Crackenthorpe, se for vivo, ou para o seu descendente.
  - Edmund Crackenthorpe era casado?

  - No.
  - Por conseguinte, a casa ir...?
  - Para o segundo filho... Cedric.
  - Mister Luther Crackenthorpe no pode dispor
dela?
  - No.
  - E no pode dispor do capital?
  - No.
  - Isso no ser um pouco estranho? Suponho que
o pai no gostava muito dele - observou o inspector
astutamente.
  - E supe muito bem - disse Mr. Wimborne.O velho Josiah sentia-se desapontado com o filho, por
este no dedicar o mnimo interesse aos assuntos da famlia, alis, a assuntos de qualquer natureza. 
Luther

70 I 71



passava o tempo a viajar pelo estrangeiro e a coleccionar objets d'art. O velho Josiah no compreendia esse
interesse e, por conseguinte, deixou o dinheiro depositado para a gerao seguinte.
  - Mas, entretanto, a gerao seguinte no tem
qualquer rendimento a no ser o que consegue por
seus prprios meios ou o que o pai lhes concede, e o
pai, embora tenha um rendimento considervel, no
pode dispor do capital.
  - Exactamente. Mas no consigo relacionar tudo
isso com o assassnio de uma desconhecida de origem
estrangeira!
  - Parece nada ter a ver com o caso - apressou-se
a concordar o inspector Craddock -, mas apenas queria indagar todos os factos.
  Mr. Wimborne olhou-o perscrutadoramente e depois, parecendo satisfeito com o resultado do exame,
ps-se de p.
  - Tenciono agora regressar a Londres - declarou. - H mais alguma coisa que deseje saber?perguntou, 
olhando para os dois homens.
  - No, obrigado, Mister Wimborne.
  O som do gongo chegou-lhes, fortssimo, do trio.
  - Valha-me Deus! - exclamou Mr. Wimborne.
- Deve ser um dos pequenos, de brincadeira.
  O inspector Craddock ergueu a voz, de modo a dominar aquele clamor.
  - Deixaremos a famlia almoar em paz, mas o
inspector Bacon e eu gostaramos de voltar depois...
digamos s duas e vinte e cinco... para termos uma
curta entrevista com cada um dos membros da famlia.
  - Acha isso necessrio?
  - Bem... - Craddock encolheu os ombros. apenas uma tentativa. Talvez algum se lembre de
alguma coisa que nos d uma pista que nos permita
descobrir a identidade da mulher.
  - Duvido, inspector. Duvido muito, mas desejo-lhe boa sorte. Como h pouco disse, quanto mais depressa 
este desagradvel assunto se esclarecer, tanto
melhor para todos.
  Meneando a cabea, saiu devagar da biblioteca.

  Ao regressar do inqurito, Lucy fora logo para a
cozinha e preparava o almoo quando Bryan Eastley
entrou.
  - Posso ajud-la? - perguntou. - Tenho jeito
para servios de casa.
  Lucy lanou-lhe um olhar rpido, um pouco preocupado. Bryan fora ao inqurito, no seu prprio carro,
e, por conseguinte, ainda no tivera muito tempo para
apreci-lo.
  O que viu era bastante agradvel. Eastley era um
homem de trinta e tal anos de idade, de aspecto simptico, de cabelo castanho, olhos azuis com uma
expresso um pouco implorante, e de enorme bigode
loiro.
  - Os pequenos ainda no voltaram - anunciou,
sentando-se a uma das pontas da mesa da cozinha.De bicicleta, precisaro de vinte minutos para c
chegar.
  Lucy sorriu.
  - Estavam com certeza resolvidos a no perder pitada.
  - No podemos censur-los. Trata-se do primeiro
inqurito da sua vida jovem e, por assim dizer, no seio
da famlia.
  - Importa-se de sair da mesa, Mister Eastley?
Preciso de pousar aqui o prato de ir ao forno.
  Brv_an obedeceu.
  - Vive em Londres? - perguntou Lucy.
  - Se isso se chama viver... sim.
  O tom com que respondera  pergunta traduzia desalento. Esteve por um momento a ver Lucy misturar
os ingredientes do pudim e depois, soltando um suspiro, comentou:
  - Isto  muito agradvel.

72  73



  - O qu... esta cozinha?
  - Sim. Lembra-me a cozinha da casa de meus
pais, quando eu era garoto.
  Lucy ficou impressionada ao aperceber-se de uma
nota de abandono na personalidade de Bryan Eastley.
Observando-o com mais ateno notou que era mais
velho do que a princpio julgara. Devia ter quase qua-
renta anos. Custava a crer que fosse pai de Alexander.
Recordava-lhe inmeros pilotos jovens que conhecera,
durante a guerra, quando tinha a idade impressionvel
dos catorze anos. Desenvolvera-se e crescera num
mundo de ps-guerra, mas parecia-lhe que Bryan no
mudara e que fora ultrapassado pelo correr dos anos.
As suas palavras seguintes confirmaram esta impresso. Voltara a sentar-se na mesa.
  -  um mundo difcil o nosso, no acha? - perguntou. - Quero dizer, orientarmo-nos nele... no fomos 
treinados para isso.
  Lucy recordou o que ouvira a Emma.
  - Foi piloto de combate, no foi? Recebeu uma
medalha de guerra.
  -  isso o que nos trama. Recebemos uma condecorao e, em consequnia disso, as pessoas 
procuram failitar-nos a vida. Do-nos emprego e tudo o
mais. E uma atitude muito decente da sua parte, mas
todos esses lugares so de cargos de administrao, para que no estamos aptos. Passar a vida sentado 
a uma
secretria, a fazer contas. Tive umas ideias, mas no
pude sustent-las.  difcil arranjar uns tipos que estejam dispostos a empatar dinheiro para finaniar a sua
execuo. Se eu dispusesse de capital...
  Calou-se.
  - No conheceu Edie, pois no? Minha mulher.
No, evidentemente. Era muito diferente de toda esta
gente. Por um lado, era mais nova. Estava nas
WAAF'. Dizia sempre que o velhote era plulas.


  ' Women's Auxiliarv Air Force: Corpo Auxiliar Feminino da Fora Area. (N. do T )

E .  terrivelmente agarrado ao dinheiro, mas no o
levar com ele. Por sua morte, ser dividido pelos filhos. A parte de Edie caber a Alexander, mas este s
poder mexer no dinheiro quando tiver vinte e um
anos.
  - Desculpe, mas  capaz de tornar a sair da mesa?
  Nesse momento, Alexander e Stoddard-West chegaram, com os rostos corados e muito ofegantes.
  - Viva, Bryan - disse Alexander ao pai. - Vieste ento para aqui. Mas que maravilhoso pudim.
  - Saiam-me do caminho - pediu Lucy. - Quero
fazer o molho.
  - Faa muito molho. Pode encher duas molheiras
dele?
  - Posso, sim.
  - Oh, que bom! - exclamou Stoddard-West.
  -  uma cozinheira de estalo - apreciou Alexander, dirigindo-se ao pai.
  Lucy teve a impresso momentnea de que os papis estavam trocados. Alexander falava com o pai
como um pai carinhoso fala ao filho.
  - Podemos ajud-la, Miss Eyelesbarrow? - ofereceu-se Stoddard-West com delicadeza.
  - Sim, podem. Alexander, v bater o gongo. James,  capaz de levar este tabuleiro para a casa de jantar? 
E o senhor, Mister Eastley quer levar a travessa
com a carne? Eu levarei as batatas e o pudim.
  - Est c um agente da Scotland Yard - informou Alexander. - Acha que almoar connosco?
  - Depende do que a sua tia combinar.
  - No creio que a tia Emma se importe...  muito hospitaleira, mas suponho que o tio Harold fique
contrariado. - Alexander saiu da cozinha levando a
bandeja e acrescentou por cima do ombro: - Mister
Wimborne est agora na biblioteca com esse agente
da Yard, mas no fica para almoar. Disse que tinha
de regressar a Londres! Vamos, Stoddard. Ah, j foi
tocar o gongo.

74 75



  Nesse momento o gongo soou. Stoddard-West era
um artista. Tocou-o com toda a fora de que foi capaz
e a conversa tornou-se impossvel.
  Bryan levou a travessa com a carne, Lucy seguiu-o
com o tabuleiro da verdura e depois voltou  cozinha
a buscar as duas molheiras, cheias quase a transbordar.
  Mr. Wimborne achava-se no trio, a calar as luvas, quando Emma desceu rapidamente as escadas.
  - Tem a certeza de que no pode ficar para almoar, Mister Wimborne? Vai j para a mesa.
  - No. Tenho uma entrevista importante, em
Londres. O comboio tem carruagem-restaurante.
  - Foi muito amvel em ter vindo - disse Emma,
reconhecida.
  Os dois funcionrios da Polcia emergiram da biblioteca.
  Mr. Wimborne tomou a mo de Emma na sua.
  - No h qualquer motivo para estar preocupada
- assegurou. - Esse senhor  o inspector-detective
Craddock, da New Scottland Yard, que vem encarregar-se do caso. Volta s duas e um quarto para pedir-
lhes qualquer informao que possa facilitar-lhe o inqurito a que tem de proceder. Mas como j lhe disse,
no h razo para estar preocupada. - Olhou para
Craddock e perguntou: - Permite-me que repita a
Miss Crackenthorpe o que me contou?
  - Com certeza.
  - O inspector acaba de dizer-me que  quase certo no se ter tratado de um crime local. Supe-se que
a mulher assassinada tenha vindo de Londres e fosse
estrangeira.
  Emma Crackenthorpe inquiriu vivamente:
  - Estrangeira. Seria francesa?
  Mr. Wimborne julgara que a sua informao contribusse para acalmar Emma Crackenthorpe e a pergunta 
desta deixou-o um pouco surpreso. O olhar de
Dermot Craddock desviou-se rapidamente dele, para
pousar-se no rosto de Emma Crackenthorpe.

  Perguntava-se por que razo ela pensara que a mulher assassinada fosse francesa e por que razo esse
pensamento a perturbara tanto.



IX


  As nicas pessoas que de facto fizeram justia ao
excelente almoo preparado por Lucy foram os dois
garotos e Cedric Crackenthorpe, que parecia no ter
sido afectado pelas circunstnias que tinham determinado o seu regresso a Inglaterra. Na verdade, parecia
considerar o caso como uma boa partida de natureza
macabra.
  Lucy notou que essa atitude desagradava muitssimo a seu irmo Harold. Este parecia considerar o crime 
uma espcie de insulto pessoal  famlia Crackenthorpe e to grande era a sua sensao de ultraje que
mal almoou. Emma mostrava-se preocupada e infeliz
e tambm comeu pouco. Alfred parecia embrenhado
numa srie de pensamentos ntimos e falou muito pouco. Era um homem com bom aspecto, de rosto 
moreno e comprido com as rbitas muito prximas uma da
outra.
  Depois do almoo, os funcionrios da Polcia voltaram e, delicadamente, pediram licenca para falar com
Mr. Cedric Crackenthorpe.
  O inspector Craddock mostrou-se muito simptico.
  - Sente-se, Mister Crackenthorpe. Segundo me
disseram acaba de regressar das Baleares, no  verdade? Vive ali?
  - H seis anos. Em Ibiza. Agrada-me mais do que
esta terra triste.
  - Pelo menos apanha muito mais sol do que ns
- comentou o inspector Craddock, de modo afvel.
- Esteve aqui h pouco tempo, segundo creio... na

76  77



quadra do Natal, para ser exacto. O que o fez voltar
de novo, depois de um intervalo de tempo to curto?
  - Recebi um telegrama de Emma...  a minha irm. Foi a primeira vez que se verificou um crime na
nossa casa. No queria perder pitada... e, por conseguinte, vim.
  - Interessa-se por criminologia?
  - Oh, no h necessidade de recorrermos a termos to pretensiosos. Acontece apenas que gosto de
crimes... de romances detectivescos, nada mais! Um
crime-mistrio, ocorrido no limiar da famlia, afigurou-se-me uma oportunidade nica. Alm disso, achei
que a pobre Emma necessitaria de ajuda... para tratar
do velhote, da polcia e de tudo o mais.
  - Compreendo. Foi um apelo aos seus instintos
desportivos e tambm aos seus sentimentos familiares.
No duvido que sua irm lhe esteja muito grata... embora os seus outros dois irmos tambm tenham vindo
pr-se a seu lado.
  - Mas no para a animarem e consolarem - observou Cedric. - Harold est terrivelmente transtornado. No 
convm, de forma alguma, a um magnate
da City ver-se imiscudo no homicdio de uma mulher
de reputao duvidosa.
  Craddock ergueu um pouco o sobrolho.
  - Era... uma mulher de reputao duvidosa?
  - Bem, nesse aspecto, o senhor  a autoridade,
mas a julgar pelos factos, assim me parece.
  - Julguei que talvez pudesse fazer uma ideia de
quem ela fosse.
  - Ora, vamos, inspector, o senhor j sabe... ou ento os seus colegas no tardaro a dizer-lho, que eu no
pude identific-la.
  - Eu disse fazer uma ideia, Mister Crackenthorpe - acentuou Craddock. - Talvez nunca antes
tivesse visto essa mulher... mas talvez pudesse fazer
uma ideia de quem ela era... ou podia ter sido.
  Cedric meneou a cabea numa negativa.

  - Est a malhar em ferro frio. No fao a menor
ideia. Calculo que o senhor suponha que ela veio ao
Long Barn para se encontrar com um de ns, no 
verdade? Mas nenhum de ns vive c. As nicas pessoas que viviam na casa eram uma mulher e um velho.
No julga, decerto, que ela aqui tenha vindo a um encontro com o meu venerando pap, pois no?
  - A nossa ideia ... e o inspector Bacon concorda
comigo... que essa mulher tenha tido noutros tempos
qualquer relao com esta casa. Isso pode ter sido h
um considervel nmero de anos. Procure recordar-se,
Mister Crackenthorpe.
  Cedric reflectiu, por alguns momentos, e, depois,
voltou a menear negativamene a cabea.
  - Tal como a maioria das pessoas, temos tido algumas criadas estrangeiras, mas no me recorda de
nenhuma que corresponda  possibilidade a que se refere.  melhor perguntar aos outros... Sabem mais do
que eu.
  - No deixaremos de faz-lo.
  Craddock encostou-se ao espaldar da cadeira e
prosseguiu:
  - Como j ouviu, durante o inqurito, o testemunho mdico no pode determinar com grande exactido a 
hora da morte. H mais tempo do que duas
semanas e h menos do que quatro... o que o situa na
quadra do Natal. O senhor disse-me que viera c passar o Natal. Em que dia chegou a Inglaterra e em que
dia partiu?
  Cedric reflectiu.
  - Ora, deixe ver... Vim de avio. Cheguei aqui no
sbado anterior ao Natal... portanto, deve ter sido
no dia vinte e um de Dezembro.
  - Fez voo directo desde Maiorca?
  - Sim. Parti de l s cinco da manh e cheguei
aqui ao meio-dia.
  - E quando partiu de c?
  - Na sexta-feira seguinte, ou seja, no dia vinte e
sete.

78  79



  - Obrigado.
  Cedric sorriu.
  - Infelizmente, isso coloca-me dentro do perodo
provvel em que a morte ocorreu. Mas, na realidade,
inspector, estrangular jovens no  o meu passatempo
favorito do Natal.
  - Espero que no, Mister Crackenthorpe.
  O inspector Bacon limitou-se a apresentar uma expresso desaprovadora.
  - Uma tal aco na quadra natalcia seria prova de
uma extraordinria ausnia de paz e de boa vontade, no acha?
  Cedric dirigira esta pergunta ao inspector Bacon,
que apenas emitiu um rudo de desagrado.
  O inspector Craddock disse, com delicadeza:
  - Obrigado, Mister Crackenthorpe.  tudo.
  - Que pensa dele? - perguntou Craddock, depois de Cedric ter fechado a porta atrs de si.
  - Suficientemente pretensioso seja para o que for.
 um tipo de homem que me no agrada. Esses artistas so um rancho de vidas perdidas, propensos a 
darem-se com uma classe de mulheres duvidosas.
  Craddock sorriu.
  - Tambm me no agrada a maneira como se veste - prosseguiu Bacon. - Uma absoluta falta de 
respeito!... Comparecer a um inqurito vestido daquela
maneira. H muito tempo que no vejo um par de calas to sujo. Se quer saber a minha opinio, dir-lhe-ei
que  do tipo capaz de estrangular com facilidade uma
mulher, sem sentir quaisquer rebates de conscinia.
  - Mas no estrangulou esta... se s partiu de
Maiorca no dia vinte e um. E isto  uma coisa que podemos sem custo verificar.
  Bacon lanou-lhe um olhar perscrutador.
  - Noto que ainda no divulgou a verdadeira data
do crime.
  - No, por ora, no a divulgaremos. Gosto sempre de guardar alguns trunfos para mais tarde.

  Bacon meneou a cabea em sinal de perfeito acordo.
  - Jogue-os no momento oportuno - aconselhou.
-  de facto o melhor plano.
  - E agora - deliberou Craddock -, vamos ouvir
o que o nosso correcto gentleman da City tem para contar.
  Harold Crackenthorpe, de lbios muito fmos, tinha muito pouco para contar. Tratava-se de um incidente 
muito desagradvel... muito infeliz. Receava os
jornais... Sabia que os reprteres j tinham comeado
a pedir entrevistas... Tudo isso... era muitssimo lamentvel...
  A srie de frases deixadas a meio por Harold terminou. Este encostou-se  cadeira com a expresso de
um homem perante um mau cheiro.
  A tentativa do inspector no resultou. No, Harold
no fazia a mnima ideia de quem a mulher fosse. Sim,
passara o Natal em Rutherford Hall. S pudera ir na
vspera do Natal... mas ficara l at ao fim da semana
seguinte.
  - Muito bem - resumiu o inspector Craddock,
sem insistir no interrogatrio. J percebera que Harold Crackenthorpe no o ajudaria.
  Seguiu-se Alfred, que entrou na biblioteca com
uma despreocupao que parecia um pouco exagerada.
  Craddock mirou Alfred Crackenthorpe com uma
leve sensao de o reconhecer. Certamente j antes vira esse estranho membro da famlia... Ou teria visto 
a
sua fotografia nos jornais? Nas suas reminiscnias
acerca de Alfred havia algo desagradvel. Perguntou-lhe a profisso e obteve uma resposta vaga.
  - Presentemente, trabalho em seguros. At h
pouco tempo, andei interessado em colocar um novo
tipo de alto-falante no mercado. Um tipo absolutamente revolucionrio e com que, na realidade, ganhei
muito dinheiro.
  O inspector Craddock mostrou-se apreciativo... e
ningum poderia imaginar que notava a aparnia su80 I 81



perficialmente elegante do fato de Alfred e calculava
sem errar o baixo preco que custara. A roupa de Cedric estava deformada e quase coada, mas originaria  
mente fora de bom corte e de excelente qualidade. No
  caso de Alfred, porm, tratava-se de uma elegnia
  barata que, s por si, bastava para se perceber a sua
histria. Craddock passou com afabilidade ao interrogatrio de rotina. Alfred pareceu interessado... e at
um pouco divertido.
  -  de facto uma possibilidade ter essa mulher
trabalhado aqui, noutro tempo. Em todo o caso, no
como criada de quarto... duvido de que minha irm
alguma vez tivesse tido uma criada dessas. E creio
que, hoje em dia, ningum as tem. Mas no h dvida
de que h muito pessoal domstico estrangeiro. J tivemos umas polacas... e uma ou duas alems cheias 
de
temperamento. Mas como Emma no reconheceu essa
mulher, acho, inspector, que pode pr de parte essa possibilidade. Minha irm tem muito boa memria para
rostos. Se a mulher veio de Londres... A propsito, o
que o faz pensar que tenha vindo de Londres?
  Fizera a pergunta com muita naturalidade, mas os
seus olhos mostravam-se perscrutadores e interessados.
  O inspector Craddock sorriu e meneou a cabea.
  Alfred olhou-o atentamente e concluiu:
  - No o quer dizer, hem? Tinha um bilhete de
ida e volta na algibeira, no tinha?
  - Talvez, Mister Crackenthorpe.
  - Bem, admitindo que veio de Londres, talvez o
tipo com quem se foi encontrar julgasse ser Long Barn
o stio ideal para cometer calmamente um crime.
 evidente que esse tipo conhece a vida c de casa. No
seu lugar, inspector, procur-lo-ia.
  - E o que fazemos - replicou Craddock dando 
resposta um tom calmo e confiante.
  Agradeceu a Alfred e mandou-o embora.
  - Sabe, j vi este tipo nalgum lado... - observou
Craddock a Bacon.

O inspector proferiu o seu veredicto:
- Vive de expedientes, mas, por vezes, queima-se.

  - No creio que deseje falar comigo - comeou
Bryan Eastley como se se desculpasse, entrando no
aposento e detendo-se  porta deste. - No pertenco
exactamente  famlia.
  - Ora, deixe-me ver. O senhor  Mister Bryan
Eastley, o marido de Miss Edith Crackenthorpe, falecida h cinco anos?
  - Sou eu mesmo.
  - Foi muito amvel em procurar-nos, Mister Eastley, em especial se tem conhecimento de qualquer
coisa que julga poder ser-nos de alguma utilidade.
  - No sei nada e oxal soubesse. Tudo isto parece
muito estranho, no acha? Ir encontrar-se com um tipo, num celeiro frio e cheio de correntes de ar, a meio
do Inverno. Isso a mim no me servia.
  -  na realidade um facto muito confuso - concordou o inspector Craddock.
  -  verdade que era estrangeira? Parece que  o
que corre por a.
  - Esse facto sugere-lhe algo? - perguntou o inspector, olhando perscrutadoramente para Bryan, mas
este pareceu amavelmente alheio.
  - No, na realidade, no.
  - Talvez fosse francesa - sugeriu o inspector Bacon, desconfiado.
  Bryan denotou uma leve animao. Nos seus olhos
azuis transpareceu uma expresso de interesse e cofou
o farfalhudo bigode loiro.
  - De facto? Gay Paree'? - meneou a cabea para
ambos os lados. - No fim de contas, isso parece
tornar o caso ainda mais inverosmil, no acha? Refiro-me a uma disputa no celeiro. Suponho que seja a
primeira vez que se lhe depara um assassnio num



' Paris alegre. (li. do T.)

82 I 83



celeiro. Deve ter sido um tipo irritado... ou com um
complexo? Talvez se julgue Calgula ou qualqser outra
personagem semelhante.
  O inspector Craddock nem sequer se deu ao trabalho de repudiar essa sugesto e, em vez disso, 
perguntou com naturalidade:
  - Sabe se algum da famlia possui relaes... ou
conhecimentos franceses?
  Bryan respondeu que os Crackenthorpe no eram
muito joviais.
  - Harold casou respeitavelmente com uma mulher de cara hipcrita, filha de um nobre arruinado.
No creio que Alfred se preocupe muito com mulheres... Passa a vida a meter-se em negcios escuros,
que, por via de regra, acabam mal. Suponho que Cedric seja perseguido por seoritas espanholas em Ibiza.
As mulheres apaixonam-se com facilidade por Cedric.
Nunca se barbeia e parece estar sempre com a cara por
lavar. No percebo como  que isso pode atrair as mulheres, mas aparentemente  um facto... julgo que 
no
estou a ser-lhe muito til, pois no?
  Sorriu-lhes.
  -  melhor pedirem auxlio a Alexander. Ele e James Stoddard-West andam interessadssimos  procura
de indcios. Aposto que ainda acabam por descobrir
alguma coisa.
  O inspector Craddock formulou votos para que isso se verificasse, depois agradeceu a Bryan Eastley e
disse-lhe que gostaria de falar com Miss Emma Crackenthorpe.

  O inspector Craddock olhou com mais ateno para Emma Crackenthorpe do que anteriormente. 
Continuava intrigado com a expresso que lhe surpreendera
no rosto, antes do almo_ o.
  Uma mulher calma, que no era estpida, nem
to-pouco inteligente. Devia ser uma dessas mulheres
agradveis, de presenca confortante, na qual os homens se sentiam inclinados a confiar, e que possuam
a arte de transformar uma casa num lar, dando-lhe
uma atmosfera de repouso e de calma harmonia.
  As mulheres desse gnero eram muitas vezes subestimadas. Por trs da sua aparnia calma, possuam
um carcter firme. Craddock pensou que a chave do
mistrio da mulher encontrada morta no sarcfago estivesse escondida nos recnditos do esprito de 
Emma.
  Enquanto estes pensamentos lhe perpassavam pela
mente, Craddock ia formulando vrias perguntas sem
importnia.
  - No creio que haja muita coisa que j no tenha
contado ao inspector Bacon - disse. - Por conseguinte, no a incomodaremos com muitas perguntas.
  - Faa favor de perguntar o que quiser.
  - Como Mister Wimborne j lhe disse, chegmos
 concluso de que essa mulher morta no era natural
desta regio. Isso talvez seja um alvio para si... pelo
menos Mister Wimborne assim pensou... mas, na realidade, dificulta-nos o caso, pois, sendo assim, 
menos
facilmente a poderemos identificar.
  - Mas ela no tinha nada... uma mala? Documentos?
  Craddock meneou a cabea, numa negativa.
  - No tinha mala, nem quaisquer documentos
nas algibeiras? No tem qualquer ideia do seu nome...
ou do stio donde veio... absolutamente nada?
  Craddock pensou:
  Ela quer saber... est ansiosssima por saber...
quem a mulher . Ter-se- sentido assim, desde o incio. Bacon no me deu essa impresso... e  um 
homem subtil. . . 
  - Nada sabemos a seu respeito - declarou.Foi por isso que espermos que algum da famlia nos
pudesse ajudar. Tem a certeza de que no pode? Ainda que no a reconhea...  capaz de lembrar-se de 
algum que ela pudesse ser?
  Craddock julgou notar uma ligeira pausa, antes de
Emma Crackenthorpe responder:

84  85



  - No fao a mnima ideia.
  Imperceptivelmente, a atitude do inspector Craddock mudou. Na sua voz havia agora uma leve dureza:
  - Quando Mister Wimborne lhe disse que essa
mulher era estrangeira, porque perguntou se seria
francesa?
  Emma no ficou desconcertada. Ergueu ao de leve
o sobrolho e respondeu:
  - Perguntei isso? Ah, sim, creio que sim. No sei
realmente porque o perguntei... a menos que fosse
porque nos sentimos sempre inclinados a pensar que
os estrangeiros so franceses, at sabermos a sua verdadeira nacionalidade. A maior parte dos 
estrangeiros
que esto no nosso pas so franceses, no  verdade?
  - No me parece, Miss Crackenthorpe, que hoje
em dia assim seja. Temos c gente das mais variadas
nacionalidades, italianos, alemes, austracos, escandinavos...
  - Sim, suponho que tem razo.
  - No tinha qualquer razo especial para julgar
que essa mulher fosse francesa?
  No se apressou a dizer que no. Pensou por um
momento e depois meneou a cabea para ambos os lados, quase com pena.
  - No, na realidade, no creio - respondeu.
  O seu olhar sustentou calmamente o do inspector.
Craddock olhou para o inspector Bacon. Este inclinou-se para a frente e apresentou um pequeno estojo 
para
p-de-arroz.
  - Reconhece isto, Miss Crackenthorpe?
  Emma pegou-lhe e examinou-o.
  - No, no  meu.
  - No faz a menor ideia da pessoa a quem possa
ter pertencido?

  - No.
  - Nesse caso, julgo que, por agora, no h necessidade de a incomodarmos por mais tempo.
  - Obrigada.

  Dirigiu-lhes um breve sorriso, levantou-se e saiu
do aposento. Craddock achou que ela se retirara um
pouco apressadamente, como que sentindo um certo
alvio.
  - Julga que ela sabe alguma coisa? - perguntou
Bacon.
  O inspector Craddock redarguiu tristemente:
  - De certo modo, -se levado a pensar que toda a
gente sabe um pouco mais do que est disposto a
dizer.
  - Em geral assim  - concordou Bacon, fundamentando-se na sua longa experinia. - Masacrescentou -, 
muitas vezes o que sabem nada tem a
ver com o caso em questo. Trata-se de algum pecadilho familiar ou de alguma tolice que as pessoas 
receiam que venha a pblico.
  - Sim, bem sei. Pelo menos...
  Mas o inspector Craddock no terminou a frase,
porque a porta abriu-se com violnia e o velho
Mr. Crackenthorpe entrou, arrastando os ps e num
estado de grande indignao.
  - Bela conduta essa da Scotland Yard vir aqui e
no ter a cortesia de falar, em primeiro lugar, com
o chefe da famlia! Quem  o dono da casa, sempre
gostaria de saber? Quem responde? Quem  o dono da
casa?
  - Claro que  o senhor, Mister Crackenthorperespondeu Craddock em tom coniliador, levantando-se 
enquanto falava. - Mas como o senhor j tinha
declarado ao inspector Bacon tudo quanto sabia e a
sua sade no  boa, no quisemos incomod-lo uma
vez mais. O doutor Quimper disse...
  - Ora... ora. No sou um homem forte, mas...
Quanto ao doutor Quimper,  uma verdadeira velha...
como mdico, muito competente, compreende o meu
caso... mas tem a mania de me embrulhar em algodo-em-rama. Tem a mania de no me deixar comer. 
Por
altura do Natal, senti-me um pouco enjoado e no me

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largou com perguntas. O que tinha eu comido? Quando? Quem tinha cozinhado? Quem servira a comida?
Fitas, fitas, fitas! Mas, embora a minha sade talvez
no seja boa, sinto-me perfeitamente bem para dar-lhes todo o auxlio que me for possvel. Um assassnio
na minha casa... ou antes, no meu celeiro!  um edifcio interessante, esse! Isabelino. O arquitecto aqui da
terra diz que no... mas o tipo no sabe o que est a
dizer. Nem mais um dia depois de mil quinhentos
e oitenta... mas no  disto que estamos a falar. Que
querem saber? Qual  a vossa actual teoria?
  - Por ora,  um pouco cedo para teorias, Mister
Crackenthorpe. Andamos ainda a ver se descobrimos a
identidade da assassinada.
  - Dizem que  estrangeira?
  - Julgamos que sim.
  - Um agente inimigo?
  - No me parece natural.
  - No lhe parece... no lhe parece! Essa gente
pulula por toda a parte! Infiltra-se! O que no percebo
 por que razo o Ministrio dos Estrangeiros os deixa
c entrar. Aposto que andam a espiar segredos industriais. Era o que ela andava a fazer.
  - Em Brackhampton?
  - H fbricas por toda a parte. H uma, mesmo 
sada do porto das traseiras.
  Craddock olhou rapidamente para Bacon, que informou:
  - Crackers & Cosy Crisps'.
  - Como sabe que  isso realmente o que andam a
fazer? No posso engolir essa gente. Pois bem, se ela
no era uma espia, quem julgam que fosse? Julgam
que andava metida com algum dos meus preciosos filhos? Se assim fosse, seria com Alfred. Com Harold,
no, esse  muito prudente. E Cedric no est disposto
a viver neste pas. Sendo assim, seria uma das saias



' Bolachas e Biscoitos. (N. do T. )

de Alfred. E um tipo qualquer violento seguiu-a at
c, pensando que ela ia encontrar-se com ele e matou-a. Que diz a isto?
  O inspector Craddock redarguiu, diplomaticamente, que era decerto uma teoria, mas que Mr. Alfred
Crackenthorpe no a reconhecera.
  - Ora! Tem medo  o que ! Alfred foi sempre
um cobarde e foi sempre tambm um mentiroso!  capaz de nos desmentir na nossa prpria cara. Nenhum
dos meus filhos presta. So um bando de abutres, 
procura que eu morra.  essa a sua verdadeira preocupao na vida - riu-se baixinho. - Mas podem esperar. 
No quero que me fiquem a dever um favor.
Bem, se no lhes posso ser de maior utilidade... sinto-me cansado. Vou descansar.
  Retirou-se, arrastando os ps.
  - Uma saia de Alfred? - sublinhou Bacon.Na minha opinio, isso  uma inveno do velho.
- Fez uma pausa, hesitou, e acabou por prosseguir.
- Pessoalmente, acho Alfred muito bem... talvez um
pouco velhaco sob certos aspectos... mas actualmente
no nos d dores de cabea. Note... esse tipo da Fora
Area intriga-me um pouco.
  - Bryan Eastley?
  - Conheci um ou dois tipos como ele. So o que
se pode chamar tipos que andam sem governo neste
mundo... a vida f-los conhecer, demasiado cedo, o
perigo, a morte e a excitao. Agora, acham a vida calma. Calma e insatisfatria. De certo modo, demos-
lhes
um osso duro de roer, mas no vejo que outra coisa
poderamos ter feito. Mas agora tmo-los todos eles
sem passado e sem futuro. E so do gnero que no se
importa de correr riscos... O tipo vulgar porta-se bem
por instinto, mais por prudnia do que por moralidade. Mas esses tipos no tm medo... Portarem-se 
pelo seguro no faz parte do seu vocabulrio. Se Eastley
estivesse metido com uma mulher e quisesse mat-la...
- calou-se e estendeu uma mo, resignado. - Mas

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porque havia de querer mat-la? E se a tivesse morto,
porque havia de ter ido met-la no sarcfago do sogro?
No, se quer saber a minha opinio, nenhuma destas
pessoas teve qualquer coisa a ver com o crime. Caso
contrrio, no se teriam dado ao trabalho de pr o corpo  entrada de casa.
  Craddock concordou que isso era estranho.
  - H mais alguma coisa que queira aqui fazer?
  Craddock respondeu negativamente.
  Bacon sugeriu regressarem a Brackhampton e tomarem uma chvena de ch... mas o inspector Craddock 
declarou que ia visitar um antigo conhecimento.



X


  Miss Marple, sentada erecta contra um fundo de
ces de porcelana e de presentes de Margate, sorriu
com aprovao ao inspector Dermot Craddock.
  - Sinto-me to contente por o terem encarregado
do caso - confessou. - Tinha esperanas de que assim fosse.
  - Quando recebi a sua carta - disse Craddock -,
levei-a imediatamente a Sir Henry, da Scotland Yard.
Por acaso, ele prprio tinha acabado de saber que a
Polcia de Brackhampton pedia a nossa interveno no
caso. Julgavam que no se tratava de um crime local.
O chefe ficou muito interessado no que eu lhe contei a
seu respeito. Suponho que meu padrinho j lhe tinha
falado de si.
  - Querido Sir Henry - murmurou Miss Marple,
afectuosamente.
  - Pediu-me que lhe contasse tudo acerca do caso
Little Paddock. Quer saber o que ele disse depois de
me ouvir?
  - Pois sim, se no for inconfidnia.

  - Disse: Bem, como isto parece um caso completamente estrbico, descoberto por duas senhoras de
idade que provaram, contra toda a probabilidade,
terem razo, e visto voc j conhecer uma dessas senhoras, vou envi-lo ali para tratar do caso. Por 
conseguinte, aqui estou. E agora, minha querida Miss
Marple, aonde vamos? Como provavelmente compreende, a minha visita no tem carcter oficial. No
tenho comigo os meus pajens. Pensei que, em primeiro lugar, talvez pudssemos conversar um pouco.
  Miss Marple sorriu-lhe.
  - Tenho a certeza de que uma pessoa que o conhea apenas oficialmente no calcula como voc  to
humano e to simptico... no core. Ora, agora, diga-me exactamente o que lhe contaram.
  - Creio que j me contaram tudo. O depoimento
feito pela sua amiga, Mistress McGillicuddy,  Polcia
de Saint Mary Mead, a confirmao desse depoimento
pelo revisor dos caminhos-de-ferro e tambm o bilhete, que encontrei, na posse do chefe da estao de
Brackhampton. Posso dizer que foram realizadas todas
as averiguaes de rotina, pelas pessoas competentes...
pelo pessoal dos caminhos-de-ferro e pela Polcia. Mas
no h dvida de que a senhora os superou, por meio
de um fantstico processo de suposies.
  - No foram suposies - contrariou Miss Marple. - Mas eu tinha uma grande vantagem. Conhecia
Elspeth McGillicuddy. Mais ningum a conhecia. No
existia qualquer confirmao da sua histria e se no
houvesse participao do desaparecimento de uma mulher, seria muito natural que pensassem que se 
tratava
de simples imaginao de uma senhora de idade... como acontece frequentemente com senhoras de 
idade...
mas no com Elspeth McGillicuddy.
  - No com Elspeth McGillicuddy - concordou
o inspector. - Sabe, conto conhec-la. Oxal no tivesse ido para Ceilo. A propsito, vamos arranjar 
maneira de a entrevistarmos ali.

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  - O meu processo de raciocnio no foi de facto
original - disse Miss Marple. - Vem todo ele em
Mark Twain. O rapaz que encontrou o cavalo. Limitou-se a pensar aonde iria, se fosse um cavalo, e 
encontrou o cavalo.
  - A senhora imaginou o que faria se fosse um assassino cruel e implacvel? - perguntou Craddock,
apreciando pensativamente a fragilidade cor-de-rosa e
brana da idosa Miss Marple. - Na realidade, o seu
esprito  fantstico. Seria capaz de ir um pouco mais
longe ao ponto de colocar-se no stio do assassino e dizer-me onde ele se encontra agora?
  Miss Marple suspirou:
  - Quem me dera! No fao ideia... no fao a mnima ideia. Mas certamente uma pessoa que j l viveu, 
ou conhece bem Rutherford Hall.
  - Concordo. Mas isso abre-nos um largo campo
de especulao. Tm l trabalhado muitas mulheres-a-dias. H o Instituto Feminino... e os membros da
Defesa Civil. Toda essa gente conhecia o Long Barn,
o sarcfago e o lugar onde a chave era colocada. Qualquer pessoa que vivesse ali perto podia ter achado o
local conveniente para o seu propsito.
  - Sim. Compreendo perfeitamente as suas dificuldades.
  - Enquanto no identificarmos o corpo, no podemos descobrir o assassino - disse Craddock.
  - E isso tambm ser difcil?
  - Acabaremos por l chegar. Andamos a verificar
todas as participaes de desaparecimentos de mulheres com aquela idade e aparnia. Por ora, no h 
nenhuma que condiga com a nossa assassinada. O laboratrio calcula que tivesse cerca de trinta e cinco
anos, que fosse saudvel, provavelmente casada e que
tivera um filho, pelo menos. O seu casaco de peles era
barato e foi comprado numa loja de Londres. Mas nos
ltimos trs meses foram vendidos centenas de casacos
daqueles a cerca de sessenta por cento de mulheres loiras. Nenhuma das empregadas pde reconhecer a 
fotografia da morta. As outras peas de roupa parecem ser
quase todas de fabrico estrangeiro, na sua maioria
compradas em Paris. No tm marcas de lavandarias
inglesas. J comunicmos com Paris e andam por l a
fazer averiguaes por nossa conta.  evidente que,
mais tarde ou mais cedo, algum se apresentar a participar a falta de um parente ou de um hspede.  
apenas
uma questo de tempo.
  - A caixa de p-de-arroz no forneceu qualquer
indcio?
  - Infelizmente no.  um gnero de estojo que se
vende s centenas na Rue de Rivoli e  um artigo muito barato. A propsito, devia t-lo entregue 
imediatamente  Polcia, sabe... ou antes, era o que Miss Eyelesbarrow devia ter feito.
  Miss Marple meneou a cabea, numa negativa.
  - Mas, nessa altura, no se provara ainda ter sido
cometido um crime - observou. - Se uma rapariga
que anda a praticar golfe, apanha do cho, no meio da
erva alta, um estojo velho de p-de-arroz, sem valor
algum, certamente no vai precipitar-se com ele  Polcia, no acha? - Miss Marple fez uma pausa e depois
acrescentou com firmeza. - Achei muito mais sensato
encontrar em primeiro lugar o corpo.
  O inspector Craddock ficou embaraado.
  - Parece no ter tido qualquer dvida de que o
corpo seria encontrado?
  - Certamente que no. Lucy Eyelesbarrow  uma
pessoa muitssimo eficiente e inteligente.
  - Tambm o acho! E to eficiente que me assusta. Nenhum homem se atrever a casar com ela.
  - Sabe, no sou dessa opinio...  claro que o homem que casar com ela ser de um tipo muito especial. 
- Miss Marple ponderou nisto um momento e
prosseguiu: - Que tal vai ela, em Rutherford Hall?
  - Acho que confiam nela inteiramente. A propsito, suponho que ainda no sabiam das relaes dela
consigo. Nada dissemos a esse respeito.

92 [ 93



  - Agora, no tem qualquer relao comigo. J fez
o que eu lhe pedira que fizesse.
  - Nesse caso, poderia ir-se embora se lhe apetecesse?
  - Sim.
  - Mas continua l. Porqu?
  - No me disse quais as razes.  uma rapariga
muito inteligente. Suponho que ficou interessada.
  - No caso? Ou na famlia?
  -  difcil - admitiu Miss Marple -, fazer uma
distinco entre as duas coisas.
  Craddock fitou-a.
  - Oh, no... no.
  - Ocorreu-lhe algum pensamento especial?
  - Creio que foi a si que ocorreu.
  Miss Marple sacudiu a cabea.
  Dermot Craddock suspirou.
  - Nesse caso, tudo quanto posso fazer  prosseguir o inqurito, para usar uma frase feita. A vida de
um polcia  triste.
  - Estou certa de que obter resultados.
  - Tem algumas ideias a sugerir-me? Mais suposies inspiradas?
  - Estava a pensar em... companhias teatraisreplicou Miss Marple um pouco vagamente. - Andar
de um lado para o outro, talvez com poucos lacos familiares.  natural que o desaparecimento de uma 
rapariga dessas seja muito menos notado.
  - Talvez tenha razo nisso. Vamos dedicar uma
ateno especial a esse aspecto do caso. - Depois perguntou: - Porque est a sorrir?
  - Estava a pensar - redarguiu Miss Marple -,
na cara de Elspeth McGillicuddy, quando souber que
encontrmos o corpo.

Ora isto! - proferiu Mrs. McGillicuddy - Ora
isto!
  Faltavam-lhe as palavras. Olhou para o jovem simptico que a visitara, munido de credenciais oficiais e
depois para as fotografias que ele lhe estendera.
  - E efectivamente ela - confirmou. -  ela.
Coitada! Ainda bem que encontraram o corpo. Ningum acreditou numa palavra do que eu disse! Nem a
Polcia, nem o pessoal dos caminhos-de-ferro!  muito
aborrecido no acreditarem no que dizemos. Seja como for, ningum pode dizer que no fiz tudo quanto
podia fazer.
  O jovem simptico emitiu uns rudos de concordnia apreciativos.
  - Onde disseram que encontraram o corpo?
  - Num celeiro de uma casa chamada Rutherford
Hall, mesmo  sada de Brackhampton.
  - Nunca ouvi falar nela. Como  que l foi parar?
  O jovem no replicou.
  - Suponho que Jane Marple o encontrou.
  - O corpo - declarou o jovem, consultando uns
apontamentos -, foi encontrado por uma Miss Eyelesbarrow.
  - Tambm nunca ouvi falar dela - disse Mrs. McGillicuddy. - Todavia continuo a crer que anda a a
mo de Jane Marple.
  - Seja como for, Mistress McGillicuddy, a senhora identifica esta fotografia como sendo a da mulher
que viu num comboio?
  - A ser estrangulada por um homem. Identifico,
sim.
  -  capaz de fazer uma descrio desse homem?
  - Era um homem alto - respondeu Mrs. McGillicuddv.
  - Que mais?
  - Moreno.
  - E que mais?
  -  tudo quanto posso dizer-lhe - afirmou
  Mrs. McGillicuddy. - Estava virado de costas para
mim. No cheguei a ver-lhe a cara.
  - No faz qualquer ideia da sua idade?

94  95



  Mrs. McGillicuddy pensou um momento.
  - No... na realidade, no. Isto , no sei. Tenho
quase a certeza de que no era... muito novo. Os ombros pareciam... bem, colocados no seu lugar, no sei
se compreende o que quero dizer. - O jovem meneou
compreensivamente a cabea. - Mais do que trinta
anos, mas no posso ser mais precisa. Bem v, no era
para ele que eu olhava, mas sim para ela... com aquelas mos  volta do pescoo e o rosto... todo azul... 
Sabe, s vezes ainda sonho com isso...
  - Deve ter sido uma prova horrvel - comentou
o jovem.
  Fechou o bloco e perguntou:
  - Quando volta a Inglaterra?
  - No antes de trs semanas. No precisam de
mim, pois no?
  O jovem apressou-se a tranquiliz-la:
  - No, no. Presentemente no h nada que possa fazer. Claro que, se prendermos algum...
  A conversa ficou por a.
  O correio trouxe uma carta de Miss Marple, dirigida  amiga. A caligrafia era pontiaguda, emaranhada e
muito sublinhada, porm uma longa prtica permitiu
a Mrs. McGillicuddv decifr-la. Nessa cana Miss Marple fazia  amiga um relato pormenorizado do caso e
aquela devorou cada uma das palavras com grande satisfao. Ela e Jane haviam-lhes provado que tinham
razo.



XI


  - No consigo compreender - declarou Cedric
Crackenthorpe, encostando-se ao muro velho de um
longo curral para porcos e fitando Lucy Eyelesbarrow.
  - O qu que no consegue compreender?

  - O que voc est c a fazer.
  - Ganho a minha vida.
  - Como serva? - perguntou depreciativamente.
  - Voc est antiquado - ripostou Lucy. - Serva,
francamente! Sou uma empregada domstica, uma domstica profissional, ou melhor, uma ajudante.
  - Voc no pode gostar de todos os servios que
tem de fazer... cozinhar, fazer as camas, aspirar o p e
mergulhar os braos at ao cotovelo dentro da gua
gordurosa.
  Lucv riu-se.
  - Talvez os pormenores no me agradem, mas, ao
cozinhar, satisfao os meus instintos criadores e existe
algo em mim que na verdade se compraz em esclarecer
embrulhadas.
  - Eu vivo numa embrulhada permanente - declarou Cedric. - Mas gosto - acrescentou em tom de desafio.
  - D a impresso disso.
  - A minha vivenda em Ibiza  orientada segundo
simples linhas rectas. Trs pratos, duas chvenas e pires, uma cama, uma mesa e duas cadeiras. Por toda 
a
parte h p, manchas de tinta e lascas de pedra... alm
de pintar tambm esculpo, e ningum tem autorizao
para tocar seja no que for. No quero mulheres nas
proximidades de casa.
  - Sem excepo para uma determinada funo?
  - Que quer dizer com isso?
  - Julgava que um homem com as suas inclinaes
artsticas tivesse algum caso amoroso.
  - A minha vida amorosa, como voc lhe chama, 
a minha prpria profisso - replicou Cedric com dignidade. - O que nunca admitirei  a interfernia de
uma mulher imbuda de esprito de dona de casa a fazer-me arrumaes e limpezas.
  - Como gostaria de visitar a sua vivenda - disse
Lucv. - Seria um desafio!
  - No ter essa oportunidade.

96 I 97



  - Suponho que no.
  Alguns tijolos caram do muro.
  - Por que razo deixaram chegar tudo isto a este
estado? No foi s a guerra, pois no?
  - Gostaria de pr tudo isto em ordem, no  verdade? Que mulher to intrometida! J compreendo
porque havia de ser voc a descobrir o corpo! No podia sequer deixar um sarcfago greco-romano em paz!
- Fez uma pausa e prosseguiu: - No, no foi apenas a guerra. Foi tambm meu pai. A propsito, que
pensa dele?
  - No tenho tido muito tempo para pensar.
  - No iluda a resposta. E terrivelmente mesquinho e, na minha opinio, tambm um pouco louco.
E evidente que nos odeia a todos com excepo, talvez, de Emma. Isso deve-se  maneira como meu av
o educou.
  Lucy tomou uma expresso inquiridora.
  - O meu av foi quem fez a massa. Com os
Crunchies, os Craker acks e os Cosy Crisps, enfim,
com toda a doaria prpria para o ch, e depois, como
era um homem de ideias largas, comeou logo a fabricar aperitivos de bolacha e queijo e, desse modo,
quando h algum cocktail ganhamos sempre muito dinheiro. Ora, chegou uma altura em que o pai achou
que o seu esprito era superior aos biscoitos. Andou
pela Itlia, pelos Balcs, pela Grcia e intrometeu-se
em arte. Meu av ficou danado. Achou que meu pai
no prestava como homem de negcios e era um pobre
apreciador de arte, no que tinha razo, e, por conseguinte, deixou todo o seu dinheiro depositado para os
netos. O pai recebe o seu usufruto enquanto viver,
mas no pode tocar no capital. Sabe o que ele fez?
Deixou de gastar dinheiro. Veio para aqui e comeou a
poupar. Acho que deve ter acumulado uma fortuna
quase to grande como a que meu av deixou. E, entretanto, todos ns, Harold, eu, Alfred e Emma no
recebemos um centavo da fortuna do av. Eu sou pintor e escultor, Harold faz negcios e  agora uma 
personagem eminente da City...  o nico de ns que
tem o condo de fazer dinheiro, embora me tenham
chegado rumores de que, ultimamente, anda muito
mal de fundos. Alfred... bem, esse  a ovelha ronhosa
da famlia. Ainda no esteve preso, mas foi por pouco.
Durante a guerra esteve empregado no Ministrio dos
Abastecimentos, mas saiu dele, inesperadamente, em
circunstnias discutveis. Depois disso, arranjou tambm complicaes com conservas de frutas... e com
ovos. Nada de verdadeiramente importante... apenas
alguns negcios um pouco irregulares.
  - No acha insensato contar isso a estranhos?
  - Porqu? Voc  espia da Polcia?
  - Talvez.
  - No creio. Antes de a Polcia se interessar por
ns, j voc c estava a trabalhar. Acho...
  Calou-se ao ver Emma transpor a cancela da horta.
  - Viva, Em! Pareces muito ralada com qualquer
coisa.
  - Pois estou. Quero falar contigo, Cedric.
  - Tenho de voltar para casa - disse Lucy, cheia
de tacto.
  - No se v embora - pediu Cedric. - Este crime torna-a, praticamente, um membro da famlia.
  - Tenho muito que fazer - insistiu Lucy.Vim c fora para buscar um pouco de salsa.
  Bateu rapidamente em retirada, at  horta. Os
olhos de Cedric seguiram-na.
  - Bonita rapariga - comentou. - Quem  ela,
na realidade?
  -  muito conhecida - informou a irm. - Especializou-se neste gnero de profisso. Mas no te
preocupes com Lucy Eyelesbarrow, Cedric. Estou
muito ralada. Ao que parece, a Polcia julga que a
morta fosse estrangeira, talvez francesa. Cedric, no
achas que podia ser... Martine?

98  99



  Por momentos, Cedric ficou-se a olhar a irm, como se a no tivesse compreendido.
  - Martine? Mas quem diabo... ah, referes-te 
Martine?
  - Sim. Achas que...
  - Por que diabo, havia de ser Martine?
  - Ora, se pensarmos bem, o seu telegrama foi estranho. Deve ter sido, pouco mais ou menos, pela
mesma altura... Achas que, no fim de contas, ela sempre tivesse vindo c e...
  - Que tolice! Porque havia Martine de vir c e de
ir logo meter-se no Long Barn? Para qu? Acho isso
muitssimo improvvel.
  - Achas que conte ao inspector Bacon... ou ao
outro?
  - Contar o qu?
  - Bem... falar-lhe de Martine, da carta que me
escreveu.
  - Ora, no vs agora complicar as coisas, trazendo  baila uma quantidade de bagatelas que nada tm
a ver com tudo isto. No fim de contas, essa carta de
Martine nunca me convenceu.
  - Pois a mim, sim.
  - Tu, minha filha, foste sempre inclinada a acreditar em coisas impossveis, antes do pequeno-almoo.
Se queres o meu conselho, deixa-te estar sossegada e
calada. Compete  Polcia identificar o seu precioso cadver. E aposto que Harold te dir o mesmo que eu.
  - Bem sei que sim e que Alfred tambm diria o
mesmo. Mas sinto-me preocupada, Cedric. Estou de
facto preocupada. No sei o que deva fazer.
  - Nada - sentenciou Cedric com prontido.Deixa-te ficar calada, Emma. Nunca devemos ir ao encontro dos 
sarilhos,  este o meu motto.
  Emma Crackenthorpe suspirou. Voltou devagar
para casa, com o esprito preocupado.
  Quando se aproximava do edficio, saa o Dr. Quimper e abria a porta do velho Austin. Ao v-la, parou e foi
ao seu encontro.

  - O seu pai, Emma, est em esplndida formadeclarou. - O crime fez-lhe bem. Proporcionou-lhe
um novo interesse na vida. Tenho de recomend-lo a
mais doentes meus.
  Emma sorriu mecanicamente. O Dr. Quimper era
sempre muito rpido a notar reaces.
  - Est algo a correr mal? - perguntou.
  Emma olhou-o. Via no apenas o mdico, mas um
amigo em quem podia confiar.
  - Estou preocupada - confessou.
  - Quer dizer-me porqu? Se no quiser dizer-mo,
no o diga.
  - Gostaria de dizer-lho. Parte j  do seu conhecimento. O que me preocupa  no saber o que fazer.
  - Acho que a sua opinio , em geral, a mais digna de confiana. Que se passa?
  - Lembra-se do que uma vez lhe contei, acerca
do meu irmo... que morreu na guerra?
  - Que se casou... ou queria casar com uma francesa? Qualquer coisa assim?
  - Sim. Quase logo a seguir a eu receber essa carta, morreu. Nunca soubemos nada dessa rapariga.
Tudo quanto na realidade sabamos, era o seu nome
prprio. Sempre espermos que ela escrevesse ou aparecesse, mas nunca fez uma coisa nem outra. 
Nunca
ouvimos coisa alguma... at h cerca de um ms, precisamente antes do Natal.
  - J me recordo. Recebeu uma carta, no  verdade?
  - Sim. Dizia que estava em Inglaterra e que gostaria de vir visitar-nos. Combinou-se tudo e, depois, 
ltima hora, enviou-nos um telegrama a dizer que tinha de regressar inesperadamente a Frana.
  - E ento?
  - A Polcia julga que essa mulher que foi assassinada... era francesa.
  - Julgam isso, no  verdade? A mim, pareceu-me mais do tipo ingls, mas no se pode ter uma cer100 I 
101



teza. Nesse caso, o que a preocupa  a possibilidade de
essa mulher assassinada poder ser a noiva de seu
irmo?

  - Sim.
  - Acho isso deveras improvvel - disse o Dr. Quimper, que acrescentou: - Mas, apesar disso, compreendo 
o que sente.
  - No sei se deva contar  Polcia... tudo isto. Cedric e os outros dizem que  absolutamente 
desnecessrio faz-lo. Que acha?
  - Hum. - O Dr. Quimper apertou os lbios. Ficou calado, por alguns momentos, imerso em profundos 
pensamentos. - E evidente que  muito mais simples nada dizer. Compreendo o ponto de vista de seus
irmos. Mas, em todo o caso...
  - Continue.
  Quimper olhou-a, com uma expresso afectuosa.
  - Dir-lho-ia. Se o no fizer, continuar preocupada. Bem a conheco.
  Emma corou um pouco.
  - Talvez seja tola.
  - Faa o que quiser, minha querida amiga... e
no se preocupe com o resto da famlia. Se for preciso,
manter-me-ei a seu lado, contra todos eles.



XII


  - Pequena! Eh, pequena! Venha c!
  Lucy virou a cabea, surpreendida. O velho Mr. Crackenthorpe acenava-lhe, vigorosamente, por trs de
uma porta.
  - Precisa de mim, Mister Crackenthorpe?
  - No fale tanto. Entre.
  Lucy obedeceu ao dedo imperioso. O velho Mr. Crackenthorpe agarrou-a pelo brao, puxou-a para junto de
si e fechou a porta.

  - Quero mostrar-lhe uma coisa - disse.
  Lucy olhou em volta. Achavam-se numa pequena
diviso destinada a ser utilizada como escritrio, mas
que parecia ter deixado, h muito, de ser usada para
tal fim. Sobre a secretria havia montes de papis cobertos de p, e dos cantos do tecto pendiam enormes
teias de aranha. O ar cheirava a bafio.
  - Quer que limpe este quarto? - perguntou.
  O velho Crackenthorpe sacudiu a cabea de maneira feroz.
  - No, no o limpar. Mantenho este quarto fechado  chave. Emma bem gostaria de meter aqui o
nariz, mas no lho consinto.  o meu quarto. Est
a ver estas pedras? So uns espcimes geolgicos.
  Lucy olhou para uma coleco de doze ou catorze
pedacos de rocha, alguns deles polidos, outros em
bruto.
  - Encantadores - apreciou. - Muitssimo interessante.
  - Tem toda a razo. So interessantes. Voc 
uma rapariga inteligente. No os mostro a qualquer
pessoa. Vou mostrar-lhe mais coisas.
  -  muito amvel, mas, para dizer a verdade,
preciso de ir acabar o que estava a fazer. Com seis pessoas em casa...
  - A comerem  minha custa...  o que todos eles
fazem, quando c vm! Comer. Mas no se oferecem
para pagar o que comem. Sanguessugas! Esto todos 
espera que eu morra. Mas, por ora, no morrerei...
por ora, no lhes darei essa satisfao. Sou muito mais
forte do que Emma julga.
  - Estou certa de que .
  - E tambm no sou to velho como isso. Ela faz-me passar por invlido, trata-me como se eu fosse um
senil. Voc no me acha velho, pois no?
  - Certamente que no - respondeu Lucy.
  - Uma rapariga inteligente. Venha ver uma coisa
- conduziu-a atravs do quarto at um enorme mvel

102 , 103

de carvalho escuro. Lucy sentia-se um pouco inquieta
com o aperto daqueles dedos que a seguravam pelo
brao. No havia dvidas que, nesse dia, o velho
Mr. Crackenthorpe nada tinha de dbil. - Est a ver
isto? Veio de Lushington... da terra da famlia de minha me.  isabelino. So necessrios quatro homens
para desloc-lo. No sabe o que guardo l dentro, pois
no? Quer que lho mostre?
  - Pois sim - replicou Lucy delicadamente.
  -  curiosa, no  verdade? Todas as mulheres
so curiosas. - Tirou uma chave da algibeira e abriu
a porta do armrio inferior. Deste retirou um cofre
com um aspecto surpreendentemente novo. Abriu este, tambm com uma chave. - Olhe para aqui, minha
filha. Sabe o que  isto?
  Retirou do cofre um pequeno cilindro embrulhado
em papel e desfez um dos seus extremos. Caram-lhe
para a mo algumas moedas de oiro.
  - Olhe para elas, veja-as bem, toque-lhes. Sabe o
que so? Aposto que no.  muito nova. So soberanos. Era o que usvamos, antes de todos esses sujos
bocados de papel entrarem na moda. Valem muito
mais do que todos os bocados de papel. H muito que
os coleccionei. Mas tenho outras coisas, nesta caixa.
Muitas coisas aqui arrumadas. Todas preparadas,para
o futuro. Emma no o sabe... ningum o sabe. E um
segredo s de ns dois, est a compreender? Sabe porque lhe disse isto e lhe estive a mostrar estas 
coisas?
  - Porque foi?
  - Porque no quero que me julgue um velho
doente e intil. O velho co tem ainda muita vida. Minha mulher morreu h muito tempo. Estava sempre a
levantar objeces a tudo. No gostou dos nomes que
dei aos filhos, uns bons nomes saxes, no tinha o mnimo interesse pela rvore genealgica da famlia.
Nunca fiz muito caso do que ela dizia, pois era um ser
muito pobre de esprito, ao passo que voc  uma rapariga inteligente. Vou dar-lhe um conselho: no se

I prenda por um homem novo. Os rapazes novos so to  los! Voc precisa de olhar pelo seu futuro. 
Aguarde...
  - os seus dedos apertaram o brao de Lucy. Aproxi  mou a boca do ouvido da jovem e segredou: - No
  lhe digo mais do que isto: Aguarde. Esses pobres idio  tas julgam que no tardarei a morrer, mas 
enganam  -se. No me admiraria se sobrevivesse a todos eles.
  Depois veremos! Sim, sim, depois veremos. Harold
  no tem filhos. Cedric e Alfred so solteiros. Emma...
  Emma, essa j no casa. Tem um fraco por Quim  per... Mas Quimper nunca se lembrar de casar com
  ela. H Alexander, evidentemente... Sabe, gosto de
  Alexander...  estranho, mas  verdade, gosto de Ale  xander.
  Fez uma pausa durante a qual ficou de cenho fran  zido, e depois perguntou:
  - Ento, que tem a dizer? Hem?
  - Miss Evelesbarrow...
  A voz de Emma chegou, abafada, atravs da porta
  fechada do escritrio. Lucy aproveitou, reconhecida  mente, a oportunidade.
  - Miss Crackenthorpe est a chamar-me. Tenho
  de ir. Muito obrigado por tudo quanto me mostrou...
  - No se esquea... do nosso segredo.
  - No o esquecerei - assegurou Lucy precipitan  do-se para o trio, sem perceber muito bem se tinha
  acabado de receber uma proposta condicional de casa  mento.

  Dermot Craddock estava sentado  secretria do
  seu gabinete na New Scotland Yard.
  Falava ao telefone, em frans, uma lngua em que
  era toleravelmente eficiente.
  - Foi apenas uma ideia... - disse.
  - Mas sempre  uma ideia - replicou a voz no
j outro extremo do fio, da Prefeitura de Paris. - J
  mandei proceder a um inqurito nesses crculos.
  O meu agente informou que tem duas ou trs hipte104  105



ses prometedoras, para investigao. A menos que
exista algum problema familiar... ou um amante. Essas mulheres desaparecem com facilidade da 
circulao, sem que algum se preocupe com isso. Foram dar
um passeio, ou existe outro homem. Ningum se interessa por saber o que lhes aconteceu.  uma pena 
que
a fotografia que me enviou seja to difcil de reconhecer por quem quer que seja. A morte por 
estrangulamento no melhora o aspecto. Vou agora estudar o
ltimo relatrio do meu agente acerca deste assunto.
Talvez ressalte alguma coisa. Au revoir, mon cher.
  Enquanto Craddock retribua delicadamente a despedida, algum pousou uma folha de papel,  sua
frente, sobre a secretria.
  Dizia:

Miss Emma Crackenthorpe.
Deseja falar com o inspector-detective Craddock.
Caso Rutherford Hall.
  Pousou o auscultador no descanso e disse ao polcia:
  - Mande entrar Miss Crackenthorpe.
  Enquanto aguardava a chegada desta, recostou-se
na cadeira, pensativamente.
  Por conseguinte, no se enganara. Emma sabia alguma coisa... talvez no muita, mas qualquer coisa,
possivelmente til. E resolvera contar-lhe.
  Levantou-se, quando ela entrou, estendeu-lhe a
mo, instalou-a numa poltrona e ofereceu-lhe um cigarro, que ela recusou. Depois, seguiu-se uma breve
pausa. Craddock calculou que ela procurava as palavras. Inclinou-se para a frente.
  - Tem algo a contar-me, Miss Crackenthorpe?
Posso ajud-la? Tem andado preocupada com qualquer coisa, no  verdade? Talvez qualquer coisa de
pouca importnia e que talvez ache nada ter a ver
com o caso, mas que, por outro lado, deve mencionar.
Vem procurar-me com esse fim, no  verdade? Talvez
  diga respeito  identidade da morta. Julga saber quem
  ela era?
  - No, no, no  bem isso. Para dizer a verdade,
   muito improvvel, mas...
, - Mas h uma possibilidade que a preocupa.
 melhor dizer-me... pois talvez possamos sosseg-la.
  Emma no falou desde logo. Por fim, disse:
  - J conhece trs irmos meus. Tinha outro, chamado Edmund ue morreu na guerra. Pouco antes de
ter morrido, escreveu-me de Frana.
  Abriu a bolsa e tirou desta uma carta amarrotada.
Leu:

  Espero, Emma, que isto no seja um choque para ti,
mas vou casar-me... com uma rapariga francesa. Foi tudo
muito rpido... mas sei que gostars de Martine... e olhars por ela se algo me acontecer. Contar-te-ei 
todos os pormenores, na minha prxima carta - serei j um homem
casado. D a noticia com cuidado ao velhote, sim

  O inspector Craddock estendeu uma mo. Emma
  hesitou, mas acabou por entregar-lhe a carta. Conti' nou a falar, rapidamente.
  - Dois dias depois de receber essa carta, recebe  mos um telegrama a dizer que Edmund desaparecera e
  o julgavam morto. Mais tarde, a sua morte foi anuncia, da pelas vias oficiais. Foi precisamente antes de 
Dun  querque... uma poca de grande confuso. No exrcito,
  pelo que pude averiguar, no havia qualquer registo
  do seu casamento... mas, como j disse, essa poca foi
  de grande confuso. Nunca tive notcias da rapariga.
  Depois de a guerra acabar, tentei saber alguma coisa
  acerca dela, mas s lhe conhecia o primeiro nome.
  Alm disso, essa parte de Frana fora ocupada pelos
  Alemes; era difcil descobrir qualquer coisa sem saber
  o apelido da rapariga e mais alguns dados a seu res  peito. Por fim, conclu que o casamento no chegara 
a

106 107



realizar-se e que, provavelmente, ela se casara com outro homem antes do fim da guerra, ou morrera 
tambm.
  O inspector meneou a cabea de modo compreensivo e Emma prosseguiu:
  - Imagine-se a minha impresso ao receber uma
carta, h coisa de um ms, assinada Martine Crackenthorpe.
  - Tem-na consigo?
  Emma tirou do bolso a carta e entregou-a a Craddock. Este leu-a com interesse. Era uma caligra ia
francesa, inclinada, que indicava uma pessoa educada.

Querida Senhora:

  Espero que a recepo desta carta no constitua um
choque para si. Nem sequer sei se seu irmo Edmund lhe
contou que nos tinhamos casado. Disse-me que lho diria,
mas morreu poucos dias depois do nosso casamento e, nessa mesma altura, os Alemes ocuparam a 
nossa aldeia.
Depois de acabada a guerra, resolvi no lhe escrever, nem
tentar qualquer aproximao, embora Edmund me tivesse
dito que o fizesse. Mas, entretanto, j organizara a minha
nova vida e isso no se me afigurou necessrio. Porm,
agora, a situao mudou. Escrevo-lhe esta carta, por causa do meu filho. Compreende,  filho de seu irmo 
e eu...
eu j no lhe posso proporcionar o bem-estar a que tem direito. Parto para Inglaterra na prxima semana. 
Quer ter
a bondade de dizer-me se consente em receber-me? O meu
endereco postal  126 Elvers Crescent, n. o 10. Espero que
tudo isto no seja um grande choque para si.
  Com toda a considerao,

Martine Crackenthorpe

  Craddock ficou calado por alguns momentos. Antes de devolver a carta, tornou a l-la com ateno.
  - O que fez, ao receb-la, Miss Crackenthorpe?
  - Por acaso, o meu cunhado Brvan Eastlev estava

connosco, nessa altura, e falei-lhe a esse respeito. Depois telefonei a meu irmo Harold, que se encontrava
em Londres, e consultei tambm a sua opinio sobre o
assunto. Mostrou-se cptico e recomendou-me a mxima prudnia.
  Emma fez uma pausa antes de prosseguir:
  -  evidente que foi um conselho prudente e concordei que tinha razo. Mas essa rapariga... Se essa
mulher fosse na verdade a Martine de que meu irmo
Edmund me falara na carta, achei que a devamos receber com afabilidade. Escrevi para o endereco que ela
me indicara, convidando-a a visitar-nos em Rutherford
Hall. Alguns dias depois, recebi um telegrama de
Londres: ccPenalizadissima obrigada regressar Frana
inesperadamente. Martine. No tive mais qualquer notcia fosse de que gnero fosse.
  - Quando ocorreu tudo isso?
  Emma franziu o sobrolho.
  - Pouco antes do Natal. Sei-o, porque desejava
convid-la a passar o Natal connosco, mas meu pai
no aprovou a ideia e, por conseguinte, sugeri que ela
l fosse passar o fim-de-semana a seguir ao Natal, enquanto a famlia ainda l estivesse. Julgo que o 
telegrama a prevenir-nos do seu regresso a Frana chegou
poucos dias antes do Natal.
  - E julga que a mulher, cujo cadver foi encontrado no sarcfago, fosse Martine?
  - No, claro que no. Mas, quando o senhor disse que provavelmente era estrangeira... bem, no pude
deixar de pensar... se...
  Calou-se.
  Craddock falou depressa e de modo tranquilizador:
  - Fez muito bem em vir contar-me isto. Vamos
sondar o caso. Acho quase certo que a mulher que lhe
escreveu essa carta tenha voltado, de facto, a Frana e
l esteja agora de boa sade e bem. Por outro lado, h
uma certa coincidnia de datas, como a senhora com
certeza j notou. Como j ouviu por ocasio do inqu108 109



rito, de acordo com a opinio do mdico legista, a
morte da mulher ocorreu h cerca de trs ou quatro
semanas. Mas no se preocupe, Miss Crackenthorpe e
confie em ns - acrescentou com naturalidade.Consultou Mister Harold Crackenthorpe? E seu pai e
seus outros irmos?
  - Tive que dizer a meu pai, claro. Ficou muito
fora de si - sorriu brandamente. - Ficou convencido
de que se tratava de uma artimanha, para nos extorquirem dinheiro. Quando se trata de dinheiro, meu
pai excita-se com facilidade. Julga-se, ou melhor, mge
julgar que  um homem muito pobre e que, por conseguinte, tem de economizar todos os centavos que 
pode. Creio que  vulgar as pessoas de idade arranjarem
obsesses dessa natureza. Evidentemente que isso no
 verdade; tem um rendimento muito grande, de que
no chega a gastar a quarta parte... Pelo menos, assim
era, at comearem estes impostos to elevados.  certo que tem muito dinheiro amealhado. - Fez uma
pausa e continuou: - Falei tambm no caso aos meus
outros dois irmos. Alfred parece que considerou o caso uma brincadeira, embora tambm pensasse ser 
quase certo tratar-se de uma impostura. Cedric no se
mostrou interessado...  muito egosta. A nossa ideia
era receber Martine na presenca do nosso advogado,
Mister Wimborne.
  - Qual foi a opinio de Mister Wimborne sobre o
assunto?
  - No chegmos a discutir o assunto com ele.
Tencionvamos faz-lo quando chegou o telegrama de
Martine.
  - No fez qualquer outra dilignia?
  - Sim. Escrevi para o endereco de Londres, pondo no sobrescrito a indicao, Favor fazer seguir, mas
no obtive qualquer resposta.
  - Um caso bastante curioso... Hum...
  O inspector olhou Emma Crackenthorpe perscrutadoramente e perguntou:

  - Qual  a sua opinio sobre o caso?
  - No sei que pensar.
  - Quais foram as suas reaces na altura? Achou
que a carta fosse genuna... ou concordou com seu pai
e seus irmos? A propsito, qual foi a opinio de seu
cunhado?
  - Brvan achou que a carta era genuna.
  - E a senhora?
  - Eu... no tinha a certeza.
  - E como aceitava o caso... admitindo que essa
rapariga fosse de facto viva de seu irmo Edmund?
  A expresso de Emma suavizou-se.
  - Eu gostava muito de Edmund. Era o meu irmo
predilecto. A carta pareceu-me exactamente o gnero
de carta que uma rapariga como Martine escreveria
naquelas circunstnias. Achei perfeitamente natural a
srie de acontecimentos por ela referidos. Conclu que,
depois da guerra acabar, voltara a casar ou se juntara a
algum homem que a protegia e ao filho. Depois, talvez
esse homem tivesse morrido ou a tivesse abandonado
e, nessa altura, Martine devia ter achado justo apelar
para a famlia de Edmund, como ele prprio queria
que ela fizesse. A carta pareceu-me genuna e natural,
mas Harold fez-me notar que, se a carta fosse obra de
um impostor, devia ter sido escrita por uma mulher
que conhecera Martine, que estava no conhecimento
de todos os factos e, por conseguinte, apta tambm a
escrever uma carta absolutamente plausvel. Tive de
admitir a verdade disso... mas...
  Calou-se.
  - Queria certificar-se? - perguntou Craddock.
  Emma olhou-o, com uma expresso de reconhecimento.
  - Sim, queria certificar-me. Ficaria to contente,
se Edmund tivesse deixado um filho.
  Craddock meneou compreensivamente a cabea.
  - Como disse, a carta parece genuna. O que 
surpreendente  a sua sequnia. A abrupta partida de

110 ; 111



Martine para Paris e o facto de no ter tornado a ter
notcias dela. A senhora havia-lhe respondido gentilmente, dizendo-lhe que todos estavam prontos a receb-
la. Porque no tornou a escrever, ainda que tivesse
sido obrigada a regressar a Frana? Se se tratava de
uma impostura, o facto tem simples explicao. Pensei
que talvez a senhora tivesse consultado Mister Wimborne e que este houvesse procedido a um inqurito
que a alarmasse. Mas disse-me que no falou no caso
ao seu advogado. No entanto,  possvel que algum
dos seus irmos o tenha feito. E possvel que essa
Martine tenha um passado pouco recomendvel e pensasse que trataria apenas com a afeicoada irm de 
Edmund e no com homens de negcios, desconfiados.
Pode ter esperado extorquir-lhe facilmente dinheiro
para a criana, que, alis, deve ser agora um rapaz de
quinze ou dezasseis anos. Mas, em vez disso, deparou-se-lhe uma coisa muito diferente. No fim de contas
  ,
creio que seriam levantados srios aspectos legais. Se
Edmund Crackenthorpe deixou um filho, nascido do
matrimnio, esse filho seria um dos herdeiros da fortuna de seu av, no  verdade?
  Emma fez que sim, com a cabea.
  - Alm disso, segundo me disseram, na devida altura, herdaria Rutherford Hall e todo o terreno em
volta.  provvel que se trate de um terreno agora
muito valioso para construes.
  Emma pareceu um pouco espantada.
  - Sim, no tinha pensado nisso.
  - Bem, no se preocupe - tranquilizou o inspector Craddock. - Fez muito bem em vir procurar-me.
Procederei a investigaes, mas parece-me muito provvel que no haja qualquer relao entre a mulher
que escreveu a carta (e que provavelmente procurava
extorquir-lhe dinheiro por burla) e a mulher cujo corpo foi encontrado no sarcfago.
  Emma levantou-se com um suspiro de alvio.
  - Sinto-me satisfeita comigo prpria por ter-lhe

contado tudo isto, inspector. Foi muito gentil para
mim.
  Craddock acompanhou-a  porta.
  Depois telefonou ao sargento-detective Wetherall.
  - Bob, tenho um trabalho para si. V ao cento e
vinte e seis da Elvers Crescent, nmero dez. Leve consigo fotografias da mulher de Rutherford Hall. Veja o
que consegue descobrir acerca de uma mulher que disse chamar-se Mistress Crackenthorpe. Mistress 
Martine Crackenthorpe, que vivia ali ou recebia ali a correspondnia, entre, digamos, o dia quinze de 
Dezembro
e o fim desse ms.
  - Muito bem.
  Craddock tratou de vrios outros assuntos que requeriam a sua ateno e  tarde foi procurar um agente 
de teatro de quem era amigo. O seu inqurito foi
infrutfero.
  Nesse mesmo dia ainda, ao voltar ao seu gabinete,
encontrou, sobre a secretria, uma carta de Paris.

  As indicaes que deu podem aplicar-se a Anna Stravinski, do Ballet Maritski. Sugiro a sua vinda. Dessin,
Prefeitura.

  Craddock soltou um profundo suspiro de alvio e a
fronte desanuviou-se-lhe.
  - At que enfim!



XIII


  - Foi to amvel em convidar-me para tomar ch
consigo - disse Miss Marple a Emma Crackenthorpe.
  Miss Marple parecia uma verdadeira senhora, idosa e terna. O seu olhar rebrilhava, enquanto examinava 
os presentes  sua volta. Harold Crackenthorpe no

112 113



seu fato escuro, de bom corte, e Alfred, que oferecia
com um sorriso encantador o prato de sanduches a
Cedric, de p, junto  escarpa da chamin, num casaco de tweed coado e olhando carrancudo para o 
resto
da famlia.
  - A sua visita deu-nos muito prazer - replicou
Emma, delicadamente.
  Nada deixava perceber a cena que tivera lugar, depois do almoo, quando Emma exclamara:
  - Ah, j me esquecia. Disse a Miss Eyelesbarrow
que podia convidar, hoje, a velha tia, para tomar ch
connosco.
  - Manda dizer que no venha - disse Harold, de
sbito. - Temos ainda muito que conversar e no
queremos a presenca de estranhos.
  - Manda-a tomar ch na cozinha, ou noutro stio
qualquer, com a rapariga - sugeriu Alfred.
  - No, no posso fazer isso - redarguiu Emma
com firmeza. - Seria uma falta de educao da minha
parte.
  - Oh, deixem-na vir - props Cedric. - Podemos sond-la um pouco, acerca da maravilhosa Lucy.
Gostaria de saber mais coisas a respeito dessa rapariga.
No me merece inteira confiana. Acho-a demasiado
esperta.
  - Est muito bem relacionada e  absolutamente
genuna - declarou Harold. - Tirei informaes.
Achei estranho que andasse a meter o nariz por todos
os cantos e tivesse descoberto o corpo.
  - Se ao menos soubssemos quem essa mulher era
- lamentou Alfred.
  Harold acrescentou colericamente:
  - Acho, Emma, que no estavas de teu juzo perfeito, quando foste sugerir  Polcia que essa mulher
assassinada podia ser a noiva francesa de Edmund. Ficaro convencidos de que c veio e de que 
provavelmente um de ns a matou.
  - No, Harold. No exageres.

  - Harold tem toda a razo - interveio Alfred.No sei o que te passou pela cabea. Tenho a sensao
de que sou seguido, por toda a parte, por agentes 
paisana.
  - Eu disse-lhe que no o fizesse - declarou Cedric -, mas Quimper concordou com ela.
  - Este assunto no lhe diz respeito - observou
Harold, irado. - Que trate de plulas, de ps e da
Sade Pblica.
  - Parem com a discusso - pediu Emma em tom
fatigado. - Estou de facto satisfeita por essa velha
Miss Qualquer Coisa vir tomar ch connosco. Far-nos-
bem a presenca de um estranho. Deixaremos, por momentos, de respirar continuamente o mesmo 
assunto.
Vou arranjar-me.
  Saiu da sala.
  - Esta Lucy Eyelesbarrow... - comeou Harold,
parando em seguida. - Como Cedric diz,  de facto
estranho que tivesse ido meter o nariz no celeiro e tivesse aberto o sarcfago... o que, na realidade,  um
trabalho de Hrcules. Talvez devamos fazer qualquer
coisa. Achei a sua atitude, durante o almoo, bastante
antagnica...
  - Deixa-a comigo. No tardarei a descobrir se anda empenhada nalguma coisa. Porque havia de abrir o
sarcfago?!
  - Talvez no seja, na verdade, Lucy Eyelesbarrow
- sugeriu Cedric.
  - Mas qual seria a vantagem... ? - Harold pareceu terrivelmente transtornado. - Oh, c'os diabos.
  Entreolharam-se com uma expresso preocupada
no rosto.
  - A vem essa pestilenta velhota tomar ch. Precisamente quando queramos pensar.
  - Discutiremos o assunto esta tarde - decidiu
Alfred. - Entretanto sondaremos a velhota, acerca da
sobrinha.
  Por conseguinte, Miss Marple achava-se agora ins114 I 115



  talada  lareira, sorrindo para Alfred, que lhe oferece  ra sanduches.
  - Muito obrigada... So...? Ah, sim, ovo e sardi  nha. Deliciosas. Creio que sou muito gulosa, quando
  tomo ch. Com a idade, compreende...  noite, tomo
  apenas uma refeio muito ligeira... Tenho de ter cui  dado - virou-se uma vez mais para a sua anfitri.  
Que linda casa a sua! E tem tantas coisas bonitas.
  Aqueles bronzes, por exemplo, recordam-me uns que
  meu pai comprou... na Exposio de Paris. Deve ser
  muito agradvel para si ter os seus irmos consigo.
' Muitas vezes"os membros de uma famlia esto sepa  rados: ou na India, embora me parea que, por a, 
j
  nada haja a fazer; ou em frica... A costa ocidental
  tem um clima horrvel!...
  - Dois dos meus irmos vivem em Londres.
  - Deve ser agradvel no os ter muito longe de si.
  - Mas meu irmo Cedric  pintor e vive em Ibiza,
  uma das ilhas Baleares.
  - Os pintores gostam muito de ilhas, no  verda  de? Chopin... esteve em Maiorca, no esteve? Mas es  
se era msico.  em Gauguin que estou a pensar. Uma
  vida triste... desperdiada. Eu prpria no aprecio
  quadros de mulheres nativas... e, no entanto, sei que
  Gauguin  muito apreciado. Nunca gostei muito dessa
  cor de mostarda acobreada. Quando olhamos para os
  seus quadros, parece-nos que estamos com ictercia.
  Olhou para Cedric com um ar um pouco reprovativo.
  - Fale-nos de Lucy, nos seus tempos de criana,
Miss Marple - pediu aquele.
  Ela olhou-o, desvanecida.
  - Lucy foi sempre muito inteligente - comeou.
- Sim, voc tambm, meu filho... mas no interrompa. Em aritmtica era extraordinria. Recordo-me
de uma vez em que houve um engano na conta do talho e...
Miss Marple contou numerosas reminiscnias da

infnia de Lucy e destas passou a acontecimentos
da sua prpria vida, na aldeia.
  Foi interrompida pela chegada de Bryan e dos rapazes, muito transpirados e sujos em consequnia de
uma entusistica procura de pistas. Pouco depois, apareceu o Dr. Quimper, que ergueu levemente o 
sobrolho, ao olhar  sua volta, depois de ter sido apresentado  velha senhora.
  - Espero que seu pai no esteja maldisposto,
Emma.
  - No... isto , esta tarde sentiu-se apenas um
pouco cansado...
  - Para fugir s visitas, calculo - disse Miss Marple com um sorriso travesso. - Que bem me lembro
do meu querido pai. Ests  espera de todas essas velhotas?, costumava dizer a minha me. Manda 
servirem-me o ch no escritrio. Era muito maroto.
  - Por favor, no julgue... - comeou Emma,
mas Cedric interveio.
  - Quando os seus queridos filhos c esto toma
sempre o ch no escritrio. Do ponto de vista psicolgico isso  de esperar, no  verdade, doutor?
  O Dr. Quimper, que devorava sanduches e uma
talhada de bolo de caf com a frana apreciao de um
homem que dispe habitualmente de pouco tempo para gastar nas refeies, respondeu:
  - A psicologia  uma coisa muito bonita, quando
 tratada por psiclogos, mas, hoje em dia, o mal est
em que toda a gente  psicloga amador. Os meus
doentes dizem-me, a mim, exactamente os complexos e
neuroses de que sofrem, sem me darem oportunidade
de ser eu a dizer-lhos. Obrigado, Emma. Tomo outra
chvena de ch. Hoje no tive tempo para almoar.
  - Acho que a vida de um mdico  to nobre e
to cheia de abnegao - comentou Miss Marple.
  O Dr. Quimper, depois de engolir uma ltima poro de bolo, elogiou:
  - Que bolo magnfico, Emma.  uma esplndida
doceira.

116  117



  - No fui eu quem o fez. Foi Miss Eyelesbarrow.
  - Mas voc sabe faz-los igualmente bons - retorquiu o Dr. Quimper com lealdade.
  - Quer ir ver o pai?
  Levantou-se e o mdico seguiu-a. Miss Marple observou-os enquanto se afastavam.
  - Vejo que Miss Crackenthorpe  uma filha muito
dedicada.
  - Eu prprio no compreendo como ela pode aturar o velhote - disse Cedric.
  - Esta casa  muito confortvel e o pai -lhe muito afeicoado - explicou Harold rapidamente.
  - Emma sente-se bem. Nasceu para ficar solteirona.
  No olhar de Miss Marple havia um leve fulgor,
quando disse:
  - Acha isso?
  Harold apressou-se a responder:
  - Meu irmo no usou o termo solteirona num
sentido depreciativo, Miss Marple.
  - Oh, no me ofendi - assegurou Miss Marple.
- Estava apenas a pensar se ele teria razo no que disse. No acho que Miss Crackenthorpe seja o tipo de
solteirona. Acho at que  o tipo de mulher que casa
tarde... e  feliz com o casamento.
  - Vivendo aqui como vive, no  muito natural
que isso acontea - disse Cedric. - Nunca fala com
ningum com quem possa casar.
  O fulgor dos olhos de Miss Marple tornou-se ainda
mais acentudado.
  - H sempre sacerdotes e... mdicos.
  Os seus olhos, ternos e maliciosos, observaram os
irmos de Emma Crackenthorpe.
  Era bvio que lhes sugerira uma coisa, que nunca
lhes ocorrera e que no achavam sobremaneira agradvel.
  Miss Marple levantou-se, deixando cair, ao faz-lo,
um xalezinho de l e a bolsa.
  Os trs irmos apanharam-nos atenciosamente do
cho.

  - So muito gentis - agradeceu Miss Marple.Ah, sim, a minha mantazinha azul. Sim, foram muito
amveis em convidarem-me. Tinha estado a pensar como seria a vossa casa... para imaginar Lucy a 
trabalhar aqui.
  - Tem perfeitas condies domsticas... com um
assassnio dentro de portas - motejou Cedric.
  - Cedric! - exclamou Harold, num tom severo.
  Miss Marple sorriu para Cedric.
  - Sabe quem me faz lembrar? O jovem Thomas
Eade, filho do nosso director do banco. Sempre pronto a impressionar as pessoas. Est claro que, em 
crculos banrios, isso no foi bem aceite e, por conseguinte, foi parar s ndias Ocidentais. Regressou  
ptria,
por morte do pai, e herdou muito dinheiro. Isso foi
ptimo para ele, pois teve sempre muito mais jeito para gastar dinheiro do que para ganh-lo.

  Lucy levou Miss Marple a casa. No regresso, uma
figura destacou-se da sombra e parou no fulgor dos faris, precisamente quando ia virar o carro, para entrar
pela azinhaga das traseiras. A figura estendeu a mo e
Lucv reconheceu Alfred Crackenthorpe.
  - Aqui dentro est-se melhor - observou.Brr, l fora est um frio medonho. Pensei que me seria
agradvel dar uma volta, mas enganei-me. A sua tia
chegou bem a casa?
  - Sim. Gostou muito de ter vindo.
  - Isso viu-se. E engraado como as pessoas de
idade apreciam as reunies sociais, por muito montonas que estas sejam. E, na realidade, nada podia ser
mais montono do que Rutherford Hall. No posso
suportar este ambiente mais do que dois dias seguidos.
Como  que voc consegue viver aqui, Lucy? No se
importa que a trate por Lucy, pois no?
  - Certamente que no. No acho a vida aqui montona. Claro est que no vivo aqui a ttulo permanente.

118  119



'T


  - Tenho estado a observ-la... Voc, Lucy,  uma
rapariga esperta e mal empregada a cozinhar e a fazer
limpezas.
  - Obrigado, mas prefiro o servio de cozinha e as
limpezas, ao servio de escritrio.
  - Tambm eu preferiria, mas h outras maneiras
de viver. Podia ser independente.
  - J o sou.
  - Mas no desta maneira. Quero dizer, trabalhar
por sua conta. No lhe agrada a ideia?
  - Talvez.
  Lucy meteu o carro no estbulo.
  - No se quer comprometer?
  - Preciso de ficar convencida.
  - Sinceramente, minha flor, voc podia servir-me.
Tem umas maneiras formidveis... que inspiram confiana.
  - Quer que o ajude a vender tijolos de oiro?
  - Nada to arriscado como isso. Apenas um madinha  margem da lei... nada mais. - A sua mo
agarrou o brao de Lucv. - Voc, Lucy,  uma rapariga muito atraente. Gostaria de t-la por scia.
  - Sinto-me lisonjeada.
  - Quer dizer que no se sente convencida? Pense
no que lhe disse. Pense no prazer que tiraria em exceder, em astcia, todas essas pessoas sensatas que 
h
para a. A dificuldade est em que  necessrio capital.
  - Tenho pena, mas no tenho nenhum.
  - Oh, isto no foi para a experimentar. Dentro
em breve, deitarei mo a algum. O meu respeitvel
pap no  eterno.  um velho avarento. Quando fechar os olhos, receberei uma boa dose de massa.
Que me diz a isto, Lucy?
  - Quais so as condies?
  - Casamento, se quiser. As mulheres parecem de  sej-lo, sempre! Alm disso, as mulheres casadas no
  podem ser obrigadas a testemunhar contra os maridos.
  - Isso j no  to lisonjeiro!

  - Vamos, Lucy. Ainda no compreendeu que estou apaixonado por si?
  Com certa surpresa, Lucy apercebeu-se de uma estranha fascinao. Alfred possua um certo encanto,
devido talvez ao seu magnestismo, nitidamente animal. Riu-se e soltou-se do seu brao envolvente.
  - No  altura para demoras. Tenho de tratar do
jantar.
  - Pois sim, voc  uma cozinheira maravilhosa.
Que h para o jantar?
  - Espere e ver! Voc  to curioso como os garotos!
  Entraram em casa e Lucy apressou-se a ir para a
cozinha. Ficou um pouco surpreendida, ao ser interrompida no seu trabalho por Harold Crackenthorpe.
  - Miss Eyelesbarrow, posso falar consigo a respeito de um certo assunto?
  - Poder ser mais tarde, Mister Crackenthorpe?
Estou um pouco atrasada.
  - Claro, claro. Depois do jantar?
  - Pois sim.
  O jantar foi devidamente servido e apreciado. Lucy acabou de lavar a loua e foi encontrar-se com Harold 
Crackenthorpe, que a esperava no trio.
  - Que deseja, Mister Crackenthorpe?
  - Quer entrar para aqui? - perguntou este abrindo a porta da sala de visitas e entrando primeiro. Depois de 
Lucy entrar, fechou a porta.
  - Devo partir amanh de manh, muito cedoexplicou -, mas quero dizer-lhe que fiquei muito
agradavelmente impressionado com a sua competnia.
  - Obrigada - disse Lucy, sentindo-se um pouco
surpreendida.
  - Acho que os seus talentos esto mal empregados
aqui... muito mal empregados.
  - Acha isso? Pois eu no.
  cSeja como for, este no pode pedir-me em casa  inento pensava Lucy.  J tem mulher. 

120  121



  - Sugiro que, depois de se ir embora daqui, me
v procurar em Londres. Se quiser telefonar-me a
combinar um encontro, deixarei instrues  minha
secretria. A verdade  que uma pessoa com a sua capacidade nos seria til, na firma. Posso oferecer-lhe,
Miss Eyelesbarrow, um esplndido salrio e uma perspectiva brilhante. Creio que ficar agradavelmente 
surpreendida - acrescentou com um sorriso magnnimo.
  Lucy disse, com um ar modesto:
  - Obrigada, Mister Crackenthorpe, vou pensar
nisso.
  - No leve muito tempo a faz-lo. Uma jovem ansiosa por arranjar uma boa situao neste mundo no
deve perder estas oportunidades.
  Voltou a sorrir.
  - Boa noite, Miss Eyelesbarrow, durma bem.
  Ora, sim senhor..., pensou Lucy tudo isto 
muito interessante. 
  Ao subir as escadas para ir deitar-se, cruzou-se
com Cedric.
  - Escute, Lucy, preciso de conversar consigo,
acerca de uma coisa.
  - Quer que case consigo, que o siga at Ibiza e
trate de si?
  Cedric pareceu muito surpreendido e um pouco
alarmado.
  - Nunca me passou tal coisa pela cabea.
  - Desculpe, enganei-me.
  - Queria apenas saber se h um horrio dos caminhos-de-ferro, c em casa.
  - Era s isso? H um em cima da mesa do trio.
  - Sabe - admoestou Cedric -, voc no deve
julgar que toda a gente quer casar consigo. Voc 
uma rapariga engraada, mas no  nenhuma beleza.
H um nome para isso... Para dizer a verdade, voc 
a rapariga do mundo com quem menos me agradaria
casar. Percebeu bem?
  - A srio? - perguntou Lucy. - Talvez me prefira como madrasta?

122

  - Que diz? - exclamou Cedric, fitando-a, estupefacto.
  - Ouviu muito bem o que eu disse - redarguiu,
entrando no quarto e fechando a porta.



XIV


  Dermot Craddock conversava com Armand Des  sin, da Prefeitura de Paris. Os dois homens j se ti  
nham encontrado uma ou duas ocasies antes e
' davam-se bem. Como Craddock falava fluentemente
  o frans, a maior parte da conversa decorreu nesse
  idioma.
  -  apenas uma ideia - acentuou Dessin. - Te  nho aqui uma fotografia do corpo do ballet. Aqui est
  ela.  a quarta a contar da esquerda... Que diz?
  - Talvez seja - admitiu -, mas nada mais posso
  dizer. Quem era ela? Que sabe a seu respeito?
  - Quase nada - replicou o outro, com animao.
  - No era uma bailarina de categoria, compreende, e
  o Ballet Maritski tambm no  de categoria. Exibe-se
  nos teatros suburbanos e faz tournes. No conta no  mes famosos. Mas vou lev-lo a Madame Joliet que 
 a
  pessoa que o dirige.
  Madame Joliet era uma senhora francesa, desem  baraada, de olhar astuto, de pequeno bigode e com
  boa dose de tecido adiposo.
  - A mim a Polcia no me agrada! - declarou,
  olhando-os, de semblante carrancudo. - Sempre que
  podem, causam-me aborrecimentos.
  - No, no, madame, no deve dizer isso  defendeu-se Dessin, que era um homem alto, magro e
  de aspecto melanlico. - Quando  que eu lhe causei
  aborrecimentos?
  - Quando aquela idiota bebeu cido fnico - res  123



pondeu Madame Joliet prontamente. - E tudo isso
porque se apaixonou pelo chefe de orquestra... que
no gosta de mulheres e tem outros gostos. Por causa
disso, vocs fizeram um bicho-de-sete-cabeas, o que
no  de forma alguma bom para o meu belo ballet.
  - Pelo contrrio, isso provoca uma srie de lotaes esgotadas - assegurou Dessin. - Mas isso passou-se 
h trs anos. No deve ser rancorosa. Queria
apenas falar-lhe dessa rapariga, Anna Stravinski.
  - Que quer que lhe diga? - perguntou prudentemente.
  -  russa? - interessou-se o inspector Craddock.
  - No. Pergunta isso por causa do nome? Todas
essas raparigas usam nomes desses. No era uma figura importante, no danava bem e no era beleza
nenhuma. Elle tait assez bien, c'est tout. Danava razoavelmente em conjunto... mas era incapaz de fazer
um solo.
  - Era francesa?
  - Talvez. Tinha um passaporte frans, mas uma
vez disse-me que era casada com um ingls.
  - Disse-lhe que era casada com um ingls? Vivo... ou morto?
  Madame Joliet encolheu os ombros.
  - Ou morto, ou tinha-a abandonado. Como hei-de sab-lo? Estas raparigas... arranjam sempre sarilhos 
com homens...
  - Quando a viu pela ltima vez?
  - Esteve com a minha companhia em Londres,
durante seis semanas. Representmos em Torquay, em
Bournemouth, em Eastbourne, num outro stio de que
no me recordo e em Hammersmuth. Depois regressmos a Frana, mas Anna... no voltou. Enviou 
apenas
um telegrama a participar que saa da companhia e
que ia viver com a famlia do marido... ou qualquer
disparate assim. Eu no acreditei naquilo. Acho mais
provvel que tenha arranjado um homem.
  O inspector Craddock meneou a cabea em sinal


de concordnia. Compreendeu ser isso o que Madame Joliet pensava invariavelmente.
  - No me ralei nada com isso. Posso arranjar raparigas to boas ou melhores do que ela para danar e,
por conseguinte, encolhi os ombros e no voltei a pensar no assunto. Porque havia de me ralar? Essas 
raparigas so todas as mesmas: perdem a cabea com os
homens.
  - Quando foi isso?
  - O nosso regresso a Frana? Foi... no domingo
antes do Natal. E Anna deixou-nos dois... ou trs dias
antes. No me recordo exactamente.
  Madame Joliet fez uma pausa e depois inquiriu
com um sbito fulgor de interesse no olhar:
  - Porque pretendem encontr-la? Herdou alguma
fortuna?
  - Pelo contrrio - replicou o inspector Craddock
com delicadeza. - Julgamos que tenha sido assassinada.
  Madame Joliet voltou a mostrar-se indiferente:
  - a se peut. Acontece. Era uma boa catlica. Ia 
missa aos domingos e confessava-se.
  - Alguma vez lhe falou num filho, madame?
  - Num filho? Quer dizer que ela tinha um filho?
Acho isso muito pouco provvel. Todas essas raparigas
conhecem uma morada til aonde ir. Monsieur Dessin
sabe isso to bem como eu.
  - Pode ter tido um filho, antes de haver abraado
a vida de teatro - sugeriu Craddock. - Durante a
guerra, por exemplo.
  - Ah! Dans la guerre! Isso  sempre possvel. Mas,
nesse caso, nada sei a esse respeito.
  - Quais eram as suas companheiras mais ntimas?
  - Posso indicar-lhe dois ou trs nomes... mas ela
no era muito ntima de nenhuma delas.
  Uma ou duas delas tinham conhecido Anna relativamente bem, mas disseram que esta nunca falava
muito de si prpria e que, quando o fazia, era para
dizer quase tudo mentiras.

124  125



  - Gostava de inventar coisas... ter sido amante de
um gro-duque... ou de um grande financeiro ingls...
ou que trabalhara para a Resistnia durante a guerra.
Chegou a inventar que tinha entrado num filme, em
Hollywood.
  A entrevista pouco adiantara. Tudo quanto parecia
apurar-se  que Anna Stravinski fora uma grande
mentirosa, mas to-pouco havia qualquer razo para
acreditar que o seu corpo fora encontrado num sarcfago em Rutherford Hall. A identificao feita pelas
raparigas e por Madame Joliet foi muito imprecisa e
hesitante. Todas concordaram que parecia ser Anna.
Mas, com franqueza! Aquele corpo to inchado... podia ser qualquer outra pessoa!
  O nico facto que se estabeleceu foi que, no dia 19
de Dezembro, Anna Stravinski resolvera no regressar
a Frana e que, no dia 20 de Dezembro, uma mulher
com o seu aspecto viajou no comboio das quatro e
trinta e trs para Brackhampton e fora nele estrangulada.
  Se a mulher encontrada no sarcfago no era Anna
Stravinski, onde estava esta agora?
  A isto, Madame Joliet respondeu de modo simples
e seguro:
  - Est com um homem.
  Craddock admitiu, no ntimo, ser essa a resposta
mais provvel.
  Havia uma outra possibilidade a considerar, dado
que Anna dissera, em certa ocasio, ter um marido ingls.
  Esse marido teria sido Edmund Crackenthorpe?
  Isto parecia-lhe improvvel, atendendo  descrio
de Anna, que lhe fora feita por aqueles que a conheciam. Era muito mais provvel que Anna tivesse 
conhecido a pequena Martine com suficiente intimidade
para estar a par dos necessrios pormenores. Podia ter
sido Anna quem escrevera aquela carta a Emma Crackenthorpe e, nesse caso, Anna podia ter-se 
assustado

ao ter conhecimento de um inqurito. Pode at ter
achado prudente cortar as suas ligaes com o Ballet
Maritski. Mas onde estava ela agora?
  E, de novo e inevitavelmente, a resposta de Madame Joliet pareceu mais provvel.
  Com um homem...

  Antes de partir de Paris, Craddock discutiu com
Dessin o caso da mulher chamada Martine.
  O ltimo assegurou que a Sret faria o possvel
por descobrir se havia algum registo de casamento
realizado entre o tenente Edmund Crackenthorpe,
do 4. Regimento do Southshire, e uma jovem francesa de nome Martine, pouco antes da queda de 
Dunquerque.

  De novo no seu gabinete, Craddock ouviu a informao do sargento Wetherall.
  - O cento e vinte seis da Elvers Crescent  uma
penso. Muito respeitvel.
  - Algumas identificaes?
  - No, ningum reconheceu a fotografia como
sendo a da mulher que ia buscar a correspondnia,
mas to-pouco acho que fossem capazes de reconhec-la... J l vai quase um ms e entra e sai muita 
gente
dessa casa.  uma penso para estudantes.
  - Pode l ter estado sob outro nome.
  - Apesar disso, no a reconheceram pela fotografia. - E acrescentou: - Corremos os hotis, mas o
nome de Martine Crackenthorpe no figura no registo
de qualquer deles. De acordo com o seu telefonema de
Paris, procedemos a investigaes acerca de Anna
Stravinski. Esteve registada com outro elemento da
companhia num hotel barato de Brook Green. A maioria de gente de teatro vive a. Desapareceu na noite de
tera-feira, dia dezanove, depois do espectculo.
  Craddock, depois de reflectir uns momentos, telefonou para Wimborne, Henderson & Carstairs a pedir
uma entrevista com Mr. Wimborne.


126  127



  Pouco tempo depois, foi introduzido num pequeno
gabinete, sem ventilao, onde Mr. Wimborne se
achava sentado a uma enorme secretria, coberta com
montes de papis poeirentos.
  Mr. Wimborne mirou o visitante com a cautela
corts caracterstica de um advogado de famlia para
com a Polcia...
  - Em que posso ser-lhe til, inspector?
  - Esta carta... - Craddock pousou a carta de
Martine sobre a secretria.
  Mr. Wimborne tocou-lhe enfastiado com um dedo,
mas no lhe pegou. As faces coloriram-se-lhe ao de leve e apertou os lbios.
  - Exactamente, exactamente! - proferiu. - Recebi, ontem de manh, uma carta de Miss Emma
Crackenthorpe informando-me da sua visita  Scotland
Yard e de... de todas as circunstnias. Devo dizer
que no compreendo por que razo no fui consultado
acerca desta carta, mal a receberam!  muitissimo extraordinrio! Deviam ter-me informado logo...
  O inspector Craddock procurou acalm-lo.
  - No fazia a menor ideia quanto ao facto de Edmund ter-se casado - queixou-se Mr. Wimborne, numa voz 
magoada.
  O inspector Craddock sugeriu o tempo de guerra
como desculpa, mas Wimborne atalhou, com aspereza:
  - Tempo de guerra! - Depois, considerou e
prosseguiu. - Sim, na verdade, quando a guerra estalou, achvamo-nos em Lincoln's Inn Fields e a casa ao
lado da nossa foi bombardeada e muitos dos nossos arquivos ficaram destrudos. No os importantes, pois
estes tinham sido transferidos para o campo, como
medida de segurana. Mas isso causou uma enorme
confuso. Nessa altura, os assuntos dos Crackenthorpe
estavam nas mos de meu pai. Morreu h seis anos.
 possvel que lhe tenham falado nesse casamento de
Edmund, mas, pelo que sabemos, parece que tal casamento nunca se realizou e que, por conseguinte, 
meu
pai no atribuiu importnia ao caso. Devo dizer que
acho tudo isto muito suspeito. Esse envio de notcias,
depois de tantos anos, a falar num casamento e num
filho legtimo... , de facto, muito suspeito. Que provas tinha ela, sempre gostava de saber?
  - Exactamente - concordou Craddock. - Qual
seria a sua posio ou a do filho?
  - Suponho que a ideia dela fosse levar os Crackenthorpe a sustent-la e ao filho.
  - Sim, mas, quero dizer, a que teriam legalmente
direito... se ela provasse a sua pretenso?
  - Ah, compreendo. - Mr. Wimborne pegou nos
culos, que tirara, na sua irritao, e p-los, olhando
com ateno para o inspector Craddock.
  - Bem, por ora, nada. Mas se ela conseguisse provar que o rapaz era filho do seu casamento legal com
Edmund Crackenthorpe, nesse caso, o rapaz estaria
habilitado, por morte de Luther Crackenthorpe, a receber parte do dinheiro deixado por Josiah 
Crackenthorpe. Alm disso, herdaria Rutherford Hall, visto ser
filho do seu filho mais velho.
  - Algum quer herdar a casa?
  - Para l viver? Acho que no. Mas essa propriedade, meu caro inspector, vale uma considervel soma
de dinheiro. Uma soma muito considervel. E um terreno esplndido para a construo e fins industriais.
 um terreno que fica agora no corao de Brackhampton. Sim,  uma herana considervel.
  - Creio que me disse que por morte de Luther
Crackenthorpe  Cedric quem a herda, no  verdade?
  - Sim, herda a propriedade... por ser o filho mais
velho sobrevivente.
  - Segundo me deram a entender, Cedric Crackenthorpe no se interessa muito por dinheiro.
  Mr. Wimborne mirou-o com frieza.
  - Sim? Pois eu sinto-me inclinado a no dar importnia a declaraes dessa natureza. No h dvida


128

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1


de que existem pessoas que so indiferentes ao dinheiro, mas nunca conheci nenhuma.
  Mr. Wimborne sentiu obviamente prazer em fazer
esta observao.
  O inspector Craddock apressou-se a aproveitar este
raio de sol.
  - Parece que Harold e Alfred Crackenthorpe ficaram muito transtornados com a chegada dessa carta.
  - E muito natural.
  - A sua eventual herana ficaria diminuda?
  - Decerto. O filho de Edmund Crackenthorpe,
continuando a admitir que existe um filho, teria direito a um quinto do dinheiro depositado, mas isso  um
motivo absolutamente inadequado para um assassnio,
se  isso que pretende dizer.
  - Mas suponho que ambos esto com as finanas
muito em baixo - murmurou Craddock, sustentando
o olhar penetrante de Mr. Wimborne com absoluta
impassibilidade.
  - Ah! A Polcia procedeu a inquritos? Sim, Alfred est quase sempre sem dinheiro. De vez em
quando, nada nele durante um breve espaco de tempo... mas depressa se some. Harold, tal como o senhor
parece ter descoberto, est neste momento em precria
situaco.
  - Apesar da sua aparnia de prosperidade financeira?
  - Tudo isso  fachada! Metade dessas empresas
nem sequer sabem se so solvveis ou no. As folhas
de balano podem ser feitas de modo a parecerem correctas a um olho no perito. Mas, quando os activos
de uma casa comercial esto registados e no so de
facto activos, em que situao se est?
  - Naquela em que, provavelmente, Harold Crackenthorpe se encontra, isto , com grande falta de dinheiro.
  - Ora, ele no o obteria se estrangulasse a viva
do irmo - observou Mr. Wimborne. - E ningum

matou Luther Crackenthorpe, o que constituiria o
nico assassnio que beneficiaria o resto da famlia.
Por conseguinte, inspector, no vejo, de facto, aonde
quer chegar.
  O pior  que o prprio inspector Craddock tambm no o sabia muito bem.



XV


  O inspector Craddock combinara uma entrevista
com Harold Crackenthorpe no gabinete deste ltimo,
e tanto ele como o sargento Wetherall tinham chegado
ali pontualmente. O gabinete ficava no quarto andar
de um grande edifcio de reparties da Citv. O seu
interior denotava em toda a parte prosperidade e o auge do moderno gosto de decorao.
  Uma jovem impecvel informou-se do seu nome,
falou num murmrio discreto por um telefone interno
e depois, levantando-se, conduziu-os ao gabinete particular de Harold Crackenthorpe.
  Este achava-se instalado a uma enorme secretria
de tampo de coiro e tinha o habitual aspecto impecvel
e confiante. Se se encontrava perto da runa, nada o
denotava.
  Olhou os recm-chegados com um interesse franco
e acolhedor.
  - Bom dia, inspector Craddock. Suponho que a
sua visita signifique que tem finalmente alguma notcia definitiva a dar-nos.
  - Lamento, Mister Crackenthorpe, mas no  isso. Trata-se apenas de mais algumas perguntas que
gostaria de fazer.
  - Mais perguntas? Certamente que j respondemos a todas as perguntas precisas.
  - E possvel que ache isso, Mister Crackenthorpe,

130  131



mas trata-se somente de uma questo da nossa rotina
habitual.
  - Bem, desta vez, o que ? - perguntou, com
impacinia.
  - Gostaria que me dissesse exactamente o que fez
na tarde e na noite do dia vinte de Dezembro ltimo...
digamos, entre as trs horas da tarde e a meia-noite.
  O rosto de Harold Crackenthorpe ficou rubro de
clera.
  - Acho essa pergunta muitssimo extraordinria.
Quer fazer o favor de me dizer o que significa?
  Craddock sorriu amavelmente e respondeu:
  - Significa apenas que desejo saber onde esteve
entre as trs horas da tarde e a meia-noite de sexta-feira, dia vinte de Dezembro.
  - Porqu?
  - A sua resposta facilitar o inqurito.
  - No sei se deva responder  sua pergunta. Isto
, sem estar aqui presente o meu advogado.
  - Faa como entender - replicou Craddock.No  obrigado a responder a quaisquer perguntas e
tem todo o direito  presenca de um advogado.
  - No estar a avisar-me, de certa maneira?
  - No, senhor - afiancou o inspector Craddock,
mostrando-se chocado. - Nada disso. As perguntas
que lhe fao, fao-as tambm a vrias outras pessoas.
Trata-se apenas de uma questo de necessidade de eliminaces.
  - Sim, deceno... Tenho todo o desejo de ser to
til quanto me for possvel. Ora, deixe-me ver. A resposta ao que me pergunta no  fcil de dar logo, mas
ns, aqui, somos muito ordenados. Espero que Miss Ellis possa ajudar.
  Falou por um dos telefones internos e quase imediatamente uma jovem de linhas aerodinmicas, num
fato de saia e casaco negro, de corte impecvel, entrou
no gabinete, com um bloco de notas.
  - Apresento-lhe a minha secretria, Miss Ellis.

O inspector Craddock. Miss Ellis, o inspector queria saber o que fiz na tarde e na noite de... de que dia 
disse?
  - De sexta-feira, vinte de Dezembro.
  - Sexta-feira, vinte de Dezembro. Espero que tenha alguma anotao.
  - Com certeza. - Miss Ellis retirou-se para voltar pouco depois com um calendrio-memorando que
folheou.
  - Na manh do dia vinte de Dezembro, esteve
aqui no escritrio. Conferenciou com Mister Goldie
acerca da fuso de sociedades Cromartie, almoou com
Lord Forthville em Berkeley...
  - Sim, sim, foi nesse dia.
  - Voltou ao escritrio cerca das trs horas e ditou
meia dzia de cartas. Depois saiu para ir s salas Sotheby assistir a um leilo de manuscritos em que 
estava
interessado. No voltou ao escritrio, mas tenho aqui
indicao para recordar-lhe que nesse dia devia ir jantar ao Catering Club - terminou Miss Ellis erguendo
o olhar interrogativamente.
  - Obrigado, Miss Ellis.
  A secretria retirou-se do gabinete.
  - Recordo-me agora muito bem de tudo issodisse Harold. - Nessa tarde fui ao Sotheby, mas os
manuscritos que eu queria foram leiloados por um
preco exagerado. Tomei ch numa pequena casa da
Jermyn Street, creio que se chama Russells. Passei
cerca de meia hora num teatro de variedades e depois
fui para casa... Vivo no nmero quarenta e trs de
Cardigan Gardens. O jantar do Catering Club realizou-se s sete e meia no Caterer's Hall e depois disso
voltei para casa e deitei-me. Julgo que isto responde s
suas perguntas.
  - Est tudo muito claro, Mister Crackenthorpe.
Que horas eram quando foi vestir-se a casa?
  - No me recordo bem. Creio que foi pouco depois das seis.
  - E depois do jantar?

132 133



casa.

Creio que eram onze e meia, quando cheguei a

  - Foi o seu criado que lhe abriu a porta? Ou foi
Lady Alice Crackenthorpe?
  - Minha mulher, Ladv Alice, est no estrangeiro,
no Sul da Frana, desde o princpio de Dezembro. Eu
prprio abri a porta com a chave do trinco.
  - Por conseguinte, no h ningum que possa
confirmar a sua chegada a casa, s horas que diz?
  Harold lanou-lhe um olhar frio.
  - Acho que os criados me ouviram entrar. Tenho
um casal. Mas, na realidade, inspector...
  - Por favor, Mister Crackenthorpe, sei muito bem
que este gnero de perguntas  incomodativo, mas estou quase no fim. Tem carro?
  - Sim, um Humber Hawle.
  -  o senhor que o conduz?
  - Sim, raramente o uso, a no ser nos fins-de-semana. Hoje em dia  impossvei conduzir um carro
em Londres.
  - Presumo que o utiliza quando vai visitar seu pai
e irm, a Brackhampton?
  - S quando l tenciono fazer uma estada demorada. Se l vou passar apenas uma noite, como, por
exemplo, sucedeu no outro dia, por causa do inqurito, vou sempre de comboio. H um servio de 
comboios excelente e  um meio de transporte muito mais
rpido que o automvel. O carro que a minha irm
aluga vai esperar-me  estao.
  - Onde guarda o seu carro?
  - Numa garagem que aluguei por trs dos Cardigan Gardens. Mais alguma pergunta?
  - Creio que, por ora,  tudo - respondeu o inspector Craddock, sorrindo e pondo-se de p. - Peco-lhe que 
me desculpe t-lo incomodado.
  Quando se encontraram l fora, o sargento Wetherall, um homem que vivia num estado de permanente
desconfiana de tudo, observou significativamente:

  - Ele no gostou das suas perguntas... no gostou
mesmo nada delas.
  - Se uma pessoa no cometeu um crime  natural
que fique aborrecida se outra pessoa desconfia que o
praticou - explicou amenamente o inspector.E com certeza que um homem ultra-respeitvel como
Harold Crackenthorpe, estando inocente, deve ficar
aborrecidssimo. No h mal nenhum nisso. O que
agora precisamos de descobrir  se algum viu de facto
Harold Crackenthorpe nesse leilo ou na casa de ch.
Podia muito bem ter viajado no comboio das quatro
horas e trinta e trs minutos, ter atirado essa mulher
para fora do comboio e ter-se metido noutro comboio
para chegar a Londres a tempo de comparecer ao jantar. Tambm podia ter l ido no carro, nessa noite, ter
metido o corpo no sarcfago e ter regressado.
  - Julga que foi ele?
  - Como hei-de sab-lo?  alto e moreno; podia
ter estado nesse comboio e est ligado a Rutherford
Hall. Agora, vamos ao mano Alfred.

  Alfred Crackenthorpe vivia num apartamento em
West Hampstead, num enorme edifcio, com parque
de estacionamento privativo para automveis.
  Alfred Crackenthorpe acolheu-os com muita cordialidade, mas o inspector achou-o nervoso.
  - Sinto-me intrigado - disse. - Posso oferecer-lhe de beber, inspector Craddock? - perguntou segurando 
convidativamente vrias garrafas.
  - No, obrigado, Mister Crackenthorpe.
  - O caso  to feio como isso? - perguntou e logo se riu do prprio gracejo.
  O inspector declarou o fim da visita.
  - O que eu fiz na tarde e na noite do dia vinte de
Dezembro. Porque havia de saber? Ora... isso foi...
h mais de trs semanas.
  - Seu irmo Harold soube dar-me uma resposta
exacta.

134   135



  - O mano Harold talvez, mas o mano Alfred no
- e acrescentou com uma nota estranha... talvez um
pouco maliciosa: - Harold  o membro bem sucedido
da famlia, sempre atarefado, til, completamente empregado... com tempo para tudo e fazendo tudo com
pontualidade. Se tivesse de cometer um... assassnio,
por exemplo, seria cuidadosamente pontual e exacto.
  - H qualquer razo especial para se servir desse
exemplo?
  - Oh, no. Ocorreu-me apenas  ideia... como
um supremo absurdo.
  - E quanto a si?
  Alfred estendeu as mos.
  -  como lhe digo... no tenho memria para datas e lugares. Se se tratasse do dia de Natal... nesse 
caso, lembrava-me. Passei-o com meu pai em Brackhampton. Para dizer a verdade, no sei porqu. Est
sempre a resmungar por causa do gasto que tem com a
nossa presenca... mas se l no fssemos, resmunga-
ria, porque o subestimvamos. Na realidade, vamos l
para dar satisfao a minha irm.
  - E este ano tambm l foi?
  - Sim.
  - Mas, por infelicidade, seu pai estava doente,
no  verdade?
  - Adoeceu. Est habituado a viver como um pardal para glria da economia, e nesse dia comeu e
bebeu exageradamente. Claro est que sofreu as consequnias.
  - Foi apenas isso, no  verdade?
  - Com certeza. Que mais?
  - Creio que o mdico estava... preocupado.
  - Oh, esse tolo do Quimper - proferiu Alfred
em tom desdenhoso. - No vale a pena dar-lhe ouvidos, inspector.  um alarmista da pior espcie.
  - A srio? Pois a mim, pareceu-me um homem
muito sensato.
  -  um rematado idiota. Na realidade, o pai no

 invlido algum, no tem nada no corao, mas engana Quimper por completo. Como  natural, quando o
pai se sentiu de facto doente, fez uma fita medonha
e obrigou Quimper a andar de um lado para o outro, a
fazer perguntas e a examinar tudo quanto ele comera
e bebera. Tudo isso foi ridculo! - terminou Alfred
com invulgar calor.
  Craddock ficou calado por alguns momentos. AIfred, de sbito, olhou-o e perguntou, com petulnia:
  - Mas que vem a ser tudo isto? Porque querem
saber onde estive numa dada sexta-feira, h trs ou
quatro semanas?
  - Nesse caso, recorda-se de que foi a uma sexta-feira?
  - Creio que foi o senhor que mo disse.
  - Talvez sim - admitiu o inspector. - Seja como for a sexta-feira, vinte,  o dia em questo.
  - Porqu?
  - Um inqurito de rotina.
  - Isso  um disparate. Descobriu mais alguma
coisa acerca dessa mulher? De onde veio?
  - A nossa informao ainda no est completa.
  Alfred lanou-lhe um olhar perscrutador.
  - Espero que no se deixe sugestionar pela tola
teoria de Emma, segundo a qual podia tratar-se da
viva de meu irmo Edmund. Isso  um autntico disparate.
  - Essa... Martine, nunca apelou para si?
  - Para mim? No, que ideia. S por brincadeira.
  - Acha mais provvel que apelasse para seu irmo
Harold?
  - Muito mais provvel. O seu nome aparece com
frequnia nos jornais. Vive bem. No me admiraria
nada que ela tentasse abord-lo, mas no levaria nada.
Harold  to agarrado como o velhote. Emma  evidentemente o anjo bom da famlia e era a irm favorita
de Edmund. Apesar disso, Emma no  crdula. Admitiu a possibilidade de essa mulher ser uma 
imposto136  137



ra e j tinha preparado uma recepo de boas-vindas,
constituda por toda a famlia e por um advogado.
  - Foi uma medida muito sensata - apoiou Craddock. - Chegaram a marcar alguma data para tal encontro?
  - Devia ser pouco depois do Natal... o fim-de-semana do dia vinte sete... - calou-se.
  - Ah! - exclamou Craddock prazenteiramente.
- Vejo que certas datas tm um significado para si.
  - No foi marcada qualquer data certa.
  - ''Ias uando falaram acerca disso?

    q
    - No me recordo.
    - E no sabe dizer-me o que fez na sexta-feira,
    dia vinte de Dezembro?
;   - Desculpe... mas no fao a mnima ideia.
I   - Talvez as pessoas daqui ou algum amigo possa
    ajud-lo a recordar-se...
    - Talvez. Hei-de perguntar-lhes. Farei o possvel.
    Alfred parecia agora mais seguro de si prprio.
    - No sei dizer-lhe o que fiz nesse dia - disse -,
    mas posso dizer-lhe o que no fiz. No assassinei nin    gum no Long Barn.
    - Porque diz isso,''Iister Crackenthorpe?
    - Ora, vamos, meu caro inspector.0 senhor anda
    a investigar este crime, no  verdade?
    - Creio que ter de concluir isso por si prprio     redarguiu o inspector afavelmente.
    - A Polcia  to caixinhas.
    - No apenas a Polcia. Creio,11ister Crackent    horpe, que se o senhor quisesse conseguiria recordar    
-se do que fez nessa sexta-feira.  evidente que pode
'   ter as suas razes para no desejar recordar-se...
    - No me apanhar dessa maneira, inspector.
     de facto muito suspeito, muitssimo suspeito at que
    eu no consiga lembrar-me... mas  a verdade! Um
    momento... Nessa semana fui a Leeds... hospedei-me
    num hotel, perto do Town Hall... no me recordo do
    nome... mas no tero dificuldade em ach-lo. Deve
    ter sido nessa sexta-feira.

  - Verific-lo-emos - declarou o inspector impassivelmente.
  Levantou-se.
  - Lamento, Mister Crackenthorpe, que no tenha
podido ser mais cooperante!
  -  uma pouca sorte para mim! Cedric tem um
bom libi em Ibiza e Harold esteve sem dvida ocupado nos seus negcios... ao passo que eu no possuo
qualquer libi. E uma pena. Tudo isto  to tolo. J
lhe disse que no assassino pessoas. Por que diabo havia de assassinar uma mulher desconhecida? Para 
qu?
Ainda que o cadver seja o da viva de Edmund, porque havia algum de ns desejar mat-la? Se ela se
tivesse casado com Harold, durante a guerra, e subitamente tivesse reaparecido, nesse caso a situao do
meu respeitvel mano Harold seria desastrosa... bigamia e tudo o mais. Mas Edmund! Todos ns teramos
feito presso sobre o pai para que lhe desse uma mesada e enviasse o garoto para um colgio decente. O 
pai
havia de fazer uma cena, mas no poderia recusar-se a
resolver a situao. No quer beber qualquer coisa antes de se ir embora, inspector? A srio? Lamento 
muito no ter podido ser-lhe til.

  O inspector Craddock olhou para o excitado sargento:
  - Que h, Wetherall?
  - J sei quem ele , senhor inspector. Tenho andado durante todo este tempo a puxar pela memria e
de repente ocorreu-me. Esteve metido com Dicky Rogers nesse caso de conservas. Nunca conseguimos 
nenhuma prova contra ele...  muito esperto. E esteve
metido em mais umas embrulhadas do grupo de Soho.
Aquele caso dos relgios.
  Craddock compreendia agora por que motivo o
rosto de Alfred lhe parecera to familiar desde o incio
do caso. Nada daquilo fora importante... no se conseguira provar coisa alguma contra Alfred que 
apresen138 I( 139



tara sempre uma razo plausvel e inocente para justificar a sua interveno nos casos. Mas a Polcia tinha 
a
convico de que a sua inocnia no era completa.
  - Isto esclarece um pouco as coisas - disse Craddock.
  - Julga que foi ele?
  - No creio que seja um tipo capaz de assassinar.
Mas isso explica outras coisas... a razo por que no
pde apresentar um libi.
  - Sim, o caso parece estar feio para ele.
  - No, na realidade - contrariou Craddock. uma atitude inteligente... sustentar firmemente no
se lembrar. H muitas pessoas incapazes de se recordarem do que fizeram e onde estiveram uma semana
antes.  uma medida especialmente til, quando no
se quer chamar a ateno para a maneira como se passou o tempo; num interessante rendez-vous com o 
grupo de Dicky Rogers, por exemplo.
  - Nesse caso, julga que no foi ele?
  - Por ora no estou preparado para defender a
inocnia de quem quer que seja - redarguiu o inspector Craddock.
  Sentado  secretria e de sobrolho franzido, Craddock comeou a escrever:

  Assassino... um homem alto e moreno!!!
  Vitima?. . pode ter sido Martine, noiva ou viva de
Edmund Crackenthorpe.

  ou
pode ter sido Anna Stravinski. Desapareceu da circulao, nessa altura, com a idade, aspecto e vesturio 
semelhantes ao da morta. No se sabe de qualquer ligao sua
com Rutherford Hall.
  Se fosse uma primeira mulher de Harold? Bigamia!
  Se fosse amante de Harold. Chantagem?!
  Se houvesse ligao com Alfred, podia tratar-se de
chantagem. Saberia como mand-lo para a cadeia?

  Se houvesse ligao com Cedric... t-lo-ia conhecido
no estrangeiro? Paris? Baleares?

  ou

A vitima ser Anna S e dizer-se Martine.

  ou

  A vitima ser uma mulher desconhecida morta por um
assassino desconhecido?

  Craddock reflectia tristemente na situao. No se
podia fazer progressos num caso sem se conhecer o
motivo.
  Se se tratasse do assassnio do velho Mr. Crackenthorpe... O motivo no faltaria.
  Algo despontou na sua memria...
  Escreveu mais algumas palavras no bloco de notas.

Consultar o Dr. Q., acerca da doenca do Natal.
Cedric - libi.
Consultar Miss Marple acerca da ltima tagarelice.



XVI


  Quando Craddock chegou ao n.o 4 da Madison
Road encontrou Lucy Eyelesbarrow com Miss Marple.
  Hesitou um momento antes de expor o seu plano
de campanha e acabou por decidir que Lucy Eyelesbarrow poderia ser um bom aliado.
  Depois da troca de cumprimentos, Craddock tirou
solenemente a carteira da algibeira, extraiu dela trs
xelins e pousou-os sobre a mesa.
  - Que  isso, inspector?
  - Os seus honorrios pela consulta. Venho consult-la... sobre assassnio! Pulso, temperatura, reaces

140  141



locais, possvel causa remota do crime, etc. Sou apenas
o pobre investigador local vexado.
  l'Iiss Marple olhou-o e piscou o olho. Craddock
sorriu-lhes. Lucy Eyelesbarrow sufocou uma exclamao e depois riu-se.
  - Ora, inspector Craddock, no fim de contas, o
senhor  humano.
  - Esta tarde, no me encontro estritamente em
servio.
  - J lhe tinha dito que nos conhecamos - disse
Miss Marple a Lucy. -  afilhado de Sir Henry Clithering... um amigo meu, muito ntimo.
  - Quer que lhe conte, Miss Eyelesbarrow, o que
meu padrinho disse a respeito dela, quando nos conhemos? Descreveu-a como sendo a melhor detective
que Deus deitou ao mundo. Aconselhou-me a nunca
desprezar as... - Dermot Craddock fez uma curta
pausa para procurar o termo apropriado - .. hum...
senhoras de idade. Dizia que estas eram capazes de
imaginar o que podia ter acontecido, o que devia ter
acontecido e at o que de facto acontecera! E que
eram ainda capazes de dizer porque acontecera.
  Miss Marple estava corada e confusa.
  - Querido Sir Henry - murmurou -, sempre
to gentil. Na realidade no sou inteligente, mas tenho
talvez um leve conhecimento da natureza humana...
Como sabe, vivo numa aldeia... - e acrescentou com
mais firmeza. -  evidente que me encontro um pouco desfavorecida por no me achar no prprio local.
Acho que  sempre de muita ajuda uma pessoa recordar-nos outra... porque em toda a parte h tipos 
semelhantes e isso  um guia de grande valor.
  Lucy pareceu no a compreender muito bem, mas
Craddock meneou aprovativamente a cabea.
  - Mas foi l lanhar, no  verdade?
  - Sim. Gostei muito. Fiquei um pouco desapontada por no ter visto o velho Mister Crackenthorpe...
mas no se pode ter tudo.

  - Acha que, se tivesse visto a pessoa que cometeu
o crime, teria sabido que era ela? - perguntou Lucy.
  - Oh, no digo isso, querida. Tem-se sempre tendnia para fazer suposies... e, por vezes, em casos
graves como um crime srio, essas suposies podem
ser perigosas. Tudo quanto se pode fazer  observar as
pessoas em causa... Ou que podem estar em causa... e
ver quem nos recordam.
  - Como Cedric e o director do banco?
  Miss Marple corrigiu:
  - O filho do director do banco, querida. Mister Eade, esse era muito mais parecido com Mister Harold...
um homem muito observador... mas dando talvez um
exagerado apreco ao dinheiro... o gnero de homem
tambm capaz de tudo para evitar o escndalo.
  Craddock sorriu e perguntou:
  - E Alfred?
  - Um aldrabo - replicou com prontido Miss Marple. - Sei que Ravmond deixou de trabalhar com ele por
causa disso. Quanto a Emma - prosseguiu Miss Marple
pensativamente - recorda-me muito Geraldine Webb;
sempre muito calma, quase insignificante... e muito
dominada pela velha me. Por morte desta herdou
uma bonita soma de dinheiro e, com grande surpresa
de toda a gente, cortou o cabelo, fez uma permanente,
partiu num cruzeiro e regressou casada com um simptico advogado. Tiveram dois filhos.
  O paralelo era claro. Lucy perguntou um pouco
embaraada:
  - Acha bem ter dito o que disse acerca da possibilidade de Emma casar? Pareceu-me que isso 
desagradou um pouco aos irmos.
  Miss Marple meneou afirmativamente a cabea.
  - Sim. Como muitos homens... so incapazes de
ver o que se passa  sua frente. Julgo que voc tambm ainda no tinha reparado.

142 143



  - Pois no - admitiu Lucy. - Nunca pensei nisso. Ambos me pareciam...
  - Muitos velhos? - interrompeu Miss Marple,
com um leve sorriso. - Mas o doutor Quimper pouco
mais conta do que quarenta anos, embora j tenha as
tmporas grisalhas e seja bvio que anseie por ter um
lar; e Emma Crackenthorpe tem menos de quarenta
anos... est ainda em muito boa idade de casar e de
constituir famlia. Segundo me disseram, a mulher
do mdico morreu muito nova, de parto.
  - Creio que sim. Emma disse qualquer coisa a esse respeito, no outro dia.
  - Deve sentir-se s - continuou Miss Marple.Um mdico cheio de trabalho precisa de uma esposa...
de uma pessoa que o compreenda... no muito nova.
  - Oia, querida - observou Lucy. - Estamos a
investigar um crime ou a tratar de casamentos?
  Miss Marple piscou o olho.
  - Creio que sou um pouco romntica. Talvez por
ser uma solteirona. Sabe, minha filha, pela parte que
me diz respeito, o seu contrato est terminado. Se na
verdade quer ir passar umas frias no estrangeiro, antes de aceitar um novo contrato, ainda tem tempo para
uma breve viagem.
  - E deixar Rutherford Hall? Nunca! Agora tornei-me num verdadeiro mastim! Quase tanto como os
rapazes. Passam todo o tempo  procura de pistas.
Ontem examinaram os recipientes do lixo. Uma coisa
muitssimo desagradvel... e, na realidade, no faziam
a mnima ideia do que andavam a procurar. Se fossem
ter consigo triunfantemente, inspector Craddock, arvorando um bocado de papel dizendo: Martine, se tem
apreco  vida afaste-se de Long Barn! J sabe que tive
pena deles e escondi isso no curral dos porcos!
  - Porqu nesse stio, querida? - perguntou Miss
Marple interessada. - Tem l porcos.
  - No, no. Mas... s vezes vou l.
  Por qualquer razo, Lucy corou e Miss Marple
olhou-a com redobrado interesse.

  - Quem est agora l em casa? - perguntou
Craddock.
  - Cedric e tambm Bryan, a passarem o fim-de-semana. Harold e Alfred telefonaram hoje a dizer que
vm amanh. Tenho a impresso de que o senhor, inspector, os alarmou.
  Craddock sorriu.
  - Sacudi-os um pouco. Pedi-lhes que me contassem o que tinham feito na sexta-feita, dia vinte de 
Dezembro.
  - E lembravam-se?
  - Harold, sim. Mas Alfred no... ou no quis dizer-mo.
  - Creio que os libis devem ser terrivelmente difceis de arranjar - disse Lucy. - Horas, lugares e datas. 
Devem tambm ser difceis de provar.
  - Isso requer tempo e pacinia... mas conseguimo-lo. - Consultou o relgio de pulso. - Tenho de
ir daqui a pouco a Rutherford Hall falar com Cedric,
mas, em primeiro lugar, quero encontrar o doutor
Quimper.
  - Deve apanh-lo na boa hora. Deve estar a acabar a consulta. Tenho de regressar para preparar o
jantar.
  - Gostaria que me desse a sua opinio sobre uma
coisa, Miss Eyelesbarrow. Qual  a opinio da famlia
acerca do caso dessa Martine?
  Lucv replicou prontamente:
  - Esto todos furiosos com Emma, por ela ter ido
falar-lhe nisso... e tambm com o doutor Quimper,
por este a ter encorajado a faz-lo. Harold e Alfred esto convencidos de que foi uma tentativa de burla,
mas Emma no tem a certeza. Cedric tambm acha o
caso estranho, mas no o toma tanto a srio como os
outros dois. Por outro lado, Bryan parece absolutamente certo de que  um caso genuno.
  - Porqu?
  - Bem, Bryan  assim. Aceita as coisas tais quais

144 145



elas se apresentam. Pensa que era mulher de Edmund,
ou antes, viva, e que teve de sbito de regressar a
Frana, mas que voltar a dar notcias. O facto de ela
no ter escrito a dar, ou ter dado, qualquer sinal, parece-lhe muito natural porque ele nunca escreve. Bryan
 muito meigo. Parece um co que quer que o levem a
passear.
  - E a minha filha leva-o a passear? - perguntou
Miss Marple. - Talvez para o curral dos porcos?
  Lucv olhou-a com vivacidade.
  - H tantos gentlemen nessa casa, a entrarem e a
sarem.
  Quando Miss Marple proferia a palavra gentlemen
dava-lhe todo o seu sabor vitoriano. Tomava-se logo
conscinia de homens arrojados, talvez com patilhas,
por vezes perversos, mas sempre galanteadores.
  - Voc  uma rapariga to engraada - proferiu
Miss Marple. - Calculo que a cumulem de atenes,
no  verdade?
  Lucv corou levemente. Certas imagens perpassaram-lhe pelo esprito: Cedric apoiado ao muro do curral; 
Bryan sentado tristemente na mesa da cozinha; os
dedos de Alfred encontrando-se com o seus, enquanto
a ajudava a levantar as chvenas do caf.
  - Os geratlemen - prosseguiu Miss Marple, no
tom de uma pessoa que falasse de uma espcie perigosa e estranha - so todos muito parecidos, sob 
certos
aspectos... ainda que sejam muitos velhos...
  - H cem anos atrs seria queimada como bruxa!
- exclamou Lucv.
  E contou-lhe a proposta de casamento que lhe fizera o velho Mr. Crackenthorpe.
  - De facto, todos eles procuram seduzir-me sob
certo aspecto. Harold foi muito correcto... ofereceu-me uma boa situao financeira na Citv. No suponho
que isso se deva  minha atractiva pessoa... Devem
pensar que sei alguma coisa.
  Riu-se, mas o inspector Craddock no a imitou.

  - Tenha cuidado - recomendou. - Podem mat-la, em vez de tentar seduzi-la.
  - Acho que isso seja mais fcil - concordou Lucv_.
  Depois estremeceu.
  - Acabamos por nos esquecer do caso. Os pequenos tm andado to divertidos que quase se pensa no
assunto como numa brincadeira. Mas no  uma brincadeira.
  - Pois no - concordou Miss Marple. - O crime no  uma brincadeira.
  Ficou calada por alguns momentos e depois perguntou:
  - Os pequenos no voltaro em breve para o colgio?
  - Sim, na prxima semana. Vo amanh para casa
de James Stoddard-West, onde passaro o resto das frias.
  - Ainda bem - declarou Miss Marple com ar
grave. - No me agradaria que acontecesse alguma
coisa enquanto estivessem aqui.
  - Refere-se ao velho Mister Crackenthorpe. Julga
que ele seja a prxima vtima?
  - No - respondeu Miss Marple. - Esse no me
d cuidado. Referia-me aos pequenos.
  - Aos pequenos?
  - Bem, a Alexander.
  - l'Ias com certeza...
  - Sabe, andam por todos os lados...  procura de
pistas. Os rapazes gostam desse gnero de coisas...
mas pode ser muito perigoso.
  Craddock olhou-a pensativamente.
  - No acredita, Miss Marple, que se trate do caso
de uma mulher desconhecida assassinada por um homem desconhecido, pois no? Relaciona o caso com
Rutherford Hall, no  verdade?
  - Sim, acho que existe uma relao definitiva.
  - Tudo quanto sabemos a respeito do assassino 
que  um homem alto e moreno. Foi a nica coisa que

146 147



a sua amiga pde dizer. Em Rutherford Hall h trs
homens altos e morenos. No dia do inqurito oficial,
ao sair, vi os trs irmos parados no passeio,  espera
do carro. Estavam virados de costas para mim e achei
espantoso como, nos seus pesados sobretudos, se assemelhavam tanto entre si. Trs homens altos e 
morenos.
E, todavia, na realidade, so trs tipos completamente
diferentes.
  - Tenho estado a pensar... - murmurou Miss Marple -, tenho estado a pensar se, no fim de contas, o caso 
no  mais simples do que supomos. Os assassnios
so muitas vezes simples... e tm um motivo bvio,
um pouco srdido...
  - Acredita na misteriosa Martine, Miss Marple?
  - No me custa nada a acreditar que Edmund
Crackenthorpe tivesse casado ou tencionado casar com
uma rapariga chamada Martine. Emma Crackenthorpe
mostrou-lhe a carta de Edmund, no  verdade? Pelo
que conheco de Emma e pelo que Lucy me conta,
acho-a absolutamente incapaz de inventar uma coisa
dessa natureza... na verdade para que havia de faz-lo?
  - Por conseguinte, acreditando na veracidade de
Martine - concluiu Craddock, com um ar pensativo
- existe um motivo. O aparecimento de Martine com
um filho desferiria um golpe na herana de Crackenthorpe... embora no o bastante para decidir o crime.
Todos eles esto muito necessitados de dinheiro...
  - Harold tambm? - perguntou Lucy, incredulamente.
  - At Harold Crackenthorpe, com a sua aparnia
de prosperidade, no  o financeiro calmo e conservador que aparenta. Arriscou-se muito em aventuras 
indesejveis. Ora uma boa soma de dinheiro, recebida a
tempo, pode muitas vezes evitar um desastre.
  - Mas se assim... - comeou Lucy, e calou-se.
  - Continue, Miss Evelesbarrow... - pediu Craddock.

  - Compreendo-a, minha filha - disse Miss Marple. - Quer dizer que a pessoa assassinada no era a
indicada, nesse caso.
  - Sim. A morte de Martine no traria vantagem
a Harold... ou a qualquer dos outros... antes de...
  - Antes de Luther Crackenthorpe morrer. Exactamente. Isso j me ocorreu tambm. Mas, segundo j
o mdico me disse, a sade de Mister Crackenthorpe 
muito melhor do que se julga.
  - Viver ainda muitos anos - opinou Lucy. Depois franziu o sobrolho.
  - Que h? - perguntou Craddock encorajadoramente.
  - Por altura do Natal esteve bastante doentedisse Lucy. - Disse que o mdico fez um bicho-de-sete-
cabeas por causa disso. Quem o ouvisse havia
de ter pensado que me tinham envenenado. Foram
estas as palavras dele.
  Olhou inquiridoramente para Craddock.
  - Sim. Na verdade,  a esse respeito que quero
falar com o doutor Quimper.
  - Bem, tenho de ir-me embora - declarou Lucy.
- Valha-me Deus, j  to tarde.
  Miss Marple pousou o tric e pegou no The Times,
aberto no passatempo das palavras cruzadas.
  - Quem me dera aqui um dicionrio - murmurou. - Tontina e Tokay... Confundo sempre estas
duas palavras. Creio que uma delas  um vinho hngaro.
  - Essa  Tokay - disse Lucy, olhando para trs,
j  porta. - Mas uma delas tem cinco letras e a outra
tem sete.
  - Oh, no vm nas palavras cruzadas - explicou
Miss Marple de um modo vago. - Era c uma ideia
minha.
  O inspector Craddock olhou-a com ateno.
  Depois despediu-se e saiu tambm.

148 jj 149



XVII


  Craddock teve de esperar alguns minutos, at que
Quimper acabasse a consulta.
  O mdico parecia cansado e abatido.
  Ofereceu uma bebida a Craddock e, como este a
aceitasse, preparou tambm uma para si.
  - Pobres diabos - comentou, sentando-se numa
poltrona. - Muito nervosos, muito estpidos... Tolice. Tive hoje um caso triste. O de uma mulher que
devia ter sido operada h um ano. Se nessa altura me
tivesse procurado, a operao poderia ter resultado.
Agora  demasiado tarde. Sinto-me transtornado com
isso. A verdade  que as pessoas so um misto extraordinrio de herosmo e de cobardia. Tinha dores 
horrveis, mas suportava-as sem se queixar, s porque tinha
medo de c vir e de descobrir ser verdade o que receava. Mas diga-me, inspector, porque veio procurar-me?
  - Em primeiro lugar, creio dever-lhe os meus
agradecimentos por ter aconselhado Miss Crackenthorpe a levar-me aquela carta que se supunha ser da
viva do irmo.
  - Ah, sim? Bem, no a aconselhei exactamente a
ir procur-lo. Ela queria faz-lo, sentia-se preocupada,
mas hesitava porque, claro est, todos os seus queridos
irmos tentavam dissuadi-la de o fazer.
  - Porqu?
  O mdico encolheu os ombros.
  - Suponho que receavam que essa senhora fosse
de facto o que dizia ser.
  - Julga que a carta fosse autntica?
  - No fao ideia. Nem sequer cheguei a v-la.
Mas talvez se tratasse de uma pessoa que conhecesse
os factos e estivesse apenas a fazer uma experinia, na
esperana de explorar os sentimentos de Emma. Mas
nisso enganaram-se por completo. Emma nada tem de
tola. No daria lugar no seu corao a uma cunhada

desconhecida sem fazer, em primeiro lugar, algumas
perguntas prticas.
  E acrescentou com curiosidade:
  - Mas porque quer saber a minha opinio? Nada
tenho a ver com o assunto.
  - Na realidade, vim c para perguntar-lhe uma
coisa muito diferente... mas no sei bem como faz-lo.
  O Dr. Quimper mostrou-se interessado.
  - Creio que no h muito tempo... julgo que foi
por altura do Natal... Mister Crackenthorpe adoeceu
gravemente.
  Notou logo uma mudana na expresso do mdico,
que se tornou mais dura.

  - Sim.
  - Suponho que se tratou de uma perturbao gstrica qualquer?

  - Sim.
  - Isso  difcil de... Mister Crackenthorpe est
sempre a vangloriar-se da sua sade, dizendo que tenciona sobreviver  maior parte da famlia. Referiu-se a
si... desculpe-me, doutor...
  - Oh, no se preocupe por minha causa. No me
magoo com o que os meus doentes dizem de mim!
  - Falou de si como se o senhor tivesse feito um
bicho-de-sete-cabeas. - Quimper sorriu. - Disse
que o senhor lhe tinha feito todo o gnero de perguntas, para saber o que ele comera, o nome da pessoa
que cozinhara a refeio e a servira.
  O mdico j no sorria. O seu rosto estava de novo
com uma expresso dura.
  - Continue.
  - Empregou uma frase como... falou como se
julgasse que me tinham envenenado.
  Fez-se uma pausa.
  - Teve... algumas suspeitas desse gnero?
  Quimper no respondeu logo. Levantou-se e comecou a passear de um lado para o outro. Por fim, virou-se 
para Craddock.

150 / 151



  - Que diabo espera que eu lhe diga? Julga que
um mdico pode formular acusaes de envenenamento, a torto e a direito, sem ter uma prova do que
afirma?
  - Gostaria apenas de saber, sem carcter oficial,
se... essa ideia... lhe passou pela cabea?
  O Dr. Quimper redarguiu de maneira evasiva:
  - Mister Crackenthorpe leva uma vida muito frugal. Quando a famlia se rene,  Emma quem prepara
as refeies. Resultado... um aborrecido ataque de
gastrenterite. Os sintomas indicavam esse diagnstico.
  Craddock persistiu:
  - Compreendo. Ficou plenamente convencido?
No se sentiu... como hei-de dizer... intrigado?
  - Est bem, est bem. Sim, fiquei na verdade intrigado! Est satisfeito?
  - Interessa-me sab-lo - redarguiu Craddock.Na realidade, de que suspeitou... ou que receou?
  - Os casos gstricos variam, claro, mas havia certos indcios mais indicativos de envenenamento por 
arsnico do que uma simples gastrenterite. Note que as
duas coisas so muito semelhantes. Mdicos de categoria maior do que a minha no reconheceram um 
envenenamento por arsnico... e passaram uma certido de
bito, com toda a boa-f.
  - E qual foi o resultado do seu inqurito?
  - Pareceu que aquilo que eu suspeitava no podia
ser verdade. Mister Crackenthorpe garantiu-me que tivera ataques semelhantes antes de eu o assistir... e
com origem na mesma causa, segundo disse. Todos
eles se haviam verificado em ocasies de refeies mais
lautas.
  - E isso foi em alturas em que a casa estava cheia
de gente? Famlia ou visitas?
  - Sim. Isso pareceu-me razovel, mas, sinceramente, Craddock, no me senti satisfeito. Cheguei a
escrever ao velho doutor Morris. Foi meu colega e reformou-se pouco depois de eu trabalhar com ele. 
Crackenthorpe tinha sido seu doente e interroguei-o acerca
desses ataques que o velho tivera.
  - E que resposta obteve?
  Quimper sorriu.
  - Recebi uma descompostura. Aconselhou-me
mais ou menos a no ser louco. - Encolheu os ombros. - Presumivelmente, fui de facto um rematado
louco.
  - Talvez - admitiu Craddock, pensativo.
  Depois resolveu-se a falar francamente.
  - Pondo de parte a discrio, doutor, h duas partes que devem beneficiar consideravelmente com a
morte de Luther Crackenthorpe. - O mdico meneou a cabea em sinal de concordnia. -  um velho... 
mas so e robusto.  possvel que chegue aos
noventa e tal anos, no  verdade?
  - Muito facilmente. Tem muito cuidado consigo e
tem uma boa constituio.
  - E os filhos... e a filha... vo vivendo, com muitas dificuldades, no  verdade?
  - No inclua Emma. Essa no  envenenadora nenhuma. Esses ataques apenas se verificam quando os
outros c esto... e no quando ela e o pai esto sozinhos.
  O que  uma precauo elementar... se for ela a
culpada, pensou o inspector, tendo, porm, o cuidado de no o dizer.
  Fez uma pausa, escolhendo com cuidado as palavras.
  - Seguramente que... nestes assuntos sou leigo...
mas admitindo a hiptese de haver sido ministrado arsnico na comida... no acha que Crackenthorpe teve
muita sorte em no sucumbir?
  - Ora isso  que  estranho - replicou o mdico.
- E  precisamente esse facto que me leva a acreditar,
tal como o velho Morris diz, que fui um rematado tolo. Bem v,  bvio que no se trata de um caso de 
pequenas doses de arsnico ministradas com regularidade... que  o que se pode chamar o mtodo 
clssico de

152  153



envenenamento por arsnico. Crackenthorpe nunca sofreu de qualquer perturbao gstrica. De certo 
modo,
 isso o que faz parecer estranhos esses sbitos e violentos ataques. Por conseguinte, admitindo que no 
se
devem a causas naturais, parece que o envenenador
tem sido pouco hbil, de todas as vezes... o que no
parece muito lgico.
  - Quer dizer que ministrou uma dose insuficiente?
  - Sim. Por outro lado, Crackenthorpe tem uma
forte constituio fsica e o que poderia resultar noutro
homem, no resultou nele. H sempre que atender a
uma idiossincrasia pessoal. Somos levados a pensar
que o envenenador, a menos que seja extraordinariamente tmido, devia ter aumentado a dose. Porque
no o teria feito? Isto  - acrescentou -, se existe de
facto um envenenador, o que provavelmente no acontece.
  -  um problema estranho - concordou o inspector. - No parece fazer sentido.

  - Inspector Craddock!
  Ao ouvir que o chamavam em voz baixa e ansiosa,
o inspector sobressaltou-se.
  Ia precisamente nesse momento tocar  porta.
  Alexander e o seu colega Stoddard-West emergiram, cautelosamente, das sombras.
  - Ouvimos o seu carro e queramos falar consigo.
  - Ento, entremos - disse Craddock, voltando a
estender a mo para a campainha, mas Alexander puxou-lhe pelo casaco com a vivacidade de um co 
impaciente.
  - Encontrmos uma pista - murmurou.
  - Sim, encontrmos uma pista - confirmou
Stoddard-West.
  Diabo de rapariga!, pensou Craddock.
  - Esplndido! - proferiu negligentemente.Entremos e vejamo-la.

  - No - insistiu Alexander. - Ho-de interromper-nos. Venha connosco ao quarto das arrecadaes.
  Com um pouco de m vontade, Craddock contornou com eles a casa e atravessou o ptio do estbulo.
Stoddard-West abriu uma pesada porta, esticou-se e
acendeu uma luz elctrica de fraca intensidade.
  Aquele quarto servia de depsito a tudo que ningum queria. Cadeiras de jardim partidas, velhas 
ferramentas enferrujadas, uma grande e velha segadora-mecnica, colches de arame, canaps e redes de 
tnis
rotas.
  - Vimos muitas vezes para aqui - revelou Alexander. -  um stio onde podemos estar  vontade.
  - E realmente uma pista, senhor - afiancou
Stoddard-West, com excitao, os olhos rebrilhando
por trs dos culos. - Encontrmo-la esta tarde.
  - Temos andado  procura todos estes dias. Nos
arbustos...
  - Dentro dos troncos de rvores ocos...
  - E revistmos os recipientes das cinzas...
  - Por acaso havia l coisas muito interessantes...
  - E depois fomos  casa da caldeira...
  - O velho Hillman tem a um enorme carro galvanizado, cheio de desperdcios de papel...
  - Porque, quando a caldeira se apaga e ele quer
voltar a acend-la...
  - Qualquer pedaco de papel que ande por a a
voar, agarra-o e mete-o l dentro...
  - E foi a que ns a encontrmos...
  - Encontraram o qu? - perguntou Craddock,
interrompendo o dueto.
  - A pista. Cuidado, Stoddard, cala as luvas.
  Cheio de importnia, Stoddard-West, seguindo a
tradio do melhor romance detectivesco, calcou um
par de luvas bastante sujas e tirou da algibeira uma
carteira fotogrfica Kodak. Desta retirou com os dedos
enluvados e com o maior cuidado um sobrescrito sujo
e amarrotado que estendeu, cheio de importnia, ao
inspector.

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  Ambos os rapazes sustiveram a respirao, naquele
momento de expectativa.
  Craddock pegou-lhe com a devida solenidade. Gostava dos garotos e estava disposto a entrar no esprito
da coisa.
  Tratava-se apenas de um sobrescrito rasgado e com
o carimbo do correio... dirigido a Mrs. Martine Crackenthorpe, 126 Elvers Crescent, n." 10.
  - Est a compreender? - perguntou Alexander
excitadamente. - Isso mostra que ela esteve c... quero dizer a mulher francesa do tio Edmund... aquela
que motivou toda esta confuso. Deve ter estado aqui,
de facto, e ter deixado cair o sobrescrito em qualquer
lado. No acha?
  Stoddard-West interveio:
  - Isto faz pensar que foi ela que assassinaram...
isto , devia ser ela quem estava no sarcfago, no
acha, senhor?
  Esperavam com ansiedade uma resposta.
  -  possvel, muito possvel - admitiu Craddock.
  - Isto  importante, no acha?
  - Vai mandar procurar impresses digitais, no 
verdade?
  - Com certeza - assegurou Craddock.
  Stoddard-West soltou um profundo suspiro.
  - Tivemos uma sorte formidvel, no acha? Foi
no nosso ltimo dia.
  - Ultimo dia?
  - Sim. Parto amanh para casa dos Stoddard, onde passaremos os pouco dias que faltam para as frias
acabarem. A casa dos Stoddard  formidvel... Queen
Anne, no ?
  - William e Mary - corrigiu Stoddard-West.
  - Julguei que a tua me tinha dito...
  - A me  francesa. No sabe grande coisa de arquitectura inglesa.
  - Mas teu pai disse que foi construda...

  Craddock examinava o sobrescrito.
  Lucy Eyelesbarrow era inteligente. Como conseguira falsificar o carimbo do correio? Examinou-o mais
de perto, mas no tinha luz suficiente.
  A seu lado prosseguiu uma acalorada discusso sobre arquitectura. Sem lhe dar ateno, disse:
  - Agora vamos para casa. Foram muito teis.



XVIII


  Craddock entrou em Rutherford Hall pelas traseiras e escoltado pelos dois garotos. Parecia ser essa a
entrada de que em regra se serviam. A cozinha era
arejada e alegre. Lucy, de enorme avental branco, tendia uma massa com o rolo. Encostado ao guarda-
louas
e observando-a com uma espcie de ateno canina,
achava-se Bryan Eastley.
  - Viva, pai - saudou Alexander. - Aqui outra
vez?
  - Gosto de estar aqui - retorquiu Bryan, que
acrescentou: - Miss Eyelesbarrow no se importa.
  - Est claro que no me importo - disse Lucv_.
- Boa noite, inspector Craddock.
  - Vem fazer um inqurito  cozinha? - perguntou Brvan com interesse.
  - No exactamente. Mister Cedric Crackenthorpe
ainda c est, no  verdade?
  - Est sim. Quer falar com ele?
  - Sim, se faz favor.
  - Vou ver se est - ofereceu-se Bryan. - Pode
ter ido dar uma volta.
  Desencostou-se do guarda-louas.
  - Muito obrigada - disse-lhe Lucy. - Se no tivesse as mos todas sujas de farinha, eu prpria iria.
  - Que est a fazer? - perguntou Stoddard-West,
com ansiedade.

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  - Torta de pssego.
  - Que bom!
  - Falta pouco tempo para a hora do jantar?perguntou Alexander.

  - No.
  - Cos diabos! Estou cheio de fome.
  - H um resto de bolo na despensa.
  Os rapazes precipitaram-se nessa direco.
  - Os meus parabns - felicitou Craddock.
  - Porqu... exactamente?
  - Pela sua habilidade.
  - Em qu?
  Craddock indicou a carteira de papel que continha
o sobrescrito.
  - Est perfeito.
  - De que est a falar?
  - Disto, minha amiga... disto.
  Ela fitou-o sem compreender.
  De sbito, Craddock sentiu-se aturdido.
  - No foi voc que forjou isto... e o meteu no
quarto da caldeira para que os pequenos o encontrassem? Depressa... responda.
  - No fao a mnima ideia do que est a falarreplicou Lucv. - Quer dizer que...?
  Ao sentir Brvan voltar, Craddock meteu tudo apressadamente na algibeira.
  - Cedric est na biblioteca - anunciou. - Pode
l ir.
  Retomou o seu lugar, junto ao guarda-loua. O inspector Craddock dirigiu-se  biblioteca.

  Cedric Crackenthorpe pareceu encantado por ver o
inspector.
  - A fazer um pouco mais de averiguaes por
aqui? - perguntou. - Descobriu alguma coisa?
  - Creio que j adiantmos alguma coisa, Mister Crackenthorpe.
  - J descobriram quem era a mulher?

  - No temos uma identificao definitiva, mas j
fazemos uma ideia.
  - Ainda bem.
  - Em consequnia de uma ltima informao
recebida, desejamos obter algumas declaraes. Vou
comear por si, Mister Crackenthorpe, dado que se
encontra aqui.
  - No ser por muito tempo. Devo partir para
Ibiza dentro de um dia ou dois.
  - Nesse caso, parece que fiz bem em ter c vindo
hoje.
  - Diga o que tem a dizer.
  - Gostaria que me fizesse um relato pormenorizado do modo como passou a sexta-feira, vinte de 
Dezembro ltimo.
  Cedric lanou-lhe um rpido olhar. Depois encostou-se s espaldas da poltrona, bocejou, assumiu um
ar de grande despreocupao e fingiu perder-se num
esforco de memria.
  - Bem, como j lhe disse, estava em Ibiza. O pior
 que nessa terra os dias so todos iguais. De manh
pinto e das trs para as cinco da tarde fao a sesta. Por
vezes, quando h boa luz, fao um esboco. Depois tomo um aperitivo, umas vezes com o presidente da 
Cmara, outras com o mdico, no caf Piazza. Depois
disso, uma refeio ligeira. Passo a maior parte da noite no Scotty's Bar com uns meus amigos de classe 
baixa. Est satisfeito?
  - Prefiro a verdade, Mister Crackenthorpe.
  - Essa observao  muitssimo ofensiva, inspector.
  - Acha isso? O senhor, Mister Crackenthorpe,
tinha-me dito que partiu de Ibiza, no dia vinte e um
de Dezembro, e que chegou a Inglaterra nesse mesmo dia.
  - Exactamente. E ento?
  Emma Crackenthorpe entrou na biblioteca e olhou
inquiridoramente para o irmo e para Craddock.

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  - Ouve c, Em. Por ocasio do Natal... cheguei
c no sbado anterior, no foi? Vim directamente do
aeroporto?
  - Sim - respondeu Emma surpreendida. - Chegaste c por volta da hora do almoo.
  - A tem - disse Cedric ao inspector.
  - Considera-nos certamente muito idiotas, Mister Crackenthorpe - observou Craddock, amenamente. - 
Podemos verificar o que disse. Creio que se me
mostrar o seu passaporte...
  Calou-se, numa expectativa.
  - No consigo encontrar essa maldita coisa. Ainda esta manh andei  procura dele. Queria mand-lo
 Cook.
  - Penso que o encontrou, Mister Crackenthorpe,
mas na realidade, no  necessrio. Os registos provam
que o senhor entrou de facto neste pas na noite de dezanove de Dezembro. Talvez agora queira contar-me
os seus movimentos, desde essa altura at  hora do almoco do dia vinte e um de Dezembro, hora essa a 
que
chegou aqui.
  Cedric pareceu deveras aborrecido.
  - A vida, hoje em dia,  insuportvel - queixou-se encolerizado. - Todos esses formalismos oficiais e
preenchimentos de impressos.  o que se ganha com
a burocracia. J uma pessoa no pode andar por onde
lhe apetece! Ho-de acabar sempre por fazer-nos perguntas. Por que razo h toda esta fita por causa do
dia vinte? Que houve de especial no dia vinte?
  - Julgamos que o crime tenha sido cometido nesse dia.  evidente que pode recusar-se a responder-nos, 
mas...
  - Quem lhe disse que me recuso a responder?
D-me tempo para o fazer. Por ocasio do inqurito,
mostrou-se muito vago, quanto  data do crime. Que
descobriram desde ento?
  Craddock no replicou.
  Cedric perguntou, olhando de soslaio para Emma:

160

  - Podemos ir para outro quarto?
  Emma apressou-se a responder:
  - Eu vou-me embora.
  A porta, parou e voltou-se:
  - Isto  srio, Cedric. Se o dia vinte foi o dia do
crime, tens de contar, exactamente, ao inspector Craddock, o que fizeste nesse dia.
  Saiu, fechando a porta atrs de si.
  - Voltemos ao assunto - comeou Cedric.Parti, na verdade, de Ibiza, no dia dezanove. Tencionava fazer 
uma paragem em Paris e passar dois dias a
visitar uns amigos meus que vivem em Frana. Mas
a verdade  que nesse avio seguia uma mulher muito
interessante... Uma verdadeira beldade! Regressava
aos Estados Unidos e tinha de passar duas noites em
Londres para tratar duns assuntos. Chegmos a Londres no dia dezanove e instalmo-nos no Kings Way
Palace se  que os seus espies ainda no descobriram
isto! Registei-me com o nome de John Brown... nunca
 bom dar-se o verdadeiro nome, nestas ocasies.
  - E no dia vinte?
  Cedric fez uma careta.
  - Passei toda a manh com uma enxaqueca horrvel.
  - E a tarde, das trs em diante?
  - Ora, deixe-me ver. Andei a vaguear de um lado
para o outro, como se costuma dizer. Visitei a National Gallery... Vi um filme... Depois bebi qualquer
coisa num bar, fui para o meu quarto e, por volta das
dez horas, sa com a minha amiga e andmos por vrios danings... No me recordo dos nomes, mas ela
conhecia-os a todos. Apanhou uma boa bebedeira e,
para dizer-lhe a verdade, de pouco mais me lembro,
at que acordei na manh seguinte... com uma enxaqueca ainda pior do que a da vspera. A minha amiga
foi apanhar o avio e eu, depois de despejar gua fria
pela cabea abaixo e de ter pedido ao farmacutico
uma mistela horrvel, vim para aqui, fingindo ter che161



gado directamente de Ibiza. Achei que no havia necessidade de ralar Emma. Bem sabe como as mulheres
so... Ficam sempre magoadas, se no vamos em linha
recta para casa. Tive de pedir-lhe dinheiro emprestado, para pagar o txi. Estava completamente nas 
lonas. No serviria de nada pedi-lo ao velhote. Nunca
d nada.  terrivelmente sovina. Est satisfeito, inspector?
  - Pode provar alguma coisa do que disse, Mister Crackenthorpe? Digamos, entre as trs horas e as
sete horas da tarde?
  - Acho muito improvvel. Na National Gallery os
empregados olham-nos com indiferenca, alm de que
havia l muita gente. No, no me parece provvel.
  Emma voltou. Segurava na mo uma pequena
agenda.
  - Quer saber o que cada um de ns fez no dia
vinte de Dezembro, no  verdade, inspector Craddock?
  - Hum... sim, Miss Crackenthorpe.
  - Acabo de consultar a minha agenda. No dia
vinte fui a Brackhampton tomar parte numa reunio
da Restaurao dos Fundos Paroquiais. Essa reunio
acabou cerca da uma hora menos um quarto; almoei
no Caf Cadena com Lady Adington e Miss Bartlett
que tambm haviam ido  reunio. Depois do almoo
fiz umas compras para o Natal, no Lyall, no Swift's,
no Boot's e provavelmente em vrias outras lojas. Lanchei, por volta das cinco menos um quarto, no salo
de ch Shamrock e depois fui para a estao, encontrar-me com Bryan, que vinha de comboio. Cheguei a
casa por volta das seis horas, e vim encontrar o pai
muito maldisposto. Tinha-lhe deixado o almoo pronto, mas Mistress Hart, que devia c vir de tarde e dar-
lhe o ch, no tinha vindo. Estava to zangado que se
fechou no quarto e no me deixou entrar, nem quis falar comigo. No gosta que eu saia  tarde, mas, por
princpio, de vez em quando, fao-o.

  - Provavelmente tem razo. Obrigado, Miss Crackenthorpe.
  No lhe podia dizer que, em virtude de ser mulher, os seus movimentos nessa tarde no tinham 
importnia. Em vez disso, observou:
  - Os seus outros irmos, chegaram mais tarde,
no  verdade?
  - Alfred chegou j ao fim da noite de sbado.
Disse que tentou falar comigo ao telefone na tarde em
que sa... mas meu pai, se est maldisposto,  incapaz
de atender o telefone. Meu irmo Harold s chegou na
vspera do dia de Natal.
  - Obrigado, Miss Crackenthorpe.
  - Suponho que no devo perguntar... - hesitou
- o que originou este interrogatrio?
  Craddock tirou a carteira da algibeira. Servindo-se
apenas da ponta dos dedos, extraiu dela o sobrescrito.
  - No lhe toque, por favor, mas diga-me se o reconhece.
  - Mas... - Emma fitou-o, espantada. - Essa letra  minha. Foi a carta que escrevi a Martine.
  - Foi o que eu calculei.
  - Mas como  que o tem? Foi ela...? Encontrou-a?
  - Parece possvel que a tenhamos encontrado,
mas este sobrescrito vazio foi achado aqui.
  - Dentro de casa?
  - Na propriedade.
  - Nesse caso... ela esteve aqui! Ela... Quer dizer... que era Martine que estava no sarcfago?
  - Parece muito provvel, Miss Crackenthorpeadmitiu Craddock, com suavidade.
  Isso pareceu-lhe ainda mais provvel quando regressou a Londres. Esperava-o uma mensagem de Armand 
Dessin.
  Uma das amigas recebeu um postal de Anna Stravinski. Aparentemente a histria do cruzeiro era 
verdadeira!
Chegou a amaica e est a passar, tal como voc costuma
dizer, um tempo maravilhoso.

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  Craddock amachucou o papel em que a mensagem
fora escrita e lanou-o para o cesto dos papis.

  - Acho que este dia foi o mais formidvel de todos - considerou Alexander, sentado na cama e 
consumindo pensativamente um pau de chocolate.Descobrir uma verdadeira pista!
  A sua voz denotava um misto de admirao e de
receio.
  - A falar verdade, estas frias tm sido formidveis. No creio que nos torne a acontecer uma coisa
destas.
  - Espero que a mim no volte a acontecer - declarou Lucy, ajoelhada junto a uma mala, onde metia
a roupa de Alexander.
  - Pois eu preferia no me ir embora.  capaz de
aparecer outro cadver.
  - Espero sinceramente que tal no acontea.
  - Pois isso nos livros  frequente. Quero dizer,
uma pessoa que viu ou ouviu alguma coisa morre. Pode acontecer-lhe isso a si - acrescentou, preparando-
se para comer um segundo pau de chocolate.
  - Obrigada.
  - No quero que isso lhe acontea - declarou
Alexander. - Stoddard e eu gostamos muito de si.
Achamo-la uma cozinheira extraordinria. Alm disso,
 muito inteligente.
  Lucy replicou:
  - Obrigada. Mas no tenciono deixar que me matem, s para lhes ser agradvel.
  - Nesse caso, veja se tem cuidado - recomendou
Alexander. - Fez uma pausa e prosseguiu: - Se o
pai c vier de vez em quando, trate dele, sim?
  - Sim, decerto - prometeu Lucy um pouco sur-
preendida.
  - O mal est em que a v ida de Londres no  boa
para o pai - informou-a Alexander. - Sabe, anda
com um gnero de mulheres que no convm - abanou a cabea de maneira preocupada. - Aprecio-o
muito, mas acho que precisa de algum que cuide dele. Foi uma grande pena a me ter morrido. Bryan
precisa de um lar prprio.
  Olhou solenemente para Lucy e pegou noutro pau
de chocolate.
  - No coma mais, Alexander - pediu Lucy.Far-lhe- mal.
  - No far tal. Uma vez comi seis, a seguir, e no
adoeci. No sou do tipo bilioso - fez uma pausa e
prosseguiu: - Bryan gosta de si, sabe?
  - Isso  muito gentil da sua parte.
  - Sob certos aspectos  muito burro - acrescentou o filho de Bryan -, mas foi um formidvel piloto
de combate.  muitssimo corajoso. E de muito bom
feitio.
  Fez uma pausa. Depois, desviando os olhos para o
tecto, continuou:
  - Sabe, estou convencido de que lhe faria bem
tornar a casar-se... com uma pessoa honesta... Por
mim, no me importaria nada de ter uma madrasta...
contanto que, evidentemente, ela fosse uma pessoa decente...
  Com uma sensao de choque, Lucy compreendeu
que na conversa de Alexander havia uma segunda inteno.
  - Todas essas tolices acerca das madrastasprosseguiu Alexander, continuando a olhar para o tecto - 
esto na realidade fora de moda. Stoddard e eu
conhecemos muitos rapazes que tm madrastas... por
causa do divrcio dos pais e tudo isso... e do-se muito bem. Est claro que isso depende da madrasta...
fez uma pausa e continuou: - E bom termos o nosso
lar e os nossos pais... mas, se a me nos morreu...
compreende o que eu quero dizer? Se for uma pessoa
decente - repetiu Alexander pela terceira vez.
  Lucv sentiu-se comovida.
  - Acho que  muito sensato, Alexander. Temos
de arranjar uma boa esposa para seu pai.

164  165



  - Sim - respondeu Alexander, sem muita convico, e acrescentou de repente: - Achei que devia
dizer-lhe isto. Bryan gosta muito de si. Ele prprio me
disse...
  ccDe facto, pensou Lucy cch por aqui muitas pessoas casamenteiras. Primeiro, Miss Marple, e agora,
Alexander!
  Por qualquer razo, o curral dos porcos veio-lhe 
ideia.
  Levantou-se.
  - Boa noite, Alexander.
  - Boa noite - retribuiu o garoto. Deitou-se, pousou a cabea na almofada, fechou os olhos, semelhante
a um anjo adormecido, e mergulhou imediatamente no
sono.




XIX



  - No  o que se pode chamar conclusivo - comentou o sargento Wetherall com o habitual ar sombrio.
  Craddock lia o relatrio acerca do libi apresentado
por Harold Crackenthorpe para o dia 20 de Dezembro.
  Tinham-no visto no Sotheby, cerca das trs horas e
meia, mas julgava-se que sara pouco depois disso. No
salo de ch Russell no tinham reconhecido a sua fotografia, mas isso no era de surpreender, atendendo 
a
que nesse dia tinham tido a casa muito cheia, e Harold
no era um habitu. O criado confirmou o seu regresso
a casa s sete horas menos um quarto, para se vestir
para o jantar... o que fora um pouco tarde, pois aquele
estava marcado para as sete e meia. No se recordava
de t-lo ouvido entrar nessa noite, mas, como j decorrera algum tempo desde ento, no se lembrava bem

e, alm disso, era frequente no ouvir Mr. Crackenthorpe entrar. Ele e sua mulher gostavam de deitar-se o
mais cedo possvel. A garagem onde Harold guardava
o carro era uma garagem particular que ele alugara e
no havia ningum que reparasse se retirava de l
o carro ou no.
  - Tudo negativo - suspirou Craddock.
  - Foi jantar de facto no Caterer's, mas partiu bastante antes de os discursos terminarem.
  - E as estaes dos caminhos-de-ferro?
  N ada tambm. Tinham-se passado quase quatro
semanas e era muito improvvel que algum se lembrasse.
  Craddock voltou a suspirar e estendeu a mo para
pegar no relatrio acerca de Cedric. Tambm este era
negativo.
  - Aqui est o de Alfred - disse o sargento Wetherall.
  ma leve entoao diferente, na maneira como o
disse, levou Craddock a olh-lo perscrutadoramente:
Wetherall tinha a aparnia prazenteira de um homem
que guardara uma guloseima para o fim. Mas parecia
que tambm este relatrio no era de molde a satisfazer o inspector. Alfred vivia sozinho no seu 
apartamento, de onde saa e para onde entrava a horas no
determinadas. Os seus vizinhos no eram curiosos e
  ,
seja como for, eram funcionrios que estavam fora de
casa durante a maior parte do dia. l'Ias quando os
olhos de Craddock se aproximavam do fim do relat-
rio, o dedo grande de Wetherall indicou o ltimo pargrafo.
  O sargento Leakie, encarregado de um caso de
roubo de automveis, estivera em Load of Bricks,
uma estalagem para condutores de automveis na
Waddington - Brackhampton Road, de vigia a uns
certos motoristas. Vira, numa mesa prxima da sua,
Chick Evans, um dos componentes da quadrilha de
Dicky Rogers. Com ele estava Alfred Crackenthorpe,

166  167



que ele conhecia de vista, por t-lo visto testemunhar
no caso Dicky Rogers. Desconfiara daquele encontro.
Isso fora s vinte e uma horas e trinta minutos de sexta-feira, dia 20 de Dezembro. Alguns minutos depois,
Alfred Crackenthorpe metera-se num autocarro, que
seguia na direco de Brackhampton. William Baker,
empregado da estao de Brackhampton, furara o bilhete do senhor que conhecia de vista como sendo um
dos irmos de Miss Crackenthorpe, precisamente antes de o comboio das vinte e duas horas e cinquenta e
cinco minutos partir para Paddington. Recorda-se desse dia por ter sido o mesmo em que uma senhora de
idade e tonta jurara ter assistido a um assassnio num
comboio dessa tarde.
  - Alfred? - proferiu o inspector pousando o relatrio sobre a secretria. - Alfred?
  - Isto parece indigit-lo - concluiu Wetherall.
  Craddock concordou com um aceno de cabea.
Sim, Alfred podia ter viajado no comboio das quatro
horas e trinta e trs minutos para Brackhampton e cometido o crime durante a viagem. Depois, podia ter
ido de autocarro at  estalagem Load of Bricks, saindo desta s vinte e uma horas e trinta minutos, tendo
assim muito tempo para ir a Rutherford Hall, transportar o corpo, da ravina para o sarcfago, e chegar a
Brackhampton a tempo de apanhar o comboio das vinte e duas horas e cinquenta e cinco minutos para 
Londres. Um dos membros da quadrilha de Dicky Rogers
podia at t-lo ajudado a transportar o corpo, embora
Craddock duvidasse disto. Eram umas personagens indesejveis, mas no eram assassinos.
  - Alfred? - repetiu, especulativamente.

  A famlia Crackenthorpe reunira-se em Rutherford
Hall. Harold e Alfred tinham chegado de Londres e
no tardou a ouvirem-se vozes altas e irritadas.
  Por sua prpria iniciativa Lucv preparou um refresco com gelo e levou-o num jarro para a biblioteca.

168

As vozes chegavam com nitidez ao trio e indicavam
uma grande acrimnia contra Emma.
  - A culpa foi toda tua, Emma - acusou colericamente a voz grave de Harold. - Espanta-me como
pudeste ser to nscia. Se no tivesses ido com essa
carta  Scotland Yard e provocado tudo isto...
  A voz esganiada de Alfred censurou:
  - Devias estar completamente louca!
  - Agora, no a aborrecam - disse Cedric.O que est feito, feito est. Seria muito pior que tivessem 
identificado a morta como sendo Martine e ns
nunca lhes houvssemos dito uma palavra a seu respeito.
  - Tu no tens que te preocupar, Cedric - observou Harold, furioso. - No dia vinte no estavas neste
pas. Mas para Alfred e para mim a situao  muito
embaracosa. Por sorte, eu recordo-me de onde estive,
nessa tarde, e do que fiz.
  - No duvido - esclareceu Alfred. - Estou convencido de que se tivesses planeado um crime, Harold,
prepararias primeiro um cuidadoso libi.
  - Suponho que no tenhas libi - ripostou Harold, com frieza.
  - Depende. Sempre  melhor no apresentar um
libi  Polcia do que apresentar um que no presta.
So muito hbeis a descobri-lo.
  - Se ests a insinuar que matei essa mulher...
  - Oh, calem-se todos! - gritou Emma. - E evidente que nenhum de vocs matou essa mulher.
  - E j agora digo-te que eu no estava ausente de
Inglaterra no dia vinte - revelou Cedric. - E a Polcia sabe-o! Por conseguinte, somos todos suspeitos.
  - Se no tivesse sido Emma...
  - Oh, no comees outra vez, Harold - gritou
aquela.
  O Dr. Quimper saiu do escritrio, onde estivera
encerrado com o velho Mr. Crackenthorpe. O seu
olhar pousou-se no jarro que Lucy segurava na mo.
  - O que  isso? Um festejo?

169



  - Diga antes que  leo para deitar no mar encapelado. Esto numa discusso medonha.
  - A recriminarem-se?
  - Na maior parte contra Emma.
  O Dr. Quimper franziu o sobrolho.
  - Isso  verdade?
  Tirou o jarro da mo de Lucy, abriu a porta da biblioteca e entrou.
  - Boa noite.
  - Ah, doutor Quimper, preciso de falar-lhe - declarou a voz irritada de Harold. - Gostava de saber
porque interveio num assunto particular de famlia e
incitou minha irm a recorrer  Scotland Yard.
  O Dr. Quimper respondeu com serenidade:
  - Miss Crackenthorpe solicitou o meu conselho e
dei-lho. Na minha opinio, procedeu muito bem.
  - Atreve-se a dizer...
  - Pequena!
  Era o chamamento do velho Mr. Crackenthorpe.
Espreitava pela porta aberta do escritrio, mesmo por
trs de Lucy.
  Esta virou-se com certa relutnia:
  - Que deseja, Mister Crackenthorpe?
  - Que nos d hoje para jantar? Quero caril. Voc
faz um caril magnfico. H anos que no o comia.
  - Os garotos no gostam muito de caril...
  - Os garotos... os garotos. Que importam os garotos? Quem importa sou eu. E, seja como for, os
garotos j se foram embora... Foi um belo desembaraco! Quero uma boa carilada, est a ouvir?
  - Pois sim, Mister Crackenthorpe, t-la-.
  - Muito bem. Voc  boa pequena, Lucv. Cuide
de mim, que eu cuidarei de si.
  Lucv voltou para a cozinha. Pondo de parte a galinha de fricass que planeara fazer, comeou a reunir os 
ingredientes para o prato de caril. A porta da
rua bateu com estrondo e, atravs da janela, viu o
Dr. Quimper afastar-se desabridamente de casa, meter-se no seu carro e partir.

  Lucy suspirou. Sentia a falta dos rapazes e, de certo modo, sentia tambm a falta de Bryan.
  Sentou-se e comeou a cortar cogumelos.
  De qualquer modo, ia preparar uma bela refeio
para a famlia.

  Eram trs horas da manh quando o Dr. Quimper
  meteu o carro na garagem, fechou as portas desta e en  trou em casa, com ar bastante cansado. Mrs. 
Josh
  Simpkins presenteara a famlia com um saudvel par
de gmeos.
  O Dr. Quimper subira para o seu quarto e comeara a despir-se. Olhou para o relgio de pulso. Eram
agora trs horas e cinco da madrugada. A chegada daqueles gmeos a tal hora fora uma boa partida, mas 
tudo correra bem. Bocejou. Sentia-se cansado, muito
cansado. Olhou cobicosamente para a cama.
  O telefone tocou.
  O Dr. Quimper praguejou e atendeu.
  - O doutor Quimper?
  - E o prprio.
  - Fala Lucy Eyelesbarrow, de Rutherford Hall.
Acho que  melhor c vir. Parece que toda a gente
adoeceu.
  - Adoeceu? Como? Que sintomas apresentam?
  Lucy descreveu-lhos.
  - Vou imediatamente. Entretanto... - deu-lhe
umas rpidas instrues.
  Depois, tornou a vestir-se com rapidez, preparou o
estojo de emergnia e correu a meter-se no carro.

  Tinham passado umas trs horas quando o mdico
e Lucy, ambos exaustos, se sentaram  mesa da cozinha para beberem umas enormes chvenas de caf.
  O Dr. Quimper esvaziou a chvena at  ltima gota e pousou-a no pires.
  - Era do que eu precisava. Agora, Miss Eyelesbarrow, vamos esclarecer os factos.

170  171



  Lucy olhou-o. Os tracos de fadiga delineavam-se-lhe claramente no rosto fazendo-o parecer mais velho
e profundas olheiras acentuavam a sua expresso cansada.
  - Creio que j no correm perigo - declarou.Mas como sucedeu isto? Quem cozinhou o jantar?
  - Fui eu - respondeu Lucy.
  - Descreva-mo pormenorizadamente.
  - Sopa de cogumelos. Galinha com arroz de caril.
Doce de leite.
  - Canaps Diane - disse de sbito o Dr. Quimper.
  Lucy sorriu levemente e confirmou:
  - Sim, Canaps Diane.
  - Muito bem... ora vejamos. Sopa de cogumelos... de lata, no  verdade?
  - Claro que no. Fi-la eu.
  - F-la com qu?
  - Com cogumelos, caldo de galinha, leite, manteiga, farinha e sumo de limo.
  - Ah! Devem ter sido os cogumelos.
  - No foram os cogumelos, porque eu tambm
comi sopa e sinto-me perfeitamente.
  - Sim, voc est perfeitamente. No me esqueci
disso.
  Lucy corou:
  - Se quer dizer que...
  - No quero dizer tal. Voc  uma rapariga muito
inteligente. Se eu tivesse pensado o que julgou, a estas
horas tambm voc estaria l em cima a gemer com
dores. Seja como for, estou muito bem informado a
seu respeito. Dei-me ao cuidado de tirar informaes.
  - Por que diabo o fez?
  Os lbios do Dr. Quimper uniram-se numa linha
fina.
  - Porque me empenho em tirar informaes de
todas as pessoas que vm viver nesta casa. Voc  uma
rapariga de bona fide, que ganha a vida com este gnero de trabalho e parece nunca ter tido qualquer 
contacto com a famlia Crackenthorpe, antes de vir para
aqui. Por conseguinte, no  uma amiga de Cedric, de
Harold ou de Alfred... que estivesse a ajud-los numa
m obra.
  - Pensa de facto...?
  - Penso uma quantidade de coisas - retorquiu
Quimper -, mas tenho de ser prudente. Quando se 
mdico, o caso torna-se pior. Mas continuemos. Galinha de caril. Comeu disso?
  - No. Depois de se cozinhar um prato de caril,
basta-nos o cheiro para j no termos vontade de
com-lo, mas, claro est, que o provei. Comi sopa e
doce.
  - Como serviu o doce?
  - Em taas individuais.
  - Onde est a loua suja?
  - J a lavei toda e arrumei.
  O Dr. Quimper murmurou por entre os dentes:
  - Um excesso de zelo  por vezes inconveniente.
  - Sim, agora vejo que teria sido prefervel no o
ter feito, mas j  tarde.
  - O que  que sobrou?
  - Um pouco de caril... Est numa tijela, na despensa. Sobejou tambm um pouco de sopa, mas o doce 
comeu-se todo.
  - Bem, levarei o caril e a sopa.
  Levantou-se.
  - Vou l acima v-los uma vez mais. Depois disso,  capaz de aguentar o forte at de manh?
 capaz de cuidar de todos eles? Posso mandar para
c uma enfermeira, quando forem oito horas.
  - Gostaria que me dissesse com franqueza o que
pensa. Acha que se trata de comida em mau estado
ou... ou... ou de envenenamento?
  - J lho disse. Os mdicos nunca podem achar...
Tm de ter a certeza. Se a anlise dessa comida der
um resultado positivo, poderei formular uma certeza.
Caso contrrio...


172  173



  - Caso contrrio? - repetiu Lucy.
  O Dr. Quimper pousou-lhe uma mo no ombro.
  - Cuide de duas pessoas, especialmente - recomendou. - Cuide de Emma. No quero que lhe
acontea nada de mal... - a sua voz traa uma emoo
que no conseguia disfarar. - Ainda nem sequer comecou a viver e, sabe, neste mundo, h poucas 
pessoas com as qualidades de Emma Crackenthorpe...
Emma significa muito para mim. Nunca lho disse,
mas dir-lho-ei. Cuide de Emma.
  - Esteja descansado - prometeu Lucy.
  - E olhe tambm pelo velho. No posso dizer que
seja o meu doente preferido, mas  meu doente e diabos me levem se permitirei que o matem s porque
um ou dois dos seus antipticos filhos, ou talvez os
trs juntos, o querem pr fora do caminho, para poderem deitar mo ao seu dinheiro.
  O Dr. Quimper lanou a Lucy um sbito olhar estranho.
  - Falei muito, mas esteja alerta e, incidentalmente, calada.

  O inspector Bacon pareceu surpreendido.
  - Arsnico? - perguntou. - Arsnico?
  - Sim. Estava no caril. Aqui tem o resto do caril... para o seu amigo l ir. Apenas procedi a um pequeno 
teste, mas o resultado foi muito conclusivo.
  - Nesse caso, h um envenenador em jogo?
  - Assim parece - concluiu o Dr. Quimper secamente.
  - E todos eles esto doentes... excepto essa
Miss Eyelesbarrow.
  - Excepto Miss Eyelesbarrow.
  - O caso parece um pouco feio para ela...
  - Mas que motivo podia ela ter?
  - Talvez tenha uma tara - sugeriu Bacon. - H
pessoas que parecem normais e contudo no o so.
  - No  esse o caso de Miss Eyelesbarrow. Falan174

  do como mdico, Miss Eyelesbarrow parece to nor  mal como qualquer de ns. Se Miss Eyelesbarrow 
ps
  arsnico na comida, f-lo por uma razo. Alm disso,
  como  uma rapariga muito inteligente, havia de ter o
  cuidado de no ser a nica pessoa no afectada. O que
  ela faria, o que qualquer envenenador inteligente faria
  ,
  seria ingerir um pouco do caril envenenado e depois
  exagerar os sintomas.
  - E no se descobriria?
  - Que ela ingerira menos veneno que as outras
pessoas? Provavelmente, no. No fim de contas, as
pessoas no reagem todas da mesma maneira... a
mesma quantidade de veneno pode afectar umas pessoas mais do que outras. E certo - acrescentou o
Dr. Quimper - que, depois da doente morrer, se pode fazer um clculo muito aproximado da quantidade
de veneno ingerida.
  - Nesse caso... - o inspector fez uma pausa para
consolidar as ideias - nesse caso, pode dar-se o caso
de uma das pessoas da famlia estar a exagerar o seu
prprio mal, para evitar ser alvo de suspeitas. Que diz
a isto?
  - Essa ideia j me ocorreu. E foi por isso que vim
procur-lo. O caso est agora nas suas mos. Mandei
para l uma enfermeira de confiana, mas no pode estar em todos os stios ao mesmo tempo. Na minha 
opinio, ningum ingeriu uma poro mortal.
  - Um erro do envenenador?
  - No. Parece-me mais provvel que a ideia fosse
lanar veneno no caril em quantidade suficiente para
causar sintomas de alimentos em mau estado... que
decerto se atribuiriam aos cogumelos. As pessoas julgam sempre que os cogumelos so venenosos. 
Depois,
provavelmente, uma das pessoas sentiria um maior
mal-estar e morreria.
  - Por ter ingerido uma segunda dose?
  O mdico aquiesceu com um movimento de cabeca.


175



  - Foi por isso que vim imediatamente procur-lo
e mandei para l uma enfermeira especial.
  - Ela percebe de arsnico?
  - Certamente, e Miss Evelesbarrow tambm.
O senhor sabe muito bem o que tem a fazer, mas, se
eu fosse a si, iria l e preveni-los-ia de gue foram vtimas de envenenamento por arsnico. E provvel que
isso alarme o nosso assassino que no se atrever a levar a cabo o seu plano.
  O telefone, pousado sobre a secretria do inspector, retiniu. Bacon atendeu:
  - Okay. Ligue para aqui - e voltando-se para
Quimper informou. -  a sua enfermeira. Sim, est?...  o prprio... Que diz? Uma recada sria...
sim... O doutor Quimper est aqui... Se quiser falar
com ele...
  Estendeu o auscultador ao mdico.
  - Fala Quimper... sim... est... Continue. Vou j.
  Pousou o auscultador e virou-se para Bacon.
  - Quem foi?
  - Alfred - respondeu o mdico. - Morreu.



XX


  A voz de Craddock chegou atravs do fio telefnico, com uma nota de viva incredulidade.
  - Alfred? - admirou-se. - Alfred?
  O inspector Bacon inquiriu:
  - No esperava por esta, pois no?
  - Pois no. Na realidade, era dele que eu desconfiava! Mas enganmo-nos.
  Seguiu-se um momento de silnio. Depois Craddock perguntou:
  - Estava l uma enfermeira? Como se explica que
ela no o tenha salvo?

  - No podemos censur-la. Miss Eyelesbarrow es  tava extenuada e tinha ido deitar-se. A enfermeira
  tinha de tratar de cinco doentes: o velho, Emma, Ce  dric, Harold e Alfred. No podia estar em todos os 
lados ao mesmo tempo. Parece que o velho Mister Crackenthorpe comeou a queixar-se muito, a dizer que 
ia
morrer. Ela foi ao seu quarto, acalmou-o e depois foi
dar a Alfred um pouco de ch com glucose. Ele bebeu-o e pronto.
  - Arsnico?
  - Assim parece. Certamente que podia ter sido
uma recada, mas Quimper no  desse parecer e
Johnstone to-pouco.
  - Pergunto a mim mesmo se a vtima devia ser
Alfred - disse Craddock.
  Bacon pareceu interessado.
  - Quer dizer que, ao passo que a morte de Alfred
no beneficia ningum, a do velho os beneficiaria a todos? Pode ter sido um engano... algum pode ter 
julgado que o ch era para o velho.
  - Tm a certeza de que o veneno foi ministrado
no ch?
  - No, claro que no. A enfermeira, como boa
profissional, lavou a loua toda, chvenas, colheres,
bule... tudo. Mas parece ter sido o nico mtodo praticvel.
  - Quer dizer - perguntou Craddock, pensativamente -, que um dos doentes no estava to doente
como os outros? Que viu uma oportunidade e deitou o
veneno na chvena?
  - O caso no se repetir - afiancou o inspector
Bacon, sombrio. - Temos l agora duas enfermeiras,
sem contar com Miss Evelesbarrow, e destaquei tambm dois homens. Vai l?
  - O mais depressa possvel!

  Lucy Eyelesbarrow atravessou o trio ao encontro
do inspector Craddock. Parecia plida e extenuada.

176 / 177



  - Tem passado um mau bocado - observou
Craddock.
  - Tem sido como que um longo pesadelo. Para
dizer a verdade, na noite passada julguei que todos
morriam.
  - Esse caril...
  - Foi o caril?
  - Sim, muito bem ligado com o arsnico... uma
obra digna de Brgia.
  - Se isso  verdade... - concluiu Lucy - foi...
foi certamente... algum da famlia.
  - No h outra possibilidade?
  - No. Bem v, s comeei a preparar esse maldito caril muito tarde... j depois das seis horas... porque 
Zister Crackenthorpe pediu-me muito que o fizesse. Tive de abrir uma lata com caril em p... e, por
conseguinte, no podia estar envenenado. Calculo que
o caril disfarcou o gosto, no  verdade?
  - O arsnico no tem gosto - replicou Craddock,
absorto. - 'Ias que oportunidade teve o assassino?
Qual deles teve ocasio de envenenar o caril, enquanto
estava ao lume?
  Lucy pensou um momento e respondeu:
  - Na realidade, qualquer pessoa podia ter entrado
na cozinha, enquanto eu punha a mesa.
  - Compreendo. Quem estava em casa? O velho
Mister Crackenthorpe, Emma, Cedric...
  - Harold e Alfred. Tinham chegado de Londres.
Oh, e Brvan... Brvan Eastlev. Mas partiu antes do jantar. Tinha de ir a um encontro em Brackhampton.
  Craddock disse pensativamente:
  - Isso condiz com a doenca do velho no Natal.
Quimper suspeitou que fosse arsnico. Na noite passada, pareceram-lhe todos igualmente doentes?
  - Acho que Mister Crackenthorpe-pai estava pior
do que os outros. O doutor Quimper no o largou.
E um bom mdico. Cedric foi quem se queixou mais
que todos.

  - E Emma?
  - Esteve bastante atrapalhada.
  - Mas porque atingiriam Alfred? - perguntou
Craddock.
  - Acha que o veneno ter-lhe-ia sido, de facto,
destinado?
  - Tem graa que tambm j fiz a mesma pergunta! - declarou Craddock. - Se, ao menos, pudesse
descobrir o motivo de tudo isto. Nada parece fazer
sentido. A mulher estrangulada e encontrada no sarcfago era Martine, viva de Edmund Crackenthorpe.
Admitamos isso, pois  quase uma certeza. Tem de
haver uma relao entre a sua morte e o envenenamento de Alfred. A explicao est algures, no seio da 
famlia. E possvel at que um deles seja doido.
  - Pois  - concordou Lucv.
  - Tenha cuidado consigo - recomendou Craddock. - Lembre-se de que, nesta casa, existe um envenenador 
e que um dos doentes que est l em cima
provavelmente exagera o seu mal.
  Depois da partida de Craddock, Lucv voltou devagar para a cama. Ao passar pelo quarto do velho 
Crackenthorpe, uma voz autoritria, embora um pouco
enfraquecida pela doenca, chamou:
  - Pequena... pequena...  voc? Venha c.
  Lucy entrou no quarto. Mr. Crackenthorpe estava
deitado na cama, recostado em almofadas. Lucv achou
que para um homem doente o seu aspecto era bastante
animoso.
  - A casa est cheia de enfermeiras - queixou-se
Mr. Crackenthorpe. - Metem o nariz em toda a parte, cheias de importnia, tiram-me a temperatura,
no me deixam comer o que quero... isto vai custar-me no pouco dinheiro. Diga a Emma que as mande
embora. Voc pode tratar de mim.
  - Est toda a gente doente, Mister Crackenthorpe. - disse Lucv. - No posso tratar de todos, compreende.

178  179



  - Cogumelos - disse Mr. Crackenthorpe. - Os
cogumelos so muito perigosos. Foi essa goma que ns
comemos ontem  noite. Foi voc que a fez - acrescentou acusadoramente.
  - Os cogumelos estavam bons, Mister Crackent-
horpe.
  - No estou a censur-la, pequena, no estou a
censur-la. No  a primeira vez que uma coisa dessas
acontece. Basta irem misturados com um fungo venenoso e pronto. Ningum tem culpa. Eu bem sei que
voc  uma boa rapariga. Seria incapaz de fazer isso de
propsito. Como est Emma?
  - Esta tarde, sente-se melhor.
  - Ah. E Harold?
  - Est melhor tambm.
  - Que histria vem a ser essa de Alfred ter ido
desta para melhor?
  - No lhe deviam ter contado isso, Mister Crackenthorpe.
  O velho soltou uma gargalhada forte, de intenso
divertimento.
  - Ouco coisas - explicou. - No conseguem esconder nada ao velhote. Eles bem tentam. Por conseguinte, 
Alfred morreu, no  verdade? Esse j no voltar a sugar-me e a levar-me dinheiro. Todos eles
andam  espera que eu morra, sabe... e Alfred ainda
mais do que os outros. Agora j morreu. E o que se
pode chamar uma boa partida.
  - No lhe fica bem pensar assim, .'Iister Crackenthorpe - censurou Lucy com severidade.
  Mr. Crackenthorpe voltou a rir.
  - Hei-de sobreviver a todos, pequena. Ver.
  Lucv foi para o quarto, pegou no seu dicionrio e
procurou a palavra tontina. Fechou o livro pensativamente e ficou a olhar o vcuo.

  - No percebo porque veio procurar-me - disse,
com irritao, o Dr. Morris.

  - O senhor conhece a famlia Crackenthorpe h
muito tempo - justificou o inspector Craddock.
  - Sim, sim, conheci todos os Crackenthorpe.
Lembro-me muito bem do velho Josiah Crackenthorpe. Era um homem rude... mas sagaz. Fez muito 
dinheiro - mudou de posio na cadeira e olhou por
baixo das sobrancelhas espessas para o inspector Craddock. - Por conseguinte, deu ouvidos a esse louco 
do
Quimper. Esses mdicos novos, cheios de zelo! Andam sempre com ideias disparatadas! Meteu-se-lhe na
cabea que algum tentava envenenar Luther Crackenthorpe. Tolice! Melodrama! Certamente que teve
ataques gstricos. Tratei-o dessas vezes. No foram
muito frequentes... mas nada tinham de especial.
  - O doutor Quimper julgou que sim - observou
Craddock.
  - Um mdico no deve julgar. No fim de contas,
espero ainda ser capaz de reconhecer um caso de envenenamento por arsnico.
  - Muitos mdicos de fama tm-se j deixado iludir, como, por exemplo, no caso Greenbarrow.
  - Pois sim, pois sim - admitiu o Dr. Morris -,
o senhor est a dizer com isso que eu podia ter-me enganado. Mas eu no creio que me tenha 
enganado!Fez uma pausa e prosseguiu: - Quem diabo julga
Quimper que tenha misturado o arsnico?
  - Ignora-o. Est preocupado. Como decerto  do
seu conhecimento, h nessa famlia uma grande quantidade de dinheiro em jogo.
  - Sim, sim, bem sei, e por morte de Luther Crackenthorpe os filhos receb-lo-o. Sei tambm que todos 
eles esto muito necessitados de dinheiro, mas isso
no significa que sejam capazes de matar o velho para
receb-lo.
  - No necessariamente - concordou Craddock.
  - Seja como for - continuou o Dr. Morris -, tenho por princpio no suspeitar de coisas sem ter um
motivo para o fazer. Admito que o que acaba de con180  181



tar-me deixa-me um pouco abalado. Ao que parece,
trata-se de uma grande dose de arsnico... mas continuo sem compreender porque veio procurar-me. Tudo
quanto posso dizer-lhe  que no suspeitei dele. Talvez
devesse ter suspeitado. Talvez devesse ter dado mais
importnia a essas indisposies gstricas de Luther
Crackenthorpe. Mas isso j l vai, h muito tempo.
  Craddock concordou e disse:
  - Do que de facto preciso  de conhecer um pouco mais acerca da famlia Crackenthorpe. Haver neles
alguma degenerao mental... de qualquer espcie?
  Os olhos por baixo das sobrancelhas espessas fitaram-no com vivacidade:
  - Sim, compreendo o que pensa. O velho Josiah
era perfeitamente normal. A mulher era uma neurtica, com tendnia para a melanolia. Morreu pouco
depois de ter dado  luz o segundo filho. Creio que
Luther herdou dela uma certa... instabilidade. Como
rapaz, era igual a muitos outros, mas estava sempre
em disputa com o pai. Este sentia-se desiludido com o
filho e creio que este se ressentiu com isso e que tal
ressentimento nem sequer lhe passou depois de casado. Se j falou com ele, com certeza notou que tem
um profundo desapego por todos os filhos, com excepo das raparigas, Emma e Edie... a que morreu.
  - Porque no gosta dos filhos?
  - Para compreender isso ter de consultar um
desses psiquiatras modernos. Na minha opinio, Luther nunca se achou muito apto como homem e sente-
-se muito humilhado com a sua posio financeira. Recebe o usufruto da herana, mas no pode tocar no
capital. Se pudesse deserdar os filhos  provvel que
gostasse mais deles. Sente-se humilhado, por no ter
poderes para deserd-los.
  - Ser por isso que o satisfaz tanto a ideia de sobreviver a todos? - perguntou o inspector Craddock.
  -  possvel. E tambm essa a causa da sua avareza. Deve ter economizado uma considervel parte dos

seus rendimentos... a maior parte, antes destes impostos todos, claro est.
  Uma nova ideia ocorreu ao inspector Craddock.
  - Suponho que tenha deixado essas economias a
algum, em testamento. Isso pode ele fazer.
  - Sim, embora s Deus saiba a quem as deixou.
Talvez a Emma, mas duvido. Ou a Alexander, o neto.
  - Gosta do neto, no  verdade?
  - Sim, pelo menos gostava. Era filho da filha e
no de um dos filhos. E natural que isso faa diferena. E gostava muito de Bryan Eastley, o marido de
Edie. No conheco bem Brvan e h j alguns anos que
no vejo ningum da famlia. Mas deu-me a impresso
de que esse rapaz havia de sentir-se deslocado depois
de a guerra acabar. Possui todas as qualidades requeridas em tempo de guerra: coragem, arrojo e 
despreocupao pelo futuro, mas no me parece que tenha estabilidade. Provavelmente, no ser capaz de 
aguentar-se
num emprego.
  - No h qualquer tara na gerao mais nova?
  - Cedric  um tipo excntrico, um desses rebeldes
por natureza. No digo que seja absolutamente normal, mas h algum que o seja? Harold  bastante
ortodoxo, e no o considero uma personagem muito
simptica;  frio e calculista. Quanto ao outro, ao que
morreu, acho que no se deve falar mal dos mortos.
  - E a respeito de... - Craddock hesitou - Emma Crackenthorpe?
  - E uma boa rapariga, sossegada, mas nunca se
sabe bem no que ela pensa. Tem os seus planos e as
suas ideias, mas guarda-as com ela. Tem mais firmeza
do que apresenta.
  - Conheceu Edmund?
  - Sim. Acho que era o melhor do grupo. Simpti-
go, alegre e de bom corao.
  - Alguma vez ouviu dizer que ia casar ou casara
com uma rapariga francesa, antes de ter morrido?
  O Dr. lIorris franziu o sobrolho e respondeu:

182 I 183



  - Parece que tenho uma vaga recordao acerca
disso, mas j foi h muito tempo.
  - Foi no princpio da guerra, no  verdade?
  - Foi. Acho que, se no tivesse morrido, ter-se-ia
arrependido de ter casado com uma estrangeira.
  - Pois h razo para crer que tal casamento se
realizou - disse Craddock.
  Em frases breves, fez um relato dos acontecimentos recentes.
  - Recordo-me de ter lido qualquer coisa nos jornais acerca de uma mulher que fora encontrada morta
num sarcfago. Foi ento em Rutherford Hall.
  - E h razo para crer que essa mulher era a viva de Edmund Crackenthorpe.
  - Isso parece fantstico. Parece mais uma novela
do que um acontecimento da vida real. Mas quem havia de querer matar a desgraada... isto , como se 
relaciona isso com o envenenamento por arsnico da
famlia Crackenthorpe?
  - De uma de duas maneiras - respondeu Craddock -, mas qualquer delas  muito rebuscada. Talvez exista 
uma pessoa vida de toda a fortuna de
Josiah Crackenthorpe.
  - Se assim for,  louca - sentenciou o Dr. Morris. - Ter de pagar uns impostos enormssimos sobre os 
rendimentos.



XXI


  - Os cogumelos so muito perigosos - monologou Mrs. Kidder.
  Mrs. Kidder j fizera esta observao umas dez
vezes, durante os ltimos dias. Lucy no replicou.
  - Eu c nunca lhes toco - prosseguiu. - So perigosssimos. Foi uma merc da Providnia s ter havido 
uma morte. Podiam ter morrido todos, at a senhora, Miss Eyelesbarrow. Teve uma sorte milagrosa,
isso  que teve.
  - No foram os cogumelos - esclareceu Lucy.Esses eram bons.
  - A senhora no acredita, mas olhe que os cogumelos so muito perigosos. Basta haver entre eles um
que seja venenoso e pronto. E engraado - continuou
Mrs. Kidder, de mistura com o barulho dos pratos e
travessas no lava-louas - como uma desgraa nunca
vem s. O filho mais velho da minha irm apanhou sarampo, o nosso Ernie caiu e partiu um brao e o meu
marido esteve com uma camada de furnculos. Tudo
isto na mesma semana! Custa a acreditar, no  verdade? Aqui aconteceu o mesmo - prosseguiu -, 
primeiro, esse crime e agora a morte de Mister Alfred,
envenenado com cogumelos. Sempre gostava de saber
quem ser a seguir?
  Lucy pensou, entristecida, que tambm gostaria de
sab-lo.
  Pegou numa bandeja com chvenas de ch e comecou a subir as escadas.
  - O que  isto? - perguntou Mr. Crackenthorpe
desaprovadoramente.
  - Ch e leite-creme - respondeu Lucy.
  - Leve - ordenou Mr. Crackenthorpe. - No
toco nisso. J disse  enfermeira que queria um bife.
  - O doutor Quimper acha que, por ora, no deve
comer bifes.
  - J estou praticamente bom - resmungou
Mr. Crackenthorpe. - Amanh, levanto-me. Como
esto os outros?
  - Mister Harold est muito melhor. Regressa
amanh a Londres.
  - Que alvio! - exultou Mr. Crackenthorpe.E Cedric... h alguma esperana de que regresse amanh  sua 
ilha?
  - No ir por ora.

184 I 185



  -  pena. E Emma? Porque no vem ver-me?
  - Est ainda de cama, Mister Crackenthorpe.
  - As mulheres so sempre umas piegas. Mas voc
 uma rapariga forte - acrescentou. - No pra durante todo o dia, pois no?
  - Faco muito exerccio.
  O velho Mr. Crackenthorpe meneou a cabea com
aprovao.
  - E uma boa rapariga e forte. No julgue que me
esqueci do que lhe disse no outro dia. No tardar a
ver que tenho razo. Emma no poder fazer eternamente o que quer. E no d ouvidos aos outros, quando 
lhe dizem que sou um velho avarento. Tenho cuidado em no malbaratar o meu dinheiro. Tenho de
parte uma boa maquia e bem sei quem o vai gastar
quando for altura - olhou-a afectuosamente.
  Lucy saiu  pressa do quarto, evitando ser agarrada pela mo de Mr. Crackenthorpe.
  Foi buscar outro tabuleiro e levou-o a Emma.
  - Obrigado, Lucy. J me sinto quase boa. Tenho
fome e isso  bom sinal, no  verdade? Sinto-me
preocupada por causa de sua tia. Ainda no teve tempo para ir visit-la, pois no?
  - Pois no.
  - Tenho receio que ela sinta a sua falta.
  - No se preocupe, Miss Crackenthorpe. Ela 
muito compreensiva.
  - Tem-lhe telefonado?
  - Ultimamente, no.
  - Ento, telefone-lhe. Telefone-lhe todos os dias.
As pessoas de idade gostam tanto de ter notcias.
  Enquanto descia a buscar novo tabuleiro, Lucy decidiu que telefonaria a Miss Marple, depois de lev-lo
a Cedric.
  Este, com uma aparnia incrivelmente asseada,
estava sentado na cama a escrever.
  - Viva, Lucy! - saudou. - Que maldita mistela
me traz hoje? Gostava que me desembaraasse dessa

  enfermeira que se me dirige empregando sempre uns.
  Como estamos esta manh? Dormimos bem? Ai, filho,
  que marotos somos a tirar a roupa da cama - profe  riu, imitando a enfermeira, numa voz falsetto.
  - Parece muito bem-disposto - observou Lucv.
- Que est a fazer?
  - Planos. Planos para o que hei-de fazer com esta
casa quando o velhote fechar o olho. Ainda no sei se
a conserve ou se a venda. Tem muito valor para fins
industriais. A casa serviria para uma creche ou para
uma escola. Talvez venda metade da terra e empregue
o dinheiro a fazer algo extravagante com a outra metade. Que acha?
  - Ainda no a tem - replicou Lucy, com secura.
  - Mas t-la-ei. No ser dividida como o resto.
Receb-la-ei inteira. Se a vender por bom preco, o dinheiro ser capital e no rendimento. Por conseguinte,
no terei de pagar impostos sobre ele. Dinheiro para
queimar. Pense bem.
  - Sempre julguei que desprezasse o dinheiroobservou Lucv.
  - Claro que desprezo o dinheiro, quando no o
tenho - replicou Cedric. - E a nica coisa digna
a fazer. Voc  uma rapariga encantadora, Lucv. Mas
acaso esta impresso se deve ao facto de no ver uma
mulher bonita h tanto tempo?
  - Espero que seja isso.
  - Tem ainda de arranjar alguma coisa ou de fazer
arrumaes?
  - Parece que j algum esteve a arrumar isto aqui
- observou Lucy, olhando-o.
  - Foi essa maldita enfermeira. J realizaram o inqurito acerca de Alfred? Que aconteceu?
  - Foi adiado - respondeu Lucy.
  - A Polcia est a fazer caixinha. Este caso de
envenenamento  de assustar - acrescentou. -  melhor ter cuidado consigo, minha filha.
  - E o que fao - retorquiu Lucy.

186  187



  - Alexander j voltou para o colgio?
  - Creio que est ainda em casa de Stoddard-West.
Segundo ouvi, o colgio s reabre depois de amanh.
  Antes de almoar, Lucy telefonou a lIiss Marple.
  - Custa-me muito ainda no ter podido ir v-la,
mas tenho tido, de facto, muito que fazer.
  - Claro, minha filha, claro. Alm disso, por ora,
nada se pode fazer. Temos de esperar.
  - Sim, mas esperar por qu?
  - Elspeth 1'IcGillicuddy deve estar de volta, muito em breve - disse Miss Marple. - Escrevi-lhe a pedir que 
regressasse imediatamente. Disse-lhe que era
esse o seu dever. Por conseguinte, no se preocupe,
minha filha - acrescentou em tom tranquilizador.
  - No julga que... - comeou Lucy, e depois
parou.
  - Que haja mais mortes? Espero que no, minha
flha. lIas, quando nos havemos com uma pessoa m,
nunca se sabe, no  verdade?
  - Ou maluca - sugeriu Lucv.
  - Bem sei que  esse o ponto de vista moderno de
considerar as coisas, mas eu no concordo.
  Lucv desligou, voltou para a cozinha e pegou no
tabuleiro com o seu almoo. Mrs. Kidder tirara j o
avental e preparava-se para partir.
  - Sente-se bem, Miss Evelesbarrow? - informou-se, cheia de solicitude.
  - Certamente que sim - retorquiu Lucy com secura.
  Em vez de levar o tabuleiro para a grande e sombria casa de jantar, levou-o para o pequeno escritrio.
Estava precisamente a acabar de comer, quando a porta se abriu e Brvan Eastlev entrou.
  - Viva! - saudou Lucv. - Mas que visita inesperada!
  - Tambm creio. Como esto todos?
  - Muito melhor. Harold volta para Londres, amanh.

  - Que pensa voc do caso? Era na realidade arsnico?
  - Era, sim - confirmou Lucv.
  - Ainda no veio nada nos jornais.
  - Pois no. Creio que a Polcia deseja guardar segredo do acontecido at ao momento que julgar oportuno.
  - Mas quem pode ter lanado veneno na comida?
  - Suponho que seja eu a pessoa mais indicadadisse Lucy.
  Bryan, ansioso, olhou-a.
  - Mas no foi voc, pois no? - perguntou, parecendo um tudo nada chocado.
  - No, no fui.
  - Porque havia de t-lo feito, realmente? Eles no
lhe so nada, pois no? - e depois acrescentou:Espero que o meu regresso no lhe tenha desagradado.
  - Claro que no. Fica c?
  - Bem gostaria, se isso no fosse um grande incmodo para si.
  - De forma alguma.
  - Bem v, nesta altura, estou desempregado e...
bem, aborreco-me. Tem a certeza de que no se importa?
  - Oh, no sou eu quem tem de importar-se. Isso
 com Emma.
  - Emma no me preocupa - disse Bryan. - Foi
sempre muito gentil para mim. A sua maneira, j se
sabe.  muito metida consigo. No sei como consegue
viver aqui enterrada a aturar o velhote.  pena no se
ter casado. Agora j  tarde.
  - No acho que seja tarde - declarou Lucy.
  - Bem... - Bryan reflectiu. - Talvez com um
sacerdote. Emma seria muito til  parquia e havia
de ir de chapu, aos domingos,  igreja.
  - Isso no me parece muito tentador - comentou
Lucy, levantando-se e pegando na bandeja.
  - Eu levo isso - ofereceu-se Bryan, tirando-lhe o

188 189



tabuleiro das mos. Voltaram juntos para a cozinha.Quer que a ajude a lavar a loica? Gosto desta cozinha
- acrescentou. - Com efeito, embora reconhea que
o meu gosto no  o da maioria das pessoas, esta casa
agrada-me. E um gosto estranho, talvez, mas  a verdade. Um avio poderia aterrar com facilidade no 
parque - acrescentou, entusiasmado.
  Pegou num pano de cozinha e comeou a limpar as
colheres e os garfos.
  - E uma pena que v parar a Cedric - comentou. - A primeira coisa que far ser vender toda a
propriedade e voltar de novo para o estrangeiro. No
compreendo como  que pode haver pessoas que no
se sintam bem em Inglaterra. Harold tambm no teria interesse pela casa e para Emma  demasiado 
grande. Mas, se fosse parar a Alexander, ele e eu sentir-nos-amos aqui to felizes como dois garotos. E 
certo
que seria agradvel ter uma mulher em casa - olhou
pensativamente para Lucv. - lIas para que estou a
falar nisto? Para Alexander receber esta casa, seria necessrio que todos eles morressem primeiro que o 
pai
de Emma e isso no  possvel, pois no? Alm de que
''Iister Crackenthorpe me parece estar disposto a chegar aos cem anos, apenas para os arreliar a todos. 
No
ficou muito afectado pela morte de Alfred, pois no?
  - Pois no - replicou Lucv_ laconicamente.
  - Que velhote irritante! - proferiu Brvan Eastlev, de maneira jovial.



XXII


  - E horrvel o que se diz por a - disse Mrs. Kidder. - Eu s ouco o que no posso deixar de ouvir, mas
no acredito em nada daquilo. - Aguardou esperancosamente.

  - Calculo.
  A campainha da porta tocou.
  -  o mdico. Quer que v abrir a porta?
  - Vou eu - declarou Lucv.
  Mas no era o mdico e sim uma mulher alta e elegante, num casaco de arminho. No caminho 
ensaibrado, ronava baixinho um Rolls com um motorista ao
volante.
  - Posso falar com Miss Emma Crackenthorpe?
  A desconhecida tinha uma voz atraente e carregava
levemente nos RR. Aparentava trinta e cinco anos
  ,
tinha cabelo escuro e estava dispendiosa e magnificamente maquilhada.
  - Lamento, mas Miss Crackenthorpe est de cama e no pode receber ningum.
  - Sei que est doente, mas o assunto que aqui me
traz  muito importante.
  - Receio que... - comeou Lucy.
  A visitante interrompeu-a:
  - Creio que  Miss Evelesbarrow, no  verdade?
- sorriu-lhe. - Meu filho falou-me de si. Sou Ladv
Stoddard-West e Alexander est agora em minha casa.
  - Ah!
  - E preciso na realidade de falar com Miss Crackenthorpe - continuou a outra. - Sei tudo a respeito
da sua doenca e garanto-lhe que no se trata de uma
visita social. E por causa de uma coisa que os pequenos me contaram... que o meu filho me contou. Creio
que  um assunto importante e gostaria de falar a seu
respeito com Miss Crackenthorpe. Quer fazer o favor
de preveni-la da minha vinda?
  Lucv levou Lady Stoddard-West para a sala de visitas e declarou:
  - Vou l acima prevenir Miss Crackenthorpe.
  Depois de entrar no quarto de Emma anunciou:
  - Ladv Stoddard-VUest est l em baixo. Deseja
falar-lhe em particular.
  - Ladv Stoddard-West? - repetiu Emma, sur190  191



preendida. Espraiou-se-lhe no rosto uma expresso de
alarme. - Ter acontecido alguma coisa aos pequenos... a Alexander?
  - No, no - tranquilizou Lucy. - Estou certa
de que os pequenos esto bem. Parece que se trata de
uma coisa que os pequenos lhe contaram.
  - Ah, bem... - Emma hesitou. - Talvez deva
receb-la. Acha que estou bem, Lucy?
  - Est muito bem - garantiu Lucy. - Posso ir
buscar Ladv Stoddard-West?
  - Pois sim.
  Pouco depois, Lady Stoddard-West aproximava-se
da cama de Emma Crackenthorpe, de mo estendida.
  - Miss Crackenthorpe? Desculpe vir incomod-la.
  Lady Stoddard-West sentou-se numa cadeira, prximo da cama. Em voz baixa e sria comeou:
  - Deve achar a minha visita muito estranha, mas
tenho uma razo a justific-la. E creio que se trata de
uma razo importante. Os pequenos contaram-me
umas coisas. Compreende-se a sua excitao por o crime ter ocorrido aqui e confesso que essa ideia 
tambm
no me agradou, na altura. Fiquei to nervosa que
quis vir buscar James imediatamente, mas meu marido riu-se de mim e disse ser bvio o crime nada ter a
ver com a casa ou com a famlia. Alm disso, pelo que
James escrevia nas cartas, ele e Alexander divertiam-se
tanto que teria sido crueldade vir busc-lo.
  Tenho, porm, de dizer-lhe o que eles me contaram. Disseram-me que a Polcia julgava que essa
mulher... a que foi assassinada... fosse uma rapariga
francesa que seu irmo mais velho, morto na guerra,
conheceu em Frana.  verdade?
  - Somos forados a considerar essa possibilidade
- respondeu Emma.
  - H alguma razo para acreditar que o cadver
fosse o dessa rapariga, dessa Martine?
  - Como j lhe disse,  uma possibilidade.
  - Mas porque... porque haviam de pensar que era
Martine? Tinha algumas cartas entre os seus... papis?

  - No, nada disso. Mas eu recebera uma carta
dessa Martine.
  - Recebeu uma carta... de Martine?
  - Sim. Uma carta a dizer-me que estava em Inglaterra e gostaria de visitar-me. Convidei-a a c vir, mas
recebi um telegrama dela a anunciar o seu regresso a
Frana. Talvez tenha regressado, talvez no. Ignoramo-lo. Mas, mais tarde, foi encontrado aqui um 
sobrescrito que lhe era endereado, o que parece indicar
que ela tinha aqui vindo. Mas, de facto, no compreendo...
  Ladv Stoddard-West atalhou com vivacidade:
  - No compreende em qu que isso me diz respeito? E muito natural. No seu lugar, eu tambm no
compreenderia. Mas, quando soube disto... tive de vir
certificar-me porque...
  - Porqu?
  - Tenho de dizer-lhe uma coisa que nunca tencionara dizer-lhe. Eu sou Martine Dubois.
  Emma olhou estupefacta para a visitante, como se
lhe custasse a perceber o que ouvira.
  - A senhora! - exclamou. - A senhora  Martine?
  A outra confirmou meneando energicamente a cabeca.
  - Sou, sim. Compreendo que isto a surpreenda,
mas  a verdade. Conheci o seu irmo no incio da
guerra. Estava aboletado em nossa casa. O resto j o
conhece. Apaixonmo-nos um pelo outro. Tencionvamos casar, mas depois ocorreu a queda de 
Dunquerque e Edmund foi dado como morto. Mais tarde, a
sua morte foi anunciada oficialmente. No quero falar-lhe desse tempo. J passaram muitos anos e tudo 
passou. Mas digo-lhe que amei muito seu irmo.
  Depois sobrevieram as amargas realidades da
guerra. Os Alemes ocuparam a Frana. Trabalhei na
Resistnia. Competia-me ajudar os Ingleses a atravessarem a Frana e irem para Inglaterra. Foi desse 
modo

192 I 193



que conheci o meu actual marido. Era um oficial da
Fora Area, lanado de pra-quedas em Frana, incumbido de realizar uma misso especial. Quando a
guerra acabou, casmos. Hesitei uma ou duas vezes
em escrever-lhe ou em vir visit-la, mas resolvi no o
fazer. No serviria de nada avivar recordaes tristes.
Tenho uma vida nova e no desejo recordar a antiga.
- Fez uma pausa, e depois prosseguiu: - Mas pode
crer que me deu um estranho prazer saber que o
maior amigo de meu filho no colgio era sobrinho de
Edmund. Acho Alexander muito parecido com Edmund.
  Inclinou-se para a frente e pousou a mo no brao
de Emma.
  - Mas com certeza compreende, minha boa Emma, que, ao ouvir esta histria do crime de uma mulher 
chamada Martine e que Edmund conhecera, me
senti no dever de vir procur-la e contar-lhe a verdade.
Uma de ns tem de informar a Polcia do que acabo
de dizer-lhe.
  - Ainda me custa a crer que seja a Martine de
que meu irmo me falou nas suas cartas - suspirou
Emma. Abanou a cabea e depois franziu o sobrolho,
perplexamente. - Nesse caso, foi quem me escreveu?
  Lady Stoddard-West sacudiu vigorosamente a cabeca.
  - No, no, claro que no.
  - Nesse caso... - Emma calou-se.
  - Nesse caso, algum que se dizia Martine queria
extorquir-lhe dinheiro. E o que deve ter sido. Mas
quem?
  Emma perguntou, com lentido:
  - Nesse tempo, havia mais algum a par deste assunto?
  A outra encolheu os ombros.
  - E provvel, mas no havia nenhuma pessoa que
me fosse ntima e com quem eu desabafasse. Alm disso, desde que estou em Inglaterra, to-pouco falei 
no

caso a algum. E porque esperar todo este tempo?
E curioso, muito curioso.
  - No compreendo. Veremos o que o inspector
Craddock pensa disto. - De sbito, olhou com afecto
para a visitante. - Estou to contente por t-la finalmente conhecido...
  - E eu tambm... Edmund falava-me muitas vezes de si. Vivo feliz, mas apesar disso, no o esqueco.
  Emma soltou um profundo suspiro.
  - E um alvio enorme - confessou. - Enquanto
julgvamos que essa morta pudesse ser Martine... parecia que a famlia tinha qualquer coisa a ver com o
crime. Mas agora... oh,  um autntico peso que me
saiu das costas. No sei quem essa infeliz era, mas nada pode ter tido a ver connosco!



XXIII


  A secretria aerodinmica levou a Harold Crackenthorpe a habitual chvena de ch.
  - Obrigado, Miss Ellis. Hoje vou mais cedo para
casa.
  - Acho que ainda no devia ter vindo, Mr. Crackenthorpe - opinou Miss Ellis. - Tem um aspecto
muito abatido.
  - Sinto-me bem - declarou Harold Crackenthorpe. Na realidade, sentia-se abatido. No havia dvida
de que vivera um mau bocado, mas felizmente, esse
mau bocado j passara.
  Achava extraordinrio que Alfred houvesse sucumbido e o mesmo no tivesse acontecido ao velho. No
fm de contas, este j tinha... setenta e trs anos... ou
setenta e quatro anos? H anos que estava doente. Se
havia algum que devesse morrer, esse algum era o
velho. Mas no. Fora Alfred, um homem novo e sau194  195



dvel. Recostou-se na cadeira, suspirando. Aquela rapariga tinha razo. Ainda no estava capaz de ir ao 
escritrio, mas quisera ver como corriam os negcios.
Todo o ambiente  sua volta indicava prosperidade; os
mveis de boa madeira polida, as poltronas modernas
e caras, tudo enfim. Por ora, ainda no corriam rumores acerca da sua situao financeira. Apesar disso,
no poderia evitar o desastre por muito tempo. Se, ao
menos, o pai tivesse morrido em lugar de Alfred, como devia ter sido... Praticamente, parecia dar-se bem
com o arsnico! Sim, se seu pai tivesse sucumbido...
bem, nesse caso, no haveria razes para preocupaces.
  Mas fora Alfred quem morrera! Nunca gostara
muito desse irmo e agora que estava fora do caminho,
o dinheiro que ele, Harold, herdaria do velho avarento
seria sensivelmente aumentado, pois seria dividido
apenas por quatro filhos em vez de cinco. Era muito
melhor.
  O rosto de Harold animou-se um pouco. Levantou-se, pegou no chapu e no sobretudo e saiu do 
escritrio. Era melhor repousar ainda um dia ou dois.
O carro esperava-o l em baixo e, pouco depois, circulava pelas ruas de Londres, a caminho de casa.
  Darwin, o criado, abriu-lhe a porta e anunciou:
  - A senhora j chegou.
  Harold olhou-o, um momento, sem compreender.
Alice! Esquecera-se por completo de que a mulher devia chegar nesse dia. Felizmente, Darwin prevenira-o,
porque, caso contrrio, ao v-la, a sua expresso atnita tra-lo-ia. No fim de contas, isso tambm pouca 
importnia teria. Nem ele nem Alice acalentavam muitas
iluses acerca dos sentimentos que nutriam um pelo outro. Talvez Alice gostasse dele... no o sabia.
  Vendo bem as coisas, Alice fora uma grande desiluso. No se apaixonara por ela, claro, mas, embora
fosse uma mulher simples, era simptica, alm de que
sua fmlia possua relaes que lhe tinham sido indubitavelmente teis. No tanto como podiam ter sido,
se tivessem filhos. Estes teriam ptimas relaes. Mas
no os tinham e apenas existiam os dois, ele e Alice,
envelhecendo juntos, sem muito que dizer um ao outro e sem qualquer prazer na companhia mtua.
  A mulher passava grande parte do tempo com a famlia e, chegado o Inverno, partia, em geral, para a
Riviera.
  Foi encontr-la na sala e cumprimentou-a cerimoniosamente.
  - Lamento muito no ter ido esper-la, mas fiquei retido na Citv. Voltei o mais cedo que me foi possvel. 
Que tal San Raphael?
  Alice respondeu-lhe que San Raphael estava bem.
Era uma mulher magra, de cabelo loiro, de nariz bem
arqueado e de olhos cor de avel e vagos. Falava numa
voz cansada e montona, com a entoao bem. Fizera uma bela viagem, embora o canal estivesse 
agitado.
Em Dover, a alfndega fora, como de costume, muito
aborrecida.
  - Devia ter vindo de avio. E muito mais simples.
  - Concordo, mas no gosto de voar. Nunca gostei. Fico nervosa.
  - Mas poupa-se muito tempo - observou Harold.
  Ladv Alice Crackenthorpe no respondeu. Era
possvel que o seu problema na vida no fosse poupar
tempo, mas sim ocup-lo. Informou-se delicadamente
da sade do marido.
  - O telegrama de Emma deixou-me muito alarmada. Estiveram todos doentes, no  verdade?
  - Sim - confirmou Harold.
  - No outro dia, li no jornal a notcia de um caso
de envenenamento de quarenta pessoas num hotel. Estou certa que  dessas comidas guardadas tanto 
tempo
em frigorfcos.
  - Talvez - admitiu Harold.

196  197



  Hesitava em mencionar a palavra arsnico. Mas,
quando olhava para a mulher, sentia-se incapaz de o
fazer. Achava que no mundo de Alice, um envenenamento por arsnico no era possvel. Era apenas uma
coisa que se lia nos jornais e no acontecia na prpria
famlia. Contudo, acontecera na famlia Crackenthorpe.
  A mesa, a conversa manteve o mesmo carcter, delicado, cerimonioso. Alice falou de pessoas 
conhecidas
que encontrara em San Raphael.
  - H uma encomenda para si sobre a mesa do
trio - disse Alice.
  - Sim? No reparei.
  - Ouvi dizer que uma mulher tinha sido assassinada e encontrada num celeiro, em Rutherford Hall.
Suponho que se trate de outro Rutherford Hall.
  - No,  o mesmo. Na verdade, trata-se do nosso
celeiro.
  - A srio, Harold? Uma mulher assassinada no
celeiro de Rutherford Hall... e nunca me disse nada a
esse respeito.
  - Bem, em primeiro lugar, isso ainda foi h pouco
tempo - justificou-se Harold - e, em segundo, trata-se de um caso muito desagradvel. E evidente que nada 
tem a ver connosco. Fomos obrigados a chamar a
Polcia e tudo o mais.
  - Que desagradvel! Descobriram o criminoso?
  - Ainda no.
  - Que gnero de mulher era?
  - Ningum sabe. Ao que parece, era francesa.
  - Ah, francesa - repetiu Alice, num tom de voz
parecido ao do inspector Bacon. - Deve ter sido muito aborrecido para todos.
  Depois do jantar, Harold foi buscar a encomenda
de que a mulher lhe falara. Era um embrulho pequeno, bem feito e lacrado. Abriu-o enquanto se dirigia
para a sua cadeira junto  lareira do escritrio.
  Dentro do embrulho estava uma caixinha de comprimidos com o rtulo seguinte: Tomar dois,  noite,
ao deitar. Acompanhava-o um bilhete do farmacutico de Brackhampton com as palavras: Enviado, a 
pedido do Dr. Quimper. 
  Harold Crackenthorpe franziu o sobrolho. Abriu a
caixa e olhou para os comprimidos. Sim, pareciam
iguais aos que tomara, mas estava certo de que Quimper lhe recomendara que no tomasse mais. Pare 
com
eles, agora, dissera-lhe Quimper.
  - Que se passa? Parece preocupado.
  - No  nada... so uns comprimidos. Tenho-os
tomado  noite, mas estava convencido de que o mdico me dissera que no tomasse mais.
  A mulher retorquiu com placidez:
  - Provavelmente, disse que no se esquecesse de
tom-los.
  -  possvel - admitiu Harold, duvidoso.
  Olhou para a mulher. Esta observava-o. Que estaria ela a pensar? Aquele seu olhar sereno nada lhe dizia. 
Eram uns olhos que se assemelhavam s janelas
duma casa vazia. Que pensaria Alice a seu respeito?
O que sentiria por ele? Alguma vez o amara? Harold
julgava que sim. Ou teria casado com ele na esperana
de viver bem e por estar cansada da sua existnia pobre? Pois conseguira o que queria. Tinha carro, uma
casa em Londres, ia para o estrangeiro quando queria,
comprava vestidos caros, embora nela nunca fizessem
grande vista. Sim, conseguira o que queria.
  Alice continuava a observ-lo. Aqueles seus olhos
plidos e pensativos causavam-lhe mal-estar.
  - Vou deitar-me. Foi hoje o meu primeiro dia na
City desde que me recompus.
  - Sim, acho que  uma boa ideia. Estou certa de
que o mdico lhe recomendou prudnia.
  - Os mdicos recomendam-na sempre.
  - E no se esquea dos comprimidos, queridolembrou Alice, pegando na caixa e dando-a ao marido.
  Despediram-se e Harold foi para cima. Sim, preci198  199



sava dos comprimidos. Teria sido um erro p-los de
parte to cedo. Meteu dois na boca e engoliu-os com
um copo de gua.



XXIV


  - Ningum podia ter feito pior figura do que a
minha - lastimou-se Dermot Craddock, tristemente.
  Estava sentado, com as compridas pernas estendidas, na saleta, atravanada de mveis, da dedicada
Florence. A sua expresso denotava profundo cansaco
e desnimo.
  Miss Marple procurou anim-lo:
  - No, no diga uma coisa dessas. Voc fez o que
era possvel. Fez de facto um bom trabalho.
  - Acha que fiz um bom trabalho? Permiti que a
famlia inteira fosse envenenada, que Alfred Crackenthorpe morresse e que acontecesse agora o mesmo a
Harold. Que diabo suceder a seguir? Isso  o que eu
gostava de saber.
  - Comprimidos envenenados - proferiu Miss Marple, pensativa.
  - Sim, o assassino foi de facto de uma subtileza
diablica. Assemelhavam-se exactamente aos comprimidos que ele tinha andado a tomar. Havia um papel 
junto  caixa que dizia: Enviado a pedido do
Dr. Quimper.  Ora Quimper no encomendou esses
comprimidos e o farmacutico to-pouco sabe seja o
que for a esse respeito. No. Essa caixa de comprimidos veio de Rutherford Hall.
  - Tem a certeza de que veio de Rutherford Hall?
  - Sim. J procedemos a um inqurito. Com efeito, trata-se da caixa que continha os comprimidos 
sedativos receitados para Emma.
  - Ah, percebo. Para Emma...

  - Sim. Tem as suas impresses digitais, as de ambas as enfermeiras e as do farmacutico que aviou a 
receita. A pessoa que enviou essa caixa a Harold foi cuidadosa.
  - E os comprimidos sedativos tinham sido substitudos por outros?
  - Sim. E esse o mal dos comprimidos. Assemelham-se muito uns aos outros.
  - Tem toda a razo - concordou Miss Marple.
- De que eram os comprimidos?
  - De acnito. E o gnero de comprimidos venenosos que se dissolvem em gua para aplicaes exteriores 
- explicou Craddock.
  - E, por conseguinte, Harold tomou-os e morreu
- concluiu lIiss 1'Iarple, pensativamente.
  - Mas nem por isso deixo de me ter portado como um imbecil durante todo este caso. O chefe da Polcia 
daqui apelou para a Scotland Yard e que ganhou
ele com isso? Fiz um autntico papel de asno!
  - No diga isso - procurou amenizar Miss Marple.
  - Digo, sim. Ignoro quem envenenou Alfred,
ignoro quem envenenou Harold e, para cmulo, no
fao a mnima ideia da identidade da mulher assassinada! Este caso de Martine parecia-me estar quase 
resolvido, e que aconteceu? A verdadeira Martine aparece e
 mulher de Sir Robert Stoddard-West.
  Por conseguinte, quem era a mulher encontrada
no celeiro? Em primeiro lugar, convenco-me de que 
Anna Stravinski, e depois verifico que o no ...
  Calou-se ao ouvir o tossicar significativo de Miss Marple.
  - Tem a certeza de que no ?
  Craddock fitou-a.
  - Ora, esse postal da Jamaica...
  - Pois sim - admitiu Miss Marple -, mas isso
no constitui uma verdadeira prova, pois no? N o sei
se compreende o que quero dizer - acrescentou,
olhando significativamente para Dermot Craddock.

200 I 201



  - Sim, decerto - replicou Craddock, fitando-a.
- Claro est que teramos procurado confirmar a veracidade desse postal, se o caso de Martine no 
parecesse to genuno.
  - To cmodo - corrigiu Miss Marple, baixinho.
  - Mas parecia consistente - fez notar Craddock.
- No fim de contas, a carta que Emma recebeu vinha
assinada Martine Crackenthorpe. Lady Stoddard-West
no a enviou, mas algum o fez. Algum que pretendia
passar por Martine para tentar extorquir dinheiro.
No pode negar isso.
  - Pois no.
  - H ainda o sobrescrito que Emma lhe enderecou para Londres. Foi encontrado em Rutherford
Hall, o que prova que ela esteve realmente ali.
  - Mas a mulher assassinada no esteve l - acentuou Miss Marple.
  - Pelo menos, no no sentido a que se refere. Ela
s veio a Rutherford Hall, depois de estar morta. Foi
empurrada para fora do comboio, quando este contornava a ravina.
  - Sim,  verdade. Mas o sobrescrito prova, na
realidade, que o assassino estava l.  de presumir que
lhe tenha tirado esse sobrescrito juntamente com os
outros papis e coisas que ela levava e deixou-o cair
por engano... ou... pergunto agora a mim mesma se
teria sido por engano. O inspector Bacon e os seus homens revistaram cuidadosamente toda a 
propriedade,
no  verdade? E no encontraram esse sobrescrito.
Este s apareceu mais tarde, na casa da caldeira.
  - Isso  compreensvel - disse Craddock.O jardineiro tem o costume de apanhar todos os papis que 
encontra e de lev -los para ali.
  - Mas estava num stio onde os pequenos podiam
encontr-lo, com facilidade - observou Miss Marple,
pensativa.

  - Julga que o assassino esperava que encontrssemos esse sobrescrito?
  - No sei bem. No fim de contas, seria fcil calcular os stios onde os pequenos andariam  procura
ou at sugerir-lhos... Isto f-lo esquecer-se de Anna
Stravinski, no  verdade?
  - Julga que seja ela?
  - Acho que algum ficou alarmado ao saber que
voc comeara a fazer inquritos a seu respeito, nada
mais... Julgo que esses inquritos contrariavam algum.
  - Consideremos o caso bsico de algum querer
passar por Martine - props Craddock. - Esse algum, por qualquer razo... desistiu desse intento.
Porqu?
  - A est o que se chama uma pergunta muito interessante - apreciou Miss Marple.
  - Algum expediu um telegrama a anunciar o regresso de Martine a Frana, depois arranjou maneira
de fazer a viagem para c com a rapariga e matou-a,
durante o caminho. At aqui, concorda?
  - No exactamente - respondeu Miss Marple.
- No me parece que esteja a simplificar o caso.
  - A simplific-lo! - exclamou Craddock.A senhora confunde-me - queixou-se.
  Miss Marple afiancou, numa voz triste, no ser essa a sua inteno.
  - Ora, diga-me - pediu Craddock -, julga ou
no julga saber quem era a mulher assassinada?
  Miss Marple suspirou:
  -  difcil diz-lo. Isto , no sei guem ela era,
mas ao mesmo tempo tenho quase a certeza de quem
ela era. No sei se compreende o que quero dizer.
  Craddock ergueu a cabea e replicou:
  - Se compreendo o que quer dizer? No fao a
mnima ideia. - Olhou pela janela e anunciou: - A
vem a sua amiga Lucy Eyelesbarrow. Vou-me embora.

202 I 203



Esta tarde, o meu amour propre est muito sensvel e
ver entrar uma rapariga radiante de eficinia e de sucesso  superior s minhas foras.



XXV


  - Consultei a palavra tontina no dicionrio - declarou Lucy.
  - J calculava - redarguiu Miss Marple.
  Lucy recitou lentamente:
  - Lorenzo Tonti, banqueiro italiano, criador, em
mil seiscentos e cinquenta e trs, de um gnero de
anuidade pela qual a parte dos subscritores que morrem  acrescentada  dos sobreviventes - fez uma
pausa e perguntou. -  isso, no  verdade? Isto
ajusta-se perfeitamente ao caso e era no que a senhora
pensava, ainda antes de estas duas mortes terem ocorrido.
  Comeou a andar de maneira agitada de um lado
para outro. Miss Marple observava uma Lucy muito
diferente daquela que conhecera.
  - Suponho que a causa de tudo est nesse testamento - disse Lucy. - Um testamento dessa natureza, 
estabelecendo que, no caso de s haver um sobrevivente, este herdaria toda a fortuna. E, contudo,
trata-se de uma fortuna to grande que o que dela caberia a cada um seria mais do que suficiente...
  - O mal est na voracidade das pessoas - sentenciou Miss Marple, que se apressou a corrigir: - De
algumas pessoas. Muitas vezes  assim que tudo comea. No se comea por assassinar, nem por querer 
assassinar, nem por pensar em faz-lo. Comea-se a ser
voraz, a querer mais do que se conta receber. - Pousou o tric sobre os joelhos e olhou para o espaco  
sua
frente. - Foi assim que eu conheci o inspector Craddock. Um caso no campo, perto de McDenham Spa.

Principiou da mesma maneira, um carcter fraco e
amvel que queria uma grande quantidade de dinheiro. Parecia tudo to simples, que no podia haver mal
nenhum.  assim que as coisas comeam... Mas terminou com trs assassnios.
  - Tal como este caso - comentou Lucy. - J foram assassinadas trs pessoas. Restam duas, no  
verdade?
  - Quer dizer que h apenas Cedric e Emma?
  - Emma no, pois no  um homem alto e moreno. No. Refiro-me a Cedric e a Bryan Eastley. Nunca
tinha pensado em Bryan porque  loiro. Tem bigode
loiro e olhos azuis, mas, sabe... no outro dia... - calou-se.
  - Continue - incitou Miss Marple. - Houve alguma coisa que a deixou impressionada, no  verdade?
  - Foi quando Lady Stoddard-West se ia embora.
Tinha-se j despedido e, quando ia a entrar no carro,
virou-se para mim e perguntou: Quem era aquele homem alto e moreno que estava no terraco, quando 
entrei? A princpio, no percebi a quem se referia, porque Cedric ainda estava deitado. Por conseguinte,
perguntei, um pouco intrigada: cRefere-se a Bryan
Eastley? E ela respondeu: Exactamente, pertencia ao
Esquadro Leader Eastlev. Esteve escondido no nosso
sto, em Frana, durante a Resistnia. Recordo-me
bem da sua figura, dos seus ombros. Gostaria de voltar a v-lo. Mas no o conseguimos encontrar.
  Miss Marple permaneceu calada,  espera que Lucv continuasse a falar.
  - E depois - prosseguiu esta - olhei para ele...
Estava de p, de costas para mim, e vi o que j antes
devia ter visto. Que mesmo quando um homem  loiro, o seu cabelo parece castanho por causa dos 
cremes
que lhe pe. O cabelo de Bryan  de um loiro-acastanhado mas pode parecer nitidamente castanho.
Por isso, podia ter sido Bryan o homem que a sua amiga viu no comboio.

204  205



  - Sim, j me tinha lembrado disso - confessou
Miss Marple.
  - Lembra-se de tudo! - observou Lucy, amargurada.
  - Assim  preciso, minha filha.
  - Mas no vejo o que Bryan ganharia com isso.
O dinheiro caberia a Alexander e no a ele. Calculo
que a vida se lhe tornasse mais fcil, mas no poderia
tocar no capital.
  - Mas, se algo acontecesse a Alexander antes de
ter vinte e um anos, Bryan receberia o dinheiro, na
qualidade de pai.
  Lucy lanou-lhe um olhar horrorizado.
  - No seria capaz disso. Nenhum pai o seria...
apenas para receber o dinheiro.
  Miss Marple suspirou.
  - Engana-se. E um facto muito triste e terrvel,
mas  uma realidade. As pessoas so capazes de coisas
terrveis. Conheco casos muito lamentveis que bem o
atestam. Mas - acrescentou meigamente: - No deve estar ralada, no deve preocupar-se. Elspeth 
McGillicuddy no tardar a chegar.
  - No vejo o que isso tenha a ver com o caso.
  - Pois no, talvez no, minha filha. Mas eu julgo
que isso  importante.
  - No posso deixar de estar ralada - confessou
Lucy. - Tenho interesse por essa famlia.
  - Para si tudo isto  muito penoso porque se sente fortemente atrada por eles dois, embora de modos
diferentes, no  verdade?
  - Que quer dizer? - perguntou Lucy, com vivacidade.
  - Referia-me aos dois filhos de Mister Luther
Crackenthorpe - exclamou Miss Marple. - Ou antes, ao filho e ao genro.  pena que os dois membros
menos agradveis da famlia tenham morrido e que os
dois mais simpticos tenham ficado. No acho Cedric
Crackenthorpe muito atraente. Gosta de se mostrar
pior do que  e h nele uma nota provocadora.

  - s vezes, desespera-me - confessou Lucv.
  - Sim, mas voc gosta dele, no  verdade? Voc
 uma rapariga cheia de vida e aprecia o combate.
  Sim, compreendo onde reside essa atraco. E o outro, Mister Eastley  o tipo triste, parece um garoto
infeliz. E evidente que isso tambm atrai.
  - E um deles  um assassino - disse Lucy, com
amargura. - Tanto pode ser um como outro. Na realidade, nada h que faa parecer um melhor do que o
outro. Cedric no ligou a mnima importnia  morte
de Alfred ou de Harold. Est muito bem recostado em
almofadas, a planear o que h-de fazer com Rutherford Hall. Claro est que j percebi que  o gnero de
pessoa que exagera a sua insensibilidade. Isso pode ser
uma defesa, mas tambm pode no o ser.
  - Minha pobre Lucy, como lamento isto.
  - E Bryan - continuou a jovem -, embora parea extraordinrio, mostrou desejar viver aqui. Diz que
ele e Alexander levariam aqui uma boa vida e est
cheio de planos.
  - Est sempre com planos, no est?
  - Sim. Todos eles parecem maravilhosos, mas tenho a impresso de que nunca resultaro. Quero dizer,
por no serem prticos. A ideia parece boa... mas no
creio que ele chegue a considerar as dificuldades que
ter de vencer.
  - So ideias feitas no ar, no  isso?
  - Sim, sob mais do que um aspecto, todas elas
so ideias no ar. Talvez um piloto de guerra realmente
bom nunca consiga regressar por completo  terra...
  - Compreendo, sim, compreendo...
  Depois, com um sbito olhar de soslaio para Lucy,
perguntou:
  - Mas no  apenas isso, pois no, minha filha?
H mais alguma coisa.
  - Sim, h mais alguma coisa. Uma coisa de que
s h dois dias me apercebi: Bryan podia ter viajado
nesse comboio.


206 I 207



  - No das quatro e trinta e trs, de Paddington?
  - Sim. Emma julgou que teria de fazer um relato
dos seus movimentos no dia vinte de Dezembro e, por
conseguinte, procurou record-los cuidadosamente.
De manh, esteve numa reunio;  tarde, foi fazer
compras e lanhou no restaurante Green Shamrock.
Depois, disse ela, foi esperar Bryan  estao. Foi esper-lo no comboio que partiu de Paddington s 
quatro e
cinquenta, mas ele podia ter chegado no comboio anterior e fingido ter vindo naquele. Contou-me, em
conversa, que o seu carro tinha tido uma avaria e o
mandara para a garagem e que por essa razo viajara
de comboio... embora detestasse faz-lo. Pareceu-lhe
muito natural... mas preferia que no tivesse vindo de
comboio. Bem sei que isso nada prova. So tudo suspeitas, suspeitas horrveis. Nada sabemos e talvez
nunca o saibamos.
  - Certamente que acabaremos por sab-lo - assegurou Miss Marple vivamente. - A Polcia est a
fazer o possvel... e, o que  ainda mais importante,
Elspeth McGillicuddy no tardar a chegar!



XXVI


  - Elspeth, compreendeste bem o que pretendo
que faas?
  - Perfeitamente - assegurou Mrs. McGillicuddy
- mas no posso deixar de dizer-te, Jane, que me parece muito estranho.
  - No tem nada de estranho - contrariou Miss
Marple.
  - Pois eu acho que sim. Chegar a uma casa e pedir, quase imediatamente, para ir... hum... l acima.

  - Est um tempo muito frio - fez notar Miss Marple - e, no fim de contas, podias ter comido algu  ma coisa 
que no te assentasse bem no estmago e...
  precisares de ir l acima. So coisas que acontecem.
  Recordo-me da pobre Louisa Felby que foi uma vez
  visitar-me e, durante a meia hora que durou a visita,
pediu-me cinco vezes para ir l acima.
  - Se, ao menos, me quisesses dizer qual  a tua
ideia.
  - E precisamente isso o que eu no quero fazerdisse Miss Marple.
  - Es muito irritante, Jane. Em primeiro lugar,
obrigas-me a regressar a Inglaterra, antes de ser preciso...
  - Desculpa, mas no podia fazer outra coisa. De
um momento para o outro, pode ser algum assassinado. Bem sei que esto todos prevenidos e que a 
Polcia
tomou todas as precaues possveis, mas h sempre a
possibilidade de o assassino chegar para eles todos, em
intelignia. Por conseguinte, Elspeth, era teu dever
regressares. Seja como for, tanto tu como eu fomos ensinadas a cumprir o nosso dever, no  verdade?
  - Claro que sim; nos nossos tempos, no havia relaxamentos.
  - Por conseguinte, estamos entendidas - concluiu Miss Marple e acrescentou: - O txi acaba de
chegar.

  - Quem ser? - perguntou Emma, espreitando
pela janela. - Creio que  a tia de Lucv.
  - Que maada - queixou-se Cedric.
  Estava estendido numa cadeira de repouso a ler um
Country Life.
  - Diz-lhe que no ests em casa.
  - Queres que seja eu a dizer-lhe ou que encarregue Lucy de o fazer?
  - No me tinha lembrado disso - admitiu Cedric.
  Nesse momento, Mrs. Hart abriu a porta e Miss Marple entrou, muito rolia, envolta numa quantidade de
xailes e lencos, e seguida de uma figura alta e forte.

208  209



  - Espero - disse 'Iiss Marple, estendendo a mo
a Emma -, que no sejamos intrusas. Mas, sabe, volto para casa depois de amanh, e no queria deixar de
vir despedir-me de todos e agradecer-lhes a bondade
com que tm tratado Lucv. Ah, j me esquecia. D-me licenca que lhe apresente Mistress McGillicuddy
que veio fazer-me companhia?
  - Muito prazer - disse lIrs. IVIcGillicuddy, olhando com muita ateno para Emma e desviando depois
o olhar para Cedric, que se pusera de p.
  Lucv entrou nesse momento.
  - Tia Jane, no sabia que...
  - Vim despedir-me de Miss Crackenthorpe, que
tem sido to gentil para contigo, minha filha - declarou Miss Marple, virando-se para Lucy.
  - Lucy  que tem sido gentil para ns - disse
Emma.
  -  verdade - confirmou Cedric. - Tem sido
uma moura de trabalho a tratar dos doentes, a cozinhar dietas, a andar sem parana escada abaixo e 
escada acima...
  - Custou-me tanto saber que estavam doentes.
Espero que esteja agora completamente bem, Miss Crackenthorpe.
  - Oh, sim. Agora j me sinto perfeitamente bem
- afiancou Emma.
  - Lucy disse-me que a senhora tinha estado mui  to mal. H alimentos que so muito perigosos, no 
  verdade? Refiro-me aos cogumelos.
  - A causa da nossa doenca permanece ainda bas  tante misteriosa.
  - No acredite nisso - atalhou Cedric. - Aposto
  que j ouviu o que se diz por a, Miss... hum...
  - Marple - acudiu esta.
  - Como digo, com certeza j ouviu os boatos que
  correm por a. No h nada como o arsnico, para
  criar agitao na vizinhana.

  - Cedric - interveio Emma -, bem sabes o que
  o inspector Craddock disse.

  - Ora, toda a gente o sabe. As senhoras tambm,
no  verdade? - perguntou, dirigindo-se a Miss Marple e a Mrs. McGillicuddy.
  - Eu cheguei do estrangeiro anteontem - declarou a ltima.
  - Ah, nesse caso, no est a par do escndaloexplicou Cedric. - Foi arsnico no caril. Aposto que
a tia de Lucy j o sabia.
  - Bem, apenas ouvi qualquer coisa... - confessou Miss Marple -, foi apenas uma insinuao, mas
claro est que no queria incomod-la de modo algum,
Miss Crackenthorpe.
  - No deve fazer caso do que meu irmo diz.
Gosta de assustar as pessoas - explicou Emma, lancando ao irmo um sorriso afectuoso.
  A porta abriu-se e Mr. Crackenthorpe entrou batendo iradamente com a bengala no cho:
  - Onde est o ch? - perguntou. - Porque no
est pronto? Eh, pequena! - dirigiu-se a Lucv:Porque no trouxe ainda o ch?
  - J est pronto, Mister Crackenthorpe. Vou j
busc-lo. Estava a pr a mesa.
  Lucy voltou a sair da sala e Mr. Crackenthorpe foi
apresentado a Miss Marple e a Mrs. McGillicuddy.
  - Gosto das refeies a horas certas - justificou-se Mr. Crackenthorpe. - Pontualidade e economia
so o meu lema.
  - Ambas so muito necessrias - concordou
Miss Marple -, em especial os tempos de hoje, em
que os impostos so to elevados.
  - Impostos! - resmungou Mr. Crackenthorpe.
- No me fale desses ladres. Um homem pobre...
 o que sou. E isto vai piorar. Espera, meu rapazcontinuou, dirigindo-se a Cedric -, que quando receberes 
esta casa os socialistas ho-de extorquir-te mil
por cento dela e levar-te os rendimentos todos.
  Lucy voltou com o tabuleiro de ch, seguida de
Bryan Eastley, que transportava um outro com sanduches, po com manteiga e um bolo coberto.

210  211



  - Que  isto? Que  isto? - admirou-se Mr. Crackenthorpe, inspeccionando o tabuleiro. - Bolo coberto? 
Hoje temos festa? Ningum me tinha prevenido.
  Um leve rubor tingiu o rosto de Emma.
  - O doutor Quimper vem tomar ch, pai. Faz hoje anos e...
  - Faz anos? E para que precisa de festa? As festas
de anos so apenas para as crianas. Eu nunca conto
os anos que fao e no permito que os celebrem.
  - Sai muito mais barato - comentou Cedric.Poupa o dinheiro das velas do bolo.
  - Cala-te - rugiu Ir. Crackenthorpe.
  lIiss lIarple apertava a mo a Bryan Eastlev.
  - Lucv tem-me falado de si. O senhor lembra-me
uma pessoa muito conhecida de Saint Mary Mead. E a
aldeia onde vivo h muitos anos. Ronnie Wells, o ftlho
do solicitador. Quando comeou a trabalhar com o
pai, parecia no se adaptar. Partiu para a Africa Oriental e iniciou uma carreira de barcos de carga na 
regio
dos Lagos. :Ias, coitado, aquilo foi um fracasso e perdeu todo o capital! Foi uma grande infelicidade. 
Espero
que no seja parente seu? A semelhana  to grande!
  - No, no me parece que tenha alguns parentes
chamados VG'ells - declarou Brvan.
  - Estaa noivo de uma rapariga muito simptica
- prosseguiu 'Iiss lIarple. - Iuito sensata, tambm. Procurava dissuadi-lo, mas ele no queria ouvi-la. Fez 
mal. Sabe, as mulheres tm muito senso,
quando se trata de assuntos de dinheiro. :To de altas
finanas, claro est. Nenhuma mulher pode esperar
compreender isso, como dizia o meu querido pai. Que
panorama maravilhoso se desfruta desta janelaacrescentou, aproximando-se da janela e olhando para
fora.
  Emma juntou-se-lhe.
  - Que terreno enorme! Acho muito pitoresca a

vista do gado entre as rvores. Uma pessoa esquece-se
de que est no meio de uma cidade.
  - Creio que somos um anacronismo - admitiu
Emma. - Se as janelas estivessem abertas, poderamos ouvir o rudo distante do trfico.
  - Oh, certamente, hoje em dia h barulho por toda a parte. At em Saint Mary Mead. Ficmos agora
muito perto de um campo de aviao e, sabe, o barulho que esses avies a jacto fazem  de facto 
assustador! No outro dia, dois vidros da minha estufa partiram-se. Parece que esses avies ultrapassam a 
barreira
do som embora eu no saiba o que isso quer dizer.
  - E muito simples - disse Bryan, aproximando-se com amabilidade. - E assim.
  Miss Marple deixou cair a bolsa e Bryan apanhou-lha delicadamente. No mesmo instante, Mrs. 
McGillicuddy aproximou-se de Emma, e murmurou-lhe ao
ouvido numa voz angustiada:
  - Posso ir l acima?
  - Certamente - respondeu Emma.
  - Eu acompanho-a - ofereceu-se Lucy.
  Lucy e 1Irs. McGillicuddy saram juntas da sala.
  - Acerca da barreira do som... - disse Bryan, retomando o fio  conversa -  assim... Oh, ali vem
Quimper.
  O mdico chegou no seu carro. Entrou, esfregando
as mos e aparentando estar cheio de frio.
  - Vai nevar - profetizou. - Vero que no me
engano. Viva, Emma, como est? Valha-me Deus, que
 isto?
  - Fizemos-lhe um bolo de aniversrio - explicou. - Lembra-se de me ter dito que hoje fazia anos?
  - Mas no esperava isto - explicou Quimper.Sabe, j l vo muitos anos... ora, deixe ver... sim, j
l vo uns dezasseis anos que ningum se lembra do
meu dia de anos. - Parecia muitssimo comovido.
  - Conhece Miss Marple? - perguntou-lhe Emma.
  - Conhece, sim - disse aquela. - J c o tinha

212 213



encontrado e, um dia destes, em que eu estava muito
constipada, foi ver-me e foi muito simptico para
mim.
  - Agora sente-se bem, no  verdade? - perguntou o mdico.
  Miss Marple afiancou-lhe que se sentia de esplndida sade.
  - Ultimamente no tem vindo ver-me, Quimper
- queixou-se Mr. Crackenthorpe. - Se precisasse
dos seus cuidados, j teria morrido.
  - No me parece que, por ora, esteja a morrerdisse o Dr. Quimper.
  - Nem tenciono faz-lo - redarguiu Mr. Crackenthorpe. - Vamos tomar ch. Porque esperamos?
  - Oh, fa_ a o favor - instou lIiss Marple. - No
esperem pela minha amiga. Ficaria aflitssima se o fizessem.
  Sentaram-se e comearam a lanhar. Miss Marple
comeou por aceitar uma fatia de po com manteiga e
depois pegou numa sanduche.
  - So de?... - hesitou.
  - De peixe - informou Emma. - Ajudei a faz-las.
  Mr. Crackenthorpe soltou uma gargalhada e disse:
  - Pasta de peixe envenenada.  o que ... Se o
quiserem comer, isso  convosco.
  - Oh, pai, por favor!
  - Nesta casa temos de ter cuidado com o que comemos - explicou Mr. Crackenthorpe a .Iiss Marple. - 
Dois dos meus filhos foram assassinados como
moscas. Quem  o culpado? No o sei, mas gostava de
sab-lo.
  - No se assuste - interveio Cedric, estendendo
uma vez mais o prato a Nliss Marple. - Um pouco de
arsnico at faz bem  pele.
  - Come uma, meu rapaz - incitou Mr. Crackenthorpe.
  - Quer que eu seja o provador oficial? - perguntou Cedric. - Pois aqui vai.

  Pegou numa sanduche e meteu-a, inteira, na boca.
Miss Marple soltou uma gargalhadinha e tirou uma
sanduche. Mordeu um bocadinho e elogiou:
  - So muito corajosos por fazerem esprito com
uma coisa destas. Sim, acho de facto que  preciso ter
muita coragem. Admiro tanto a coragem!
  Soltou uma arfada e pareceu sufocar.
  - Tenho uma espinha - articulou - na garganta.
  Quimper levantou-se lestamente. Aproximou-se de
Miss Marple, levou-a para a janela e mandou-lhe abrir
a boca. Depois tirou um estojo de algibeira do casaco e
daquele retirou um frceps pequenino. Com destreza
profissional examinou a garganta da idosa senhora.
Nesse momento, a porta abriu-se e Mrs. McGillicuddy
entrou, seguida de Lucy. A primeira soltou um grito,
ao observar a cena  sua frente: Miss Marple inclinada
para trs e o Dr. Quimper segurando-lhe a garganta.
  - Mas  ele! - gritou Mrs. McGillicuddy. - E o
homem do comboio...
  Com incrvel rapidez, Miss Marple soltou-se das
mos do mdico e aproximou-se da amiga.
  - Calculava que o reconhecesses, Elspeth! No,
no digas nada. - Miss Marple virou-se triunfantemente para o Dr. Quimper. - No sabia, pois no, doutor,
que uma pessoa o viu estrangular aquela mulher, no comboio? Foi esta minha amiga, Mistress 
McGillicuddy. Ela
viu-o. Est a compreender? Viu-o com os seus prprios
olhos. Viajava num comboio que corria paralelo ao seu.
  - Que diabo est a dizer? - perguntou o Dr. Quimper, aproximando-se rapidamente de Mrs. McGillicuddy.
Porm, de novo com incrvel rapidez, Miss Marple colocou-se entre os dois.
  - Sim - repetiu Miss Marple. - Ela viu-o e reconheceu-o e est pronta a jur-lo em tribunal. Creioprosseguiu 
Miss Marple - que raramente um crime 
presenciado por terceiros. Em geral, h uma prova circunstanial, mas, neste caso, as condies eram 
muito
invulgares. I-iouve de facto uma testemunha ocular do
crime.


214 215



  - Sua velha demonaca! - gritou o Dr. Quimper.
Precipitou-se para Miss Marple, mas, desta vez, foi
Cedric que o agarrou pelos ombros.
  - Com que ento o senhor  o assassino? - proferiu Cedric, obrigando-o a voltar-se. - Nunca gostei
de si e sempre o achei um patife, mas nunca suspeitei
de que fosse assassino!
  Bryan Eastley veio rapidamente em socorro de Cedric. O inspector Craddock e o inspector Bacon 
entraram na sala.
  - Doutor Quimper - disse o ltimo -, devo
preveni-lo de que...
  - Quero l saber das suas prevenes - berrou o
Dr. Quimper. - Acha que algum acreditar na palavra de duas velhas tontas? Deu-lhes agora para 
inventarem toda essa histria do comboio!
  Miss Marple declarou:
  - Elspeth McGillicuddy participou imediatamente
o assassnio  Polcia, no dia vinte de Dezembro, e fez
uma descrio do homem.
  O Dr. Quimper encolheu os ombros e perguntou:
  - Mas porque havia eu de querer assassinar uma
mulher completamente desconhecida?
  - No era uma desconhecida - contrariou o inspector Craddock. - Era sua mulher.



XXVII


  - Como v, tal como eu suspeitara, tudo foi muitssimo simples - declarou Miss Marple. - Parece que
h muitos homens que matam as prprias mulheres.
  Mrs. McGillicuddy olhou para Miss Marple e para
o inspector Craddock.
  - Gostaria que me pusessem um pouco mais a par'
do que aconteceu.

  - Quimper entreviu a possibilidade de casar com
uma mulher rica: Emma Crackenthorpe - explicou
'Iiss lIarple. - Mas no podia faz-lo por j ser casado. Estava separado da mulher h muitos anos, mas
ela no queria conceder-lhe o divrcio. Isso condizia
muito bem com o que o inspector Craddock me contara dessa rapariga que dizia chamar-se Anna 
Stravinski.
Esta contou a umas amigas que era casada com um ingls e, na opinio destas, ela era uma catlica 
devota.
O doutor Quimper no podia arriscar-se a um caso de
bigamia casando com Emma e, por conseguinte, desapiedada e friamente planeou o assassnio da mulher.
A ideia de mat-la e de, em seguida, meter o seu corpo no sarcfago foi de facto brilhante. Era seu intuito
relacionar esse corpo com a famlia Crackenthorpe.
Antes disso, escrevera uma carta a Emma fingindo ser
de 1'Iartine, a respeito da qual Edmund escrevera  irm, dizendo ser a rapariga de quem estava noivo. 
Emma contara tudo isso ao doutor Quimper. Depois,
quando se apresentou o momento oportuno, ele encorajou-a a falar  Polcia. Queria que a morta fosse
identificada como sendo Martine. Julgo que deve ter
sabido que a Polcia procedia a um inqurito em Paris,
acerca de tnna Stravinski e, por conseguinte, arranjou
aquele postal enviado da Jamaica, dando-a como reme-
tente.
  Foi-lhe fcil encontrar a mulher em Londres, dizer-lhe que desejava uma reconiliao e apresent-la 
famlia. N o falaremos do que a seguir aconteceu, porque  muito desagradvel. Quimper era, sem dvida
alguma, um homem vido. Quando se lembrou dos
impostos e de quanto teria de pagar sobre os rendimentos, comeou a pensar que seria agradvel possuir
mais capital. Talvez j tivesse pensado nisso antes de
decidir matar a mulher. Seja como for, para preparar o
terreno, comeou a espalhar boatos de que algum
tentava envenenar Mister Crackenthorpe e depois acabou por ministrar arsnico a toda a famlia. No em

216  217



dose elevada, claro est, pois no queria que o velho
Mister Crackenthorpe morresse.
  - Mas ainda no compreendo como o conseguiu
fazer - declarou Craddock. - Ele no estava l
quando prepararam o caril.
  - Mas nessa altura o caril no tinha arsnicofez notar 'Iiss lIarple. - S o ministrou mais tarde,
quando levou o caril para anlise. E provvel que j tivesse lanado algum, no jarro do refresco. Depois foi-
lhe muito fcil, como mdico assistente, envenenar
Alfred Crackenthorpe e tambm enviar os comprimidos a Harold, tendo-se, previamente, salvaguardado,
dizendo a este que no precisava de tomar mais. Todo
o seu procedimento foi audacioso, cruel e cpido, e
lamento, na realidade, que tenham abolido a pena capital, porque acho que, se h algum que devesse ser
enforcado, esse algum  o doutor Quimper. Ocorreu-me - continuou lVliss ''Iarple - que, ainda que 
vejamos uma pessoa de costas, essa viso  caracterstica.
Pensei que, se Elspeth visse o doutor Quimper exactamente na mesma posio em que v ira o homem do
comboio, isto , de costas para ela e inclinado sobre
uma mulher a quem segurasse pelo pescoo, decerto o
reconheceria ou soltaria uma exclamao. Foi por essa
razo que tracei o meu plano com a ajuda de Lucy.
  - Devo dizer que essa cena me impressionou vivamente - admitiu Nlrs. NIcGillicuddv. - Disse E ele,
sem poder conter-me. E, no entanto, na realidade, nunca lhe vira a cara e...
  - Tive um medo terrvel de que acrescentasses isso, Elspeth - confessou Vliss .'Zarple.
  - Est claro que ia dizer que no lhe tinha visto a
cara.
  - Isso teria sido fatal, porque, bem vs, ele julgou
que realmente o tizesses zisto. Quer dizer, ele no podia
saber que no lhe tinhas visto a cara.
  - Nesse caso, foi bom ter ficado calada - concluiu .''Irs. 1'IcGillicuddv.

  - Eu no te teria permitido dizeres uma nica palavra mais.
  Craddock soltou uma gargalhada.
  - Estas duas senhoras so maravilhosas. E depois,
Miss Marple? Qual  o feliz desfecho? O que acontece,
por exemplo, a Emma Crackenthorpe?
  - Esquecer o doutor Quimper - profetizou
Miss Marple. - E, se o pai morrer em breve... no
me parece que seja to robusto como diz...  possvel
que ela faa um cruzeiro ou ande pelo estrangeiro, como Geraldine Webb, e acontea qualquer coisa 
romntica. Espero que seja um homem melhor que o doutor
Quimper.
  - E Lucy Eyelesbarrow? Tambm haver repicar
de sinos?
  - Talvez - respondeu Miss Marple. - No me
admiraria.
  - Qual deles escolheu? - perguntou Dermot
Craddock.
  - No o sabe?
  - No, no o sei. E a senhora?
  - Julgo que sim - respondeu Miss Marple, piscando-lhe o olho.





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O Autor e a Obra





  Agatha Christie, romanista e autora dramtica inglesa, de seu nome completo, Agatha Mary Clarissa
Miller Christie, nasceu em Torquay, a 15 de Setembro
de 1891. Filha de me inglesa e pai americano fez os
seus estudos em casa, educada por professores.
  Durante a Primeira Guerra Mundial alistou-se na
Cruz Vermelha para acompanhar o seu primeiro marido, o coronel Archibald Christie, de quem tomou o
clebre apelido, que manteve apesar da separao em
1926. A sua experinia com venenos nos hospitais
onde trabalhou est na origem do profundo conhecimento sobre a matria, utilizado em muitos dos seus
romances. Foi nesta poca que escreveu A Primeira
Investigao de Poirot ( 1920), com que deu incio  sua
longa e brilhante carreira de escritora de livros policiais. Coincidiu a obra com a apresentao da 
personagem Hercule Poirot, o detective belga que se tornaria
quase to conhecido como a sua autora e que na resoluo dos enigmas policiais ser concorrente da 
amvel
Miss Jane Marple, a personagem favorita de Agatha
Christie.
  Depois do segundo casamento, em 1930, com o arquelogo Max Mallowan, a escritora, apaixonada por
viagens, passou a dividir o tempo entre a estruturao dos crimes e as escavaes arqueolgicas.
  Clebre, desde a publicao em 1926 de O Assassinato de Roger Ackroyd, Agatha Christie manteve ao
longo da sua vasta obra - mais de oitenta volumesas caractersticas que identificariam o seu estilo: a 
investigao racional e a psicologia; o mistrio denso e a
variedade de personagens e ambientes; o emaranhado
de indcios e a soluo imprevista.
  Os seus livros encontram-se traduzidos em cerca
de cem lnguas e os exemplares vendidos ascendem s
centenas de milho. No entanto, no foram s os livros policiais a proporcionar-lhe a admirao do pblico, 
pois Agatha Christie tambm  autora de peas de
teatro - refere-se A Ratoeira (1951), mantida em cena
durante vinte e cinco anos -, histrias para crianas e
romances psicolgicos publicados sob o pseudnimo
de Mary Westmacott.
  Membro da Real Sociedade de Literatura e distinguida com um grau honorfico em Letras, atribudo
pela Universidade de Exeter, recebeu, em 1956, o ttulo de Dama do Imprio Britnico, pelo conjunto da
sua obra.
  Agatha Christie morreu em Wallingforg, Oxford, a
12 de Janeiro de 1976.





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FICAO POLICIRIA DE AGATHA CHRISTIE

111 L'LO ORIGI:lL TR9DCCAO PORT1'Gr'Fsa





TTCLO ORIGlhAL TRADL ,'10 PORTL;GCESA

The Mysterious Affair at Styles
Tke Secret Adversary
Murder on the Links
The Man in the Brown Suit
The Secret of Chimneys
Poirot Investigates
The Murder of Roger Ackroyd
Tke Big Four
The Mistery of tke Blue Train
The Thirteen Problems
Partners in Crime
The Seven Dials Memory
The Murder at the Vicariage
The Stttaford Iistery
Peri1 at End House
Parker Pynne Investigates
Lord Edgware Dies
The Hound of Death
Murder on the Orient Express
Why Did't They' Ask Evans%
The Mistery of Listerdale
Three Act Tragedy
The ABC Murders
Death in the Clouds
Murder in Mesopotamia
Cards on the Table
Death on the Nile
Dumb Witness
Murder in the Mews
Appointment with Death
Hercule Poirot's Christmas
Murder is Easy
Ten Little Niggers

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1920   A Primeira Investigao de Poirot
1922   0 Adversrio Secreta
1923   Poirot,0 Golfe e o Crime
1924   0 Homem do Fato Castanho
1925   0 Segredo de Chimneys
1925   Poirot Investiga
1926   0 Assassinato de Rager Ackroyd
1927   As Quatro Potnias do Ma1
1928   0 Mistrio do Comboio Azul
1928   Os Treze Problemas
1929   0 Nomem Que Era o N.a 16
1929   0 Mistrio dos Sete Relgios
1930   Encontro com Um Assassino
1930   0 Mistrio de Sittaford
1931   A Diablica Casa Isolada
1932   Parker Pynne Investiga
1933   A Morte de Lord Edgware
1933   Testemunha de Acusao
1933   G'm Crime no Expresso do Oriente
1933   Perguntem a Evans
1934   0 Mistrio de Listerdale
1934   Tragdia em Trs Actos
1935   Os Crimes do ABC
1935   Morte nas Nuvens
1935   Assassinia na Mesopotmia
1936   Cartas na Mesa
1937   Morte no Nilo
1937   Poirot Perde Uma Cliente
1937   Crime nos Estbulos
1938   Morte entre as Runas
1938   0 Natal de Poirot
1938   Matar  Fcil
1939   Convite para a Morte

  .uu 'peSS
  The Regata Mistery
  The Labours of Hercules
  One Tv>o, Buckle .'lTy Shoe
  Evil L'nder the Sun
  :'' or LI
  The Bodv in the Library
Five Little Pigs
  The :Lloz'ing Finger
  7v>ard Zero
Sparkling Cvanide
Death Comes as the End
The Hollov'
Taken at the Flood
Crooked House
:9 !Llurder is Annaunced
Thev Came to Baghdad
Three BCind Llice
  e (The Iousetrap)
Llrs :lTcGintv's Dead
Thev Do it with :Lliwors
-'lfier the Funeral
A Pocket Full of Rve
Destinatian L'nknoz'n
Hickon' Dickon' Dock
Dead lTan's Folly
The Iysterious Mr. Quin
4.50 from Paddington
Ordeal bv Innocense
Cat Amn,q the Pigeons
The rldventure of the
  Christmas Pudding
The Pale Horse
The vfirror Crak'd from Stde
  to Side
The Clocks
A Caribbean :ylisten_'
At Bertram's Hotel
Third Girl
ndless \'sght
Bv the Pricking of tTy Thumbs
Hallove'en Partv
Passenger to Frankfurt
''emesis
Elephants Can Remember
Postern of Fate
Poirot's EarLv Cases
Curtain. Poirot's Last Case

Sleeping .Llurder
.Lliss Marple's Final Cases

1939   Poirot Salva o Criminoso
1939   O Mistrio da Regata
1939   Os Trabalhos de Hrcules
1940   Os Crimes Patriticos
1940   As Frias de Poirot
1941   Tempo de Espionagem
1941   Um Cadver na Biblioteca
1941   Poirot Desvenda o Passado
1942   O Enigma das Cartas Annimas
1944   Contagem at Zero
1944   A Sade da... Morte
1945   Mower No  o Fim
1946   Poirot o Teatro e a Morte
1948   Arrastados na Torrente
1948   A Ultima Razo do Crime
1950   Participa-se Um Crime
1951   Encontro em Bagdade
1951   A Rataetra

1951   Poirot Contra a Evidnia
1952   Jogo de Espelhos
1953   Os Abutres
1953   Centeio Que Mata
1954   Destino Conhecido
1955   Poirot e os Erros da Dactilgrafa
1956   Poirot e o Jogo Macabro
1957   O Misterioso Mr. Qutn
1957   O Estranho Caso da Velha Curiosa
1958   Cabo da L'fbora
1959   Poirot e as ias do Prnipe
1960   A Aventura do Pudim de Natal
1961   O Cavalo Plido
1962   O Espelho Quebrado
1963   Poirot e os 4 Relgios
1964   Iistrio nas Caraibas
1965   Mistrio em Hotel de Luxo
1966   Poirot e a Terceira Inquilina
1967   Noite sem Fim
1968   Caminha para a Morte
1969   Poirot e o Encontro Juvenil
1970   Passageiro para Francoforte
1971   1'emesis
1972   Os Elefantes No Esquecem
1973   Morte Pela Porta das Traseiras
1974   Ninho de Vespas
1975   Cai o Pano (O Ultimo Caso de
       Poirot)
1976   Crime Adormecido
1979   Os Ultimos Casos de Miss Marple

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